Aos trancos e barrancos, o Festival do Rio dribla as crises e leva Greta Gerwig aos ecrãs

(Fotos: Divulgação)

O Festival do Rio decorre até 19 de dezembro.

Inaugurado no fim dos anos 1990 com Ghost Dog de Jim Jarmusch e uma retrospetiva de John Cassavetes, o Festival do Rio virou uma referência, no Brasil e no mundo, de excelência no garimpo de pepitas cinéfilas de ouro: filmes de culto da Europa, da Ásia e de África só tiveram espaço nos ecrãs da América Latina à conta do evento. Nos últimos anos, por conta da mudança de governo, da entrada de Marcelo Crivella na Prefeitura do Rio de Janeiro e crises na economia da cidade, a maratona cinematográfica ficou ameaçada e sofreu diversas reduções no volume de filmes, além de mudanças na data.

Este ano, a situação foi a mais grave: só mesmo na base do financiamento coletivo (crowdfunding), o Festival conseguiu sair do papel. A abertura será esta segunda-feira, com Little Women, de Greta Gerwig, candidata nata ao Oscar 2020. Até dia 19, uma série de produções internacionais hão de desfilar por uma série de salas de exibição cariocas. Em paralelo, será realizada a Première Brasil, seleção competitiva de longas-metragens nacionais, com disputas de curtas e longas, divididas num cardápio de documentários e um menu de ficções. Vejam a seguir as produções mais esperadas do Festival, que realiza, nos seus momentos finais, uma celebração da franquia Star Wars, a fim de demarcar a estreia mundial do novo filme de J. J. Abrams.

Vitalina Varela, de Pedro Costa: Nos últimos 20 anos, nenhum filme do mítico realizador português teve espaço no circuito exibidor comercial brasileiro. O seu trabalho mais recente foi laureado com o Leopardo de Ouro em Locarno, de onde saiu ainda com o prémio de melhor atriz, dona Vitalina. Nele, acompanhamos a saga de uma cabo-verdiana que, aos 55 anos, ensaia mudar sua vida.

Canción sin nombre, de Melina León: Achado da Quinzena dos Realizadores, este drama é o melhor filme do Peru desde A Teta Assustada (2009). Baseado em factos reais, esta trama em P&B aborda a luta de uma jovem peruana dos anos 1980 para reaver sua bebé recém-nascida com a ajuda de um jornalista.

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Cáncion sin nombre

Skin, de Guy Nattiv: Jamie Bell tem uma atuação desconjuntante no papel de um supremacista branco, tatuado dos pés à cabeça, que, ao se apaixonar por uma mãe solteira (a excecional Danielle Macdonald), decide largar a célula neonazi onde cresceu e virar um sujeito avesso a intolerâncias raciais. Montagem avessa a clichês.

Portrait de la jeune fille en feu , de Céline Sciamma: Laureado com o prémio de melhor argumento em Cannes, este caudaloso ensaio sobre a paixão, ambientado na França de 1770, faz um pleito em prol da liberdade de expressão artística, de boleia na relação amorosa entre uma pintora (Noémie Merlant) e uma jovem que tem um casamento arranjado – papel da genial Adèle Haenel. A fotografia traz uma intensidade fervente para o clima suarento em que as duas se envolvem.

Sinónimos, de Nadav Lapid: Ganhador do Urso de Ouro de 2019, este tratado israelense sobre a afirmação de identidades tem um frescor narrativo raro em seu estudo geopolítico da migração. Yoav (Tom Mercier) chega em Paris, amparado apenas por um dicionário de Hebraico x Francês, a fim de abandonar sua nacionalidade de berço e se reinventar. Mas a tradição segue em seus calcanhares.

First Love, de Takashi Miike: Batizado originalmente de Hatsukoi, o novo thriller do Quentin Tarantino do Japão acompanha o empenho de um pugilista fragilizado por uma doença terminal para ajudar uma jovem acossada por delírios persecutórios num embate contra uma guerra de gangues. As cenas de ação exuberantes surpreenderam mesmo os fãs do prolífico cineasta: “Inspiro muito nos clássicos de samurai de Kurosawa, ainda que eles já não sejam mais um objeto de estudo para as novas gerações no Japão. Mas o meu empenho não está em roubar ideias de Kurosawa e sim em levar as questões do presente, do meu mundo, para um universo que ele lapidou“.

O filme do Bruno Aleixo, de João Moreira e Pedro Santo: O misto de urso e cão que virou febre na web numa série de curtas vindas de Portugal, onde joga “Street Fighter” com uma estátua, tem aqui uma longa-metragem. Nela, os seus amigos vão ajudá-lo a preparar a sua cinebiografia. Ou coisa assim.

Savovi (Cicatrizes), de Miroslav Terzic: A Sérvia brilhou nas telas da Berlinale.69 com este melodrama de uma centelha emotiva incendiária: Stitches (“Savovi”, no original), de Miroslav Terzic. O filme transforma em ficção, com uma potência trágica avassaladora, um crime histórico (e recorrente) nos países que um dia constituíram a Jugoslávia: o rapto de bebés, ainda na maternidade, onde as crianças eram dadas como mortas para seus pais e encaminhadas para adoção em territórios ricos do Velho Mundo. A trama de Terzic acompanha a angústia de uma mulher, Ana (Snezana Bogdanovic), que há 20 anos celebra o aniversário do filho que teria morrido ainda no berçário. Só que o destino bate à porta de Ana com outra versão dos factos. Estaria o menino – hoje já um adulto – vivo?

Madre, de Rodrigo Sorogoyen: Vivendo uma fase de apogeu no streaming e na TV, o novo audiovisual da Espanha fincou a bandeira da excelência na mostra Orizzonti de Veneza, com o folhetim Madre, de Rodrigo Sorogoyen. É Douglas Sirk em versão La casa de papel. Um exercício rigoroso de estudo sobre fraturas afetivas. A trama? Uma mulher (Marta Nieto, laureada em solo veneziano por sua excelência) passa anos atrás do filho desaparecido. O rapaz desaparece numa praia. Para encontrá-lo, ela cria um restaurante no local onde o filho foi visto pela última vez e, lá, trava amizade com um adolescente muito parecido com o seu rebento.

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Hidden Life

Hidden Life, de Terrence Malick: Laureado pelo Júri Ecuménico de Cannes,  o filme é uma desbunda visual. O novo filme do veterano cineasta e filósofo americano recria um episódio trágico da II Guerra Mundial para os austríacos: a história de um germânico que se recusa a apoiar os nazis.

Chambre 212, de Christophe Honoré: Chiara Mastroianni ganhou o primeiro (e até agora único) prémio de interpretação de sua carreira por seu trabalho transbordante como uma advogada que se vê às voltas com o término do seu casamento. A fim de assegurar uns dias a mais para seu afeto de ontem, ela hospeda-se num hotel em frente ao seu apartamento – local onde esteve com seu (agora) ex pela primeira vez. Mas algo de mágico vai ocorrer, aproveitando a maturidade de Honoré como realizador – coisa que demorou a acontecer.

Veneza, de Miguel Falabella: Desenhada com a luz mais bonita da carreira de Gustavo Hadba como fotógrafo, Carmen Maura encanta no papel de Gringa, que trocou a paixão da sua vida por $. O preço da sua escolha vem na forma de uma cegueira e desejo de ir atrás do seu amado. Dira Paes está em estado de graça, como a prostituta n.1 de Gringa, assim como Carlo Castro, laureado no Gramado com o Kikito de melhor secundário pelo seu desempenho digno de Anna Magnani.

Zombi Child, de Bertrand Bonello: Espécie de Carrie, misturado com .docs do Arte sobre bruxaria, o novo filme do realizador de Nocturama (2017) trança dois tempos (os anos 1960 e a atualidade) e dois espaços (o Haiti e a classe média francesa) a partir de um grupo de alunas adolescentes que montam uma sororidade de estudos literárias e têm contacto com os mistérios ocultos de um ritual de zombificação usado em trabalhos servis na América Central. Uma das estudantes pede a uma imigrante haitiana que exorcize os seus males de amor por um namorado, o que deflagra um processo de assombro. A filmagem dos rituais de sincretismo afro ultrapassam os males da alteridade.

Anna, de Heitor Dhalia: Um dos mais versáteis cineastas do Brasil, o realizador de O cheiro do ralo (2006) investiga o universo do teatro, ao narrar a tensa relação entre uma atriz e um encenador, no meio a um processo criativo para a montagem de “Hamlet”.

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