
A Mostra de Cinema de Expressão Alemã (Kino) tem a sua maior edição de sempre e arranca amanhã em Lisboa, local onde decorre até 4 de fevereiro – com sessões no cinema São Jorge, na Cinemateca de Lisboa e no Goethe-Institut. Este ano conta ainda com duas extensões, uma em Coimbra (28 a 30 no teatro Gil Vicente) e Porto (30 a 01/02 na Fundação Serralves e na Casa das Artes). O evento é organizado pelo Goethe Institut de Lisboa.
Para a sua 13ª edição, foram selecionados 37 trabalhos entre longas e curtas de ficção e documentários. O evento reúne produções recentes de quatro países – Alemanha, Áustria, Suíça e Luxemburgo. Outro dos destaques é uma retrospetiva dedicada a um dos mais controversos cineastas alemães, Rosa von Praunheim, um ferrenho ativista dos direitos dos homossexuais no seu país.

De acordo com a programadora da Kino, Corinna Lawrenz, um dos objetivos mais importantes da seleção é demonstrar a diversidade da produção cultural destes quatro países e, particularmente no caso da Alemanha, da variedade dentro das suas próprias fronteiras. É o caso, por exemplo, das zonas rurais do país. “A Mostra também é uma forma de dar a conhecer filmes e realizadores que não encontram espaço no circuito comercial“, observa.
Os aspetos políticos e sociais marcam a programação: só sobre a emigração são três filmes e, mesmo que não diretamente, várias outras obras mostram aspetos da realidade político-social dos países ou regiões retratadas. Algumas obras surgem diretamente da emblemática Perspektives Deutsches Kino, seção do Festival de Berlim dedicado ao cinema germânico.
Política sem didática
“A ideia é uma abordagem da política não de uma forma didática, mas livre“, ressalta Lawrenz. É o caso do filme de abertura, A Mentira dos Vencedores, que trata de lobbies das Forças Armadas alemãs .”É um filme que de alguma maneira diz muito sobre a programação na sua relação com as outras obras“, diz.
Também político é o novo filme de Fatih Akin, consagrado em 2004 com A Noiva Turca. The Cut, onde o realizador volta o seu arsenal para a questão do genocídio arménio – um tema explosivo na Turquia. Com De Outro Lado (2008), a obra fecha a trilogia do autor “Amor, Morte e o Mal”.

The Cut
Para a programadora da Kino é igualmente política a obra do controverso Rosa von Praunheim, objeto da retrospetiva na Cinemateca e que também terá exibido seu trabalho mais recente, Brutalidade. O cineasta é famoso na Alemanha pela sua obra controversa e o seu manifesto ativismo pelos direitos dos homossexuais.
Já Supermundo, o filme de encerramento, aborda a questão da religiosidade. Para Corinna Lawrenz, “é uma obra que se encaixa bem dentro de uma retrospetiva da Kino dos últimos dois anos, que também trouxeram temas semelhantes”.
A questão dos refugiados
Um dos temas mais contemporâneos da Europa no momento é, certamente, a questão da emigração e a sua importância surge refletida na escolha de três obras que tratam do assunto. Um deles é o documentário Lampedusa no Inverno, estreado em Locarno e vencedor, na última semana, do prémio de Melhor Documentário pela Academia da Áustria. A obra trata da questão das frágeis políticas governamentais em relação aos refugiados num caso específico – o da chamada “ilha dos refugiados”, próxima à costa italiana.

Lampedusa no Inverno
Já o suíço Território Desconhecido trata do problemático processo de integração de jovens estrangeiros no país através do trabalho de um instrutor – que luta para dar-lhes uma educação que lhes permita construir uma nova vida. Por sua vez, ‘Boas-Vindas‘ em Alemão retrata de forma emocional as drásticas modificações que decorrem numa pequena localidade na altura de receber um grupo de refugiados.
Jovens desesperadas
Diretamente ligado a questões de emigrações está Somos Jovens. Somos Fortes., onde o realizador Burhan Qurbani, um descendente de afegãos, reconstrói a violenta noite em 1992, em Rostock, onde um grupo de skinheads ataca um centro de asilo a emigrantes.
A desilusão juvenil na antiga Alemanha comunista também surge em Quando Sonhávamos, obra vinda da Seleção Oficial do Festival de Berlim e realizada por Andreas Dresen. Nesta história também jovens sem rumo perambulam pelas ruas, entrando em cena também os inevitáveis neonazis.

