A 6ª edição da Mostra de Cinema da América Latina decorre entre quinta-feira e domingo (13/10) no cinema São Jorge, em Lisboa. Entre os destaques estão os filmes de abertura, El Abrazo de la Serpiente (foto abaixo), galardoado na Quinzena dos Realizadores da última edição do Festival de Cannes, El Clan (segunda foto abaixo), o muito falado filme de Pablo Trapero que lhe rendeu o prémio de Melhor Realizador em Veneza, e o chileno La Mujer de Barro (foto acima), de Sérgio Castro, distinguido em Sundance. Outra novidade é a extensão até Loulé, no final de janeiro, onde está incluído o brasileiro Que Horas Ela Volta?.
Completam a programação outra obra do Brasil (Campo Grande, terceira foto abaixo) e trabalhos de Cuba (Esther en Alguna Parte), República Dominicana (De Pez em Quando), México (Las Sufragistas) e Argentina (Francisco de Buenos Aires).
Segue abaixo uma conversa com Maria Xavier, programadora da Mostra.
Argentina, Chile e México produzem hoje uma parte do melhor cinema do mundo. O que pode dizer sobre essa ascensão ocorrida nos últimos anos?
Há vários factores que têm contribuído para esta ascensão, que não é reflexo de uma produção recente. A indústria cinematográfica nestes países está consolidada, existe uma tradição de cinema da parte de quem produz como de quem vê, os públicos nacionais estão com atenção ao cinema nacional. Destacaria os seguintes: a existência de programas de estímulo à produção nacional e coprodução internacional, de que são exemplo o Ibermedia no espaço ibero-americano e o próprio programa de apoio desenvolvido pelo ICA para coproduções luso-brasileiras.
Também os festivais de cinema, um pouco por todo o mundo, que contribuem para esta visibilidade – mesmo quando não são exclusivamente dedicados à América Latina, reservam uma parte da programação para filmes da região). Talvez isto represente a necessidade de um olhar contemporâneo para outras realidades e para uma “aprendizagem” do outro e, logo, de nós próprios; finalmente, eu diria que, inerente à produção destes filmes, está de facto uma enorme criatividade e capacidade autoral, com narrativas que subvertem o mainstream do mercado cinematográfico dominante, de matriz norte-americana. A América Latina está, de certa forma, a ser redescoberta.

Quais são os maiores desafios em divulgar uma cultura que não tem um vínculo mais direto com Portugal (como tem como a Espanha, por exemplo, com os países de língua espanhola)?
O desafio é o prazer da descoberta, inclusive de vínculos que pensávamos que não existiam. Nós temos uma relação com estes países muito além do espaço brasileiro. A nossa história colonial deve ser vista não só do ponto de vista do Estado mas das pessoas. É uma história de vidas, de encontros, territórios partilhados, híbridos, comuns, sobretudo pela herança indígena que não conhece fronteiras. Basta para isso ler alguns clássicos da literatura brasileira, como Érico Veríssimo, por exemplo, que conta tão bem esta história vivia na região sul, entre portugueses, espanhóis e indígenas.
Outro prazer são as afinidades que surgem, quando nos revemos em personagens que têm problemas como os nossos, e o horizonte de possibilidades que as suas histórias nos dão a que podemos chamar, simplesmente, esperança.
O que pode antecipar sobre o filme de abertura e sobre o porquê da sua escolha?
A escolha foi intuitiva, ainda antes do prémio em Cannes. O colombiano Ciro Guerra é um cineasta-artista, a estética do filme impressiona, capaz de proporcionar ao público um contacto sensorial, quase físico, com a selva amazónica. E depois por tudo o que representa: o encontro entre mundos, a reflexão sobre (que) ciência, a riqueza linguística e a relação entre poder e religião. É um filme de grande beleza. Teremos na abertura um dos protagonistas do filme, o belga Jan Bijvoet, que dará o seu testemunho. Estamos com grande expectativa.

Algumas obras tiveram já algum destaque mediático, como O Clã e Que Horas Ela Volta?. O que destacaria em relação ao restante da programação?
O destaque mediático nestes casos nunca é o suficiente porque são raros os que chegam ao circuito comercial e aí permanecem a tempo de serem vistos. A pressão das distribuidoras é muito grande. Logo, a inclusão destes dois filmes é para dar a hipótese ao público de os ver, ambos indicados para representar os seus países na corrida aos óscares.
Sobre os outros filmes, cada um tem o seu valor, além das distinções oficiais. Porque esta mostra não é um projeto que pretende apresentar a América Latina como unidade, mas na diversidade. Recomendo um olhar atencioso ao programa, porque temos desde comédias dramáticas à história do latino-americano que virou Papa e à infância na cidade do Rio de Janeiro. Destaco os filmes cujos realizadores estarão em Lisboa: Ana Cruz dirigiu Las Sufragistas, que conta a luta pelo voto feminino no México, e Sergio Castro La Mujer de Barro, a história de vida de uma mulher lutadora, com Catalina Saavedra no papel principal, uma das grandes atrizes chilenas da atualidade.
Até que ponto o grande número de festivais/mostras de cinema em Portugal e em particular em Lisboa afeta nas decisões da programação de uma mostra como esta? Isto no sentido de termos mostras brasileiras e argentinas, para além dos festivais que roçam na programação deste, como FESTin, IndieLisboa, Lisbon & Estoril Film Festival?
Não afeta. Estamos com atenção aos outros festivais e ainda bem que eles existem. Evitamos repetir filmes, mas este ano assumimos claramente a decisão de apresentar O Clã e Que horas Ela Volta?, uma vez que temos a extensão a Loulé. Não funcionamos em competição mas no sentido comum, de divulgação destas realidades pelo cinema, que tem essa capacidade única de nos transportar para lá.

A nossa programação procura, sem descurar a qualidade, representar a diversidade, desvendar realidades frequentemente mistificadas por narrativas mediáticas e políticas que tomam a parte pelo todo. Não. Aqui cada parte é uma parte. Cada história tem o seu lugar na História, cada personagem a sua vida. Queremos mostrar, através destes filmes, a vida como ela é: nas cidades, nos campos, na casa das pessoas, na sua intimidade. E fazer pensar, cada um de nós, ocidentais e europeus, como terão sido encontros, no passado, com culturas diferentes da nossa, tema que se recoloca a cada dia, em novos contextos. Negociação cultural, social, geracional, política. Tensões, encontros e desencontros, sociedades vivas e em transformação… É isto o que o público pode encontrar neste cinema da América Latina que agora trazemos a Portugal.

