Tantas Almas: vitória colombiana em Marraquexe

(Fotos: Divulgação)

O Festival de Marraquexe encerrou ontem, 7 de dezembro

Numa corajosa atitude, o júri da 18.º Festival de Marraquexe – presidido pela atriz inglesa Tilda Swinton, com o realizador brasileiro Kleber Mendonça Filho entre os seus votantes – concedeu a Estrela de Ouro de 2019 a uma coprodução entre a Colômbia, o Brasil e a Bélgica, filmada a cerca de oito horas de Cartagena: Tantas Almas, de Nicolás Rincón Gille.

Na sua trama, o espectador compartilha dos doídos sentimentos da batalha de José, um pai enlutado para reaver os corpos dos seus filhos, mortos numa guerrilha política, em 2002. Gille, que tem um currículo pautado pela estética documental, estreia-se na ficção escancarando os desajustes políticos do governo colombiano e o seu peso sobre os seus habitantes. O pescador Arley de Jésus experimenta um devir ator no papel de José e a sua jornada por pedaços de sua essência que foram arrancados dele. No ecrã, a referência à estética de Pedro Costa e ao seu No quarto de Vanda (2000) é uma Estrela de Belém a guiar as pesquisas narrativas do realizador sul-americano nas veredas do Real.

Há um contexto de perdas, mediado pela política, que é comum a toda a América Latina“, contou Gille ao C7nema. “Este filme é um testemunho, que luta para registar uma situação do passado, que ainda está aí, de modo não invasivo à realidade, na reconstituição histórica do início dos anos 2000“.

Tilda & cia. deram um Prémio do Júri ex aequo para Last visit (Arábia Saudita), de Abdulmohsen Aldhabaan (um tocante retrato da inadequação entre pai e filho), e para Mosaic Portrait (China), de Zhai Yixiang. O prémio de direção foi para Ala Eddine Slim, da Tunísia, por Tlamess, sobre um soldado que se afasta de combate ao saber da morte da mãe.

Toby Wallace, que saiu de Veneza com o Prémio Marcello Mastroianni, deixou Marraquexe com a láurea de melhor ator por Babyteeth, da Australia. Já o troféu de melhor atriz foi dividido por Nichola Burley e Roxanne Scrimshaw, por Lynn + Lucy, do Reino Unido.

De 30 de novembro até ontem, Tilda, Kleber Mendonça e os seus companheiros de júri foram bombardeados com imagens dos seguintes filmes para julgar, além dos laureados: A Febre, de Maya Da-Rin (Brasil); a animação Bombay Rose (Índia), de Gitanjali Rao; Mamonga (Sérvia, Bósnia Herzegovina, Montenegro), de Stefan Malesevic; The unknown saint (Marrocos), de Alaa Eddine Aljem; Mickey and the Bear (EUA), de Annabelle Attanasio; Nafi’s father (Senegal), de Mamadou Dia; Scattered night (Coreia do Sul), de Lee Joh-young; Sole (Itália, Polônia), de Carlo Sironi). Integraram ainda o júri as cineastas Rebecca Zlotowski (francesa) e Andrea Arnold (inglesa); a atriz franco-italiana Chiara Mastroianni; o ator sueco Mikael Persbrandt; o escritor e realizador afegão Atiq Rahimi; o realizador australiano David Michôd; e o cineasta marroquino Ali Essafi. Entre os momentos de maior emoção do festival, as lágrimas corream solto da face grisalha do veterano diretor francês Bertrand Tavernier, também honrado com um tributo no local, quando foi assistir a palestra do ator Harvey Keitel.

Com o término de Marraquexe, as expetativas do cinema voltam-se para a Berlinale 2020 (20 de fevereiro a 1 de março), que terá a atriz inglesa Helen Mirren, de 74 anos, como homenageada, com direito a receber o Urso de Ouro Honorário. Os concorrentes e suas atrações paralelas vão ser anunciados a partir da semana que vem.

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