
O realizador Abner Pastoll, a atriz Joséphine de La Baume, a produtora Junyoung Jang
O quarto dia abriu de certa maneira histérica face à adaptação da popular manga de Yusei Matsui, Assassination Classroom, um sucesso nipónico que confere que os maneirismos da matéria-prima estão muito longe de ser simbióticas com o território cinematográfico. Existe aqui, nesta bizarra história de um extraterrestre que ensina os piores alunos do Japão como matá-lo, para que não cumpra a sua promessa de destruição da Terra (?), um verdadeiro desequilíbrio entre comédia, drama, o sintético das páginas da manga e a ação estilosa mas sem personalidade. Um fruto de fascínio dos fãs dessa mesma cultura, mas não do cinema como veiculo na arte de narrar intrigas ou expressar-se por vias das imagens. Melhor forma apresentou a curta que o antecedeu, Badguys #2, do norte-americano Chris Mclnroy, que adquire contornos prazenteiros no seu humor (bem) negro.
O dia continuou com o belga Cub, de Jonas Govaerst, o enésimo exercício de medo da floresta (The Woods) e com Hardware, um filme de 1990 integrado na retrospetiva a Richard Stanley, presente ao logo do MOTELx. Hardware é uma ficção científica tão assimilada no terror físico que transcreve referências do género durante o seu desenrolar. Descrito com emoção visual e muitas surpresas no foro estético, a revolta das máquinas adquire aqui um tratamento “trash”, comparado com o primeiro Terminator, mas sob um orçamento mais baixo que lhe dá um contono mais artesanal.
Roar, o filme mais perigoso alguma vez rodado

Um dos grandes eventos do dia seguiu no final da tarde com a apresentação do “maldito” Roar, a obra que recebeu, merecidamente, o estatuto de “filme mais perigoso alguma vez rodado”. Contando, com várias dezenas de animais reais, incluindo leões, tigres, pumas e elefantes, não é fácil esconder o pavor do elenco em não conseguir contracenar com estes animais nada domesticados. O produtor de O Exorcista, Noel Marshall, decidiu apostar num drama familiar de contornos ecológicos no seio de África, contando com a sua própria família como os protagonistas. A sua mulher, Tippi Hedren, conseguiu lidar com os Pássaros de Alfred Hitchcock, filme pelo qual se converteu numa estrela, mas foi insuficiente para “dominar” as bestas selvagens propostas pelo seu marido. Nem mesmo a filha, Melanie Griffth, escapou ilesa a esta traumatizante experiência.
Curiosamente, o diretor de fotografia, Jan de Bont, mais tarde conhecido como realizador de Speed e do ridículo A Mansão, foi atacado por um destes animais, regressando 20 dias depois às rodagens. Os ferimentos causados por esse animal poderiam ser fatais, um facto que é demonstrado no poster de promoção, onde é possível ver a sua fotografia após o acidente, com um ferimento na nuca. Nesse mesmo poster encontra-se estampado a tagline “nenhum animal foi ferido durante as rodagens, mas cerca de 70 membros da equipa foram”.
Lançado em 1981, Roar foi um autêntico fiasco de bilheteira e crítica, tendo desaparecido desde então, até ser redescoberto pela Drafthouse e agora lançado numa digressão internacional para verdadeiro desagrado dos atores e do realizador. O filho deste, John Marshall, esteve presente na sessão, a qual foi bastante divertida face a um acidente constrangedor e nunca visto, que provou nos dias de hoje funcionar como perfeita comédia involuntária.
Bacon à volta com a criançada e mais um tiro no escuro de Nakata

De seguida, o “xerife” Kevin Bacon tentou reaver o seu carro de patrulha da mão de duas inocentes crianças em Cop Car, uma fita do realizador do próximo projeto da saga Homem-Aranha, Jon Watts. Uma fita simples, bastante vincada no cinema de interior norte-americano e no realismo formalizado desse mesmo estilo. No mesmo horário, mas na sala ao lado [sala 3], vemos o regresso do mexicano Adrían García Bogliano ao MOTELx com Scherzo Diabolico. O resto da noite ficou entregue a Turbo Kid / Everly e às crónicas imortalizadas de What We Do In The Shadows.
Já no quinto dia, Ghost Theater, o novo filme de Hideo Nakata (Ringu), abriu a mostra de longas-metragens diárias, uma assombração falhada de um cineasta cada vez mais longe de destaque no J-Horror. A melhor experiência foi a curta-metragem norueguesa que o antecedeu, Autumn Harvest, de Fredik S. Hana, sob um misto de identidades “bergmanianas” com influências de Lovecraft. Para aqueles que consideram que os fantasmas e nipónicos não são uma proposta cinematográfica interessante, sempre puderam contar com a reposição de Cop Car.
Depois seguiu-se Coin Locker Girl, apresentado na última Semana da Crítica em Cannes, um thriller melodramático que só os coreanos conseguem incutir. No final da tarde surgiu Extinction, onde Miguel Ángel Vivas transforma um cenário pós-apocalíptico num “campo propício” a dramas humanos, apesar de falhados sobre um tom demasiado rebuscado e um elenco com limitações interpretativas.
Lusoxploitation

Na sala ao lado tivemos a oportunidade de visualizar A Caçada do Malhadeiro, o primeiro filme integrado na secção Quarto Perdido, este ano dedicado ao “lusoxploitation“, termo que poderá cair no uso a partir desta mostra. Recuperado pela Cinemateca-Portuguesa, uma cópia “fresquinha” e de semi-perfeita qualidade, o filme foi projetado na sala 3, antecedido por um pequeno discurso de José Manuel Costa, diretor da Cinemateca, que salientou a importância de iniciativas como estas e o trabalho incansável do Museu do Cinema em recuperar memórias perdidas de um Portugal esquecido.
A Caçada do Malhadeiro poderá ser generalizado como um I Spit on Your Grave lusitano, onde é evidente o complexo de Padeira de Aljubarrota e a firmeza do valores portugueses face a “invasões estrangeiras”. O enredo é simples e direto: soldados napoleónicos perdidos num Portugal profundo em direção à fronteira, que tentam se reabastecer numa casa remota pertencente a camponeses. Porém, a luxúria falou mais alto e parte destes homens acabam por violar a filha do camponês. A vingança é aqui um elemento condutor de toda a narrativa, enquanto que Quirino Simões, o realizador, demonstra a sua aptidão para cinema de guerrilha, visto que havia executado trabalhos de registo audiovisual militar durante a Guerra do Ultramar. Um dos atores do filme, Vítor “Gato Preto” Gomes, encontrou-se presente na sessão.
Neste dia, a noite foi tudo menos entediante. Aliás, o grande destaque foi a sessão especial de The Rocky Horror Picture Show. O mais famoso dos midnight movies tem por fim a sua merecida projeção no nosso país. A sessão foi interactiva e divertida e o filme de Jim Sharman, com o excêntrico desempenho de Tim Curry, demonstra que não envelheceu mal e continua a deslumbrar gerações com uma arrojada fórmula de sátira à série B.
O último dia, o mais intenso

Porém, foi no último dia que as propostas foram mais intensas. Green Room, por exemplo, fez vitimas. Depois da Ruína Azul, Jeremy Saulnier regressa à sua simplicidade, construindo um arquétipo de filme de terror de cerco onde à sua particularidade é a veracidade dos “monstros”, aqui neonazis liderados por um sinistro Patrick Stewart. Já Takashi Miike prova que trabalha sob uma absoluta liberdade criativa e o seu Yakuza Apocalypse é uma comédia de ação e terror com elementos inesperados e bizarros.
Richard Stanley prova ser o protagonista desta edição do MOTELx com a coordenação de uma masterclass e a exibição de Dust Devil, até à data a sua melhor obra, um trabalho infernal e de cariz intenso de crítica social e politica à África do Sul. Atmosférico, esotérico, um verdadeiro “choque” para com o espectador, vale a pena “resgatar” Dust Devil da “tumba do esquecimento”.
Os muitos raros Sinal Vermelho (uma esquecida co-produção portuguesa e espanhola) e Eugénie (no âmbito da homenagem a Christopher Lee) marcaram a programação deste dia. Na reta final, Kim Basinger motivou debates com I am Here, um drama psicologicamente tenso que evidencia a vontade do MOTELx expor uma variedade de paladares “terroríficos”. Afinal, o que é o terror? Um questão pertinente que o festival tem levantado nos últimos anos.
Finalmente, chegamos à sessão de encerramento com a antestreia de Knock Knock, de Eli Roth. Um cineasta que prova mais uma vez que é um conhecedor do género. Aqui, Keanu Reeves fica a mercê de duas beldades que misteriosamente batem-lhe à porta. Uma hábil mistura de Brincadeiras Perigosas, de Haneke, com Hard Candy, de David Slade, que funciona como um espelho de fragilidades do homem na sociedade norte-americana e a constante subestimação do sexo feminino. O público reagiu bastante bem ao filme, sendo constantes os aplausos e gargalhadas.
Antes disso foi ainda revelado o vencedor do Prémio Mov MOTELx 2015. Descrito como um sonho de fama de uma adolescente que transforma-se numa perigosa obsessão, Miami, do realizador Simão Cayatte, teve a honra de receber o maior prémio de competição da história do certame: 5.000 €. O júri foi formado pelo ator português Albano Jerónimo, Kier-la Janisse, programadora do Alamo Drafthouse e do Fantastic Fest em Austin, e do escritor Mike Hostench. Na menção honrosa está a animação stop-motion Andlit, de João Teixeira.
Assim, terminou o MOTELx, naquela que foi até à data a sua mais movimentada e diversificada edição. Para o ano, graças ao 10º aniversário, as promessas de um evento maior, mais seletivo e atmosférico, foram feitas no palco da Sala Manoel de Oliveira, no Cinema São Jorge.

