
Bella e Perduta (Bela e Perdida), de Pietro Marcello, regista um passeio pela Itália atual e foi o filme escolhido para abertura da 13ª edição do Doclisboa. Por sua vez, o chileno El Botón de Nácar, de Patricio Gusmán, estreado na seleção oficial da última edição do Festival de Berlim, encerra o certame. O evento decorre até 1 de novembro em espaços como a Culturgest, o cinema São Jorge e a Cinemateca.
A programação traz 20 filmes na competição internacional (sem diferenciação entre curtas e longas-metragens) e oito na portuguesa, para além de duas vastas retrospetivas – uma dedicada à representação do terrorismo no cinema e a outra ao cineasta sérvio Zelimir Zilnic. A Grécia, por sua vez, será objeto da secção Foco. Secções habituais marcam presença, como Verdes Anos (novos realizadores), Heart Beat (música), Riscos (experimentais), Cinema de Urgência (temáticas recentes) e cinco obras da parceria com a Doc Alliance.
Nos eventos paralelos, destaque para masterclass com Zilnic, onde um debate sobre censura com o antigo colaborador Karpo Godina lança luz à dark wave, forte movimento contestatório surgido na antiga Jugoslávia e que na altura contou com Dusan Makavejev, eventualmente o único a ficar conhecido no Ocidente.
CINEMA PORTUGUÊS

Embora a situação do cinema português continue a não ser radiante em termos de quantidade, a diretora do Doclisboa, Cíntia Gil, acredita que eles existem em número suficiente para uma programação de qualidade. Para além de alguns trabalhos em antestreia, com destaque para o novo de João Canijo e Anabela Moreira, Um Dia de cada Vez, a seleção traz oito títulos em competição. «É uma seleção forte. São filmes muito diferentes uns dos outros, muito provocadores – não só nas suas estratégias formais e narrativas como na relação com o próprio cinema documental. É uma seleção muito coesa e consistente, estamos muito satisfeitos», afirma.
O DOCLISBOA E A POLÍTICA
O festival teve sempre uma forte ligação com a política e este ano não é diferente – contando, entre outras ações, com uma extensa mostra dedicada à forma como o terrorismo é representado no cinema. Conforme Cíntia Gil, o Doclisboa é pensado não só como um evento dedicado ao público cinéfilo, mas uma atividade comunitária que serve como espaço de reflexão. «Todo o festival de cinema tem a sua responsabilidade e permite uma espécie de exceção no quotidiano das pessoas que seja um tempo de reflexão na sua relação com o mundo».

Les Ordres
Neste sentido, «I Don’t Throw Bombs, I Make Films», lança uma perspetiva histórica que traça os caminhos com que se chegou até o presente. «Quando pensamos os filmes fechados apenas no seu presente, na sua atualidade, arriscamos a fazer uma interpretação limitada destas obras. Achamos importante olharmos para a história do cinema e percebemos de onde este presente vem», observa.
SUBVERSÃO E IRONIA: A OBRA DE ZELIMIR ZILNIC
Pouco conhecido fora da antiga Jugoslávia, a diretora do Doclisboa apresenta o cineasta como «um autor fundamental da história do cinema, com uma energia e uma vitalidade extraordinária, assim como a sua capacidade de previsão dos movimentos sociais, geopolíticos e estéticos no nosso continente. A obra dele é muito acessível a todos e, ao mesmo tempo, irónica e subversiva».
A retrospetiva englobará as 15 obras de 50 anos de carreira do realizador, que começou em 1967 na mencionada black wave e que traz em Logbook Serbistan, deste ano, uma reflexão sobre o problema dos refugiados. «É a primeira vez no mundo que é feita uma retrospetiva da obra dele, com 15 antestreias mundiais fora do seu país», reforça.
A FORMA E O CONTEÚDO
A entrega do prémio máximo no ano passado ao experimentalismo radical de Wang Bing (Father and Sons) pressupõe, mais uma vez, o eterno debate sobre o privilégio da forma – que na sua esfera radical produz obras nem sempre palatáveis a um público mais alargado – sobre o conteúdo. Para Cíntia Gil essa divisão não faz sentido, pois os filmes são resultados de uma construção dinâmica onde o conteúdo se descobre na forma e vice-versa. Por isso, «não pode haver uma programação meramente temática, assim como também não pode ser exclusivamente formalista. Esta é a marca que um festival de cinema documental deve ter hoje».
Ao mesmo tempo, é certo que existem filmes com uma intencionalidade e uma execução mais acessíveis que outros. «Aquilo que nós tentamos é perguntar primeiro qual é a procura de cada filme e de que modo ele é o resultado desta construção dinâmica entre a procura poética, política, ética, estética e as suas estratégias formais e narrativas», acrescenta.

