
A um ano da cidade se tornar capital Europeia da Cultura, o festival de San Sebastián aparece de confiança renovada. É fácil de o comprovar na seleção oficial do festival, onde nomes como Amenábar e Ben Wheatley, que escolheram o certame para dar a conhecer ao mundo os seus novos trabalhos, salientam-se num programa, que pelo menos no papel é impressionante.
Como é habitual todos os anos, o cinema espanhol e latino é rei por estas paragens. Como tal, não foi de estranhar que o filho predileto da casa, o realizador basco Álex de la Iglesia, tenha sido um dos primeiros a abrir o evento com o seu Mi gran noche. No entanto, toda a pompa e circunstancia não são capazes de esconder o facto de que o cinema espanhol é hoje mais insular do que nunca (salvo raras exceções), fechado num paradigma que apenas tem o mercado local como horizonte, e mesmo esse, vive progressivamente mais divorciado da audiência que tanto ambiciona e precisa. Só nesse contexto se explica um caso como Álex de la Iglesia, que desde 1995, altura em que cativou a atenção de muitos com O dia da besta, e que desde então nada mais faz do que replicar a mesma receita de humor e extravagância, que aparentemente só o publico espanhol percebe. Mi gran noche segue a mesma lógica e como tal, embora seja o seu melhor trabalho dos últimos anos, será mais uma vez um produto que dificilmente atravessará qualquer fronteira. A comédia descreve-nos uma noite num estúdio de televisão durante as filmagens de um particularmente difícil programa de ano novo. A nível técnico o processo não é merecedor de qualquer critica negativa. Se há algo que Alex de la Iglesia faz bem, é desenvolver um processo eficaz e convincente. O problema é mais uma vez o conteúdo.
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Mi gran noche
Apesar de alguns ecos, muito baixinhos, de critica às consequências da crise financeira, o filme nada mais é do que uma parodia da cultura pop espanhola, com referências e sátiras muito especificas. Das muitas personagens que o filme exige que sejam digeridas, talvez a mais relevante e interessante seja a de Alfonso, um cantor popular ao estilo de Tony Carreira, que apesar de um decréscimo de popularidade mantém uma postura de estrela extravagante e maquiavélica na forma como tenta relançar a sua carreira. A personagem assume um cariz especial por ser protagonizada por Raphael, uma figura incontornável da musica pop espanhola e um rival de Julio Iglesias.
De resto, o filme apenas proporciona umas dispersas gargalhadas e uma valente dor de cabeça, já que mais se assemelha a um formato de teatro de revista do que cinema propriamente dito. Mas lá está, num contexto como o espanhol, onde se produz mais de uma centena de filmes por ano, há sempre espaço para corajosas exceções. Uma dessas, também revelada em San Sebastian, foi o mais recente trabalho do também basco Asier Altuna (Bertsolari). O seu Amama conta-nos a historia de uma família dividida entre as tradições rurais bascas e o desenvolvidamente moderno dos grandes centros urbanos. Por si só o tema devia ser o suficiente para fazer bocejar o mais corajoso dos cinéfilos, no entanto Amama esconde por de traz de uma fachada conservadora vários pontos de interesse.
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Amama
A família protagonista está longe de ser uma família qualquer, tal como o espaço onde se desenrola a ação. Tão magica como cruel, a paisagem rural basca tem muito de místico. As lendas e tradições da região são o mote para um filme que revela segredos e conflitos entre duas gerações: uma que exige que se mantenham os velhos hábitos, por mais cruéis e inaceitáveis que estes sejam; outra que olha para a região de uma forma diferente e de renovada ambição. É um contraponto interessante tendo em conta a historia atribulada do País Basco. Enquanto a velha geração, que se vira para o passado para encontrar razões para seguir em frente, não olha a meios para voltar a uma gloria que nunca existiu, a nova geração escolhe esquecer-se do passado, porque o passado basco é demasiado severo para ser considerado futuro. Neste confronto de perspetivas temporais e quase ideológicas. surge uma visão cativante, num filme que sobrevive de um inicio e um final francamente fortes, apesar de se perder esporadicamente pelo meio.
Também com ecos regionais surge El Camí més llarg per tornar a casa, do catalão Sergi Perez Gómez, que está em exibição na secção Made in Spain. Apesar de aparentar muita modéstia, este é um trabalho deveras ambicioso e difícil de assimilar. A narrativa joga quase um papel secundário neste filme de linguá catalã, já que o que Perez oferece é uma experiência quase sensorial, onde a audiência partilha toda a dor do protagonista. Joel é um homem em estado de coma emocional fruto do falecimento de alguém que lhe era muito próximo. O auto-isolamento a que se propôs, fechado a sete chaves dentro do seu apartamento, é posto em causa pelas necessidades do seu cão, alvo predileto de muita da agressividade e descontrolo da personagem. Aos poucos é nos revelada a natureza dos acontecimentos, e no processo ficamos a conhecer o que é viver à beira do abismo psicológico.
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El Camí més llarg per tornar a casa
A técnica de El Camí més llarg per tornar a casa tem tanto de inovador como exaustivo. Seguramente não é um filme para qualquer um, mas todos aqueles que exigem do seu cinema algo mais do que umas horas de entretenimento, vão encontrar no trabalho de Sergi Perez Gómez um vital olhar para o que mais de interessante se faz no país de “nuestros hermanos”.
Numa perspetiva não muito diferente, passou também nesta primeira fase do festival, o mais recente trabalho do Islandês Runar Rúnarsson. Um pouco na linha de Amama, o realizador que à três anos atrás chegou à ribalta com Volcano [ler crítica], apresenta agora Sparrows, a história de um adolescente que se vê obrigado a mudar-se para a costa ocidental da Islândia, uma região rural onde perdura uma cultura de alcoolismo endêmico, para além de muitos outros problemas sociais. Longe da pujança de Volcano, o novo filme de Rúnarsson é de certa forma desequilibrado. Os factores que tornaram o novo cinema islandês um dos preferidos das audiências festivaleiras, como aconteceu com Of horses and men, de Benedikt Erlingsson, ou mais recentemente com Rams, de Grímur Hákornason, estão todos presentes.
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Sparrows
Também em Sparrows é possível admirar a rudeza sedutora da paisagem islandesa, que joga um papel central no desenvolvimento da história. No entanto, este enredo sobre o desenvolvimento pessoal de um jovem, lado a lado a uma cultura que lhe é estranha, durante grande parte pouco mais tem a oferecer do que o habitual. No final, como se tirada de uma cartola magica, o filme muda 180 graus, como um par de estalos não anunciado nem justificado, quando uma noite de diversão e experimentalismo com drogas se transforma em desgraça. Não é que o truque não funcione, e diga-se, transforma o filme em algo mais profundo e obscuro, no entanto é difícil não ficar com a sensação de pasmo e incompreensão. Tendo em conta que Rúnarsson é um dos mais promissores realizadores no contexto europeu contemporâneo, é bem possível que este seja daqueles filmes que exige de um certo período de maturação para voltar a fazer sentido.

