Crónicas de Veneza: «Rabin, the Last Day», «A War» e «Childhood of a Leader»

(Fotos: Divulgação)

 

Qualquer festival de cinema que se preze não dispensa uma boa oportunidade para marcar uma posição politica. Eventos como a Berlinale, por exemplo, chegam mesmo a fazer questão em transformar essa vontade em missão, selecionando frequentemente obras pelo seu carácter pura e exclusivamente escandaloso.

Veneza seguramente não é exceção, e nesta edição de 2015 não têm faltado ocasiões para esclarecer qualquer duvida, e, diga-se, por vezes de forma bastante brilhante.

Sem margens para duvidas que a obra que mais debates escaldantes tem gerado é Rabin, the Last Day, do israelita Amos Gitai, um cineasta que ao longo dos anos nunca se escondeu de um debate acesso. Desta feita apresenta-se em Veneza com uma análise detalhada do assassinato por parte de extremistas judaicos, de Yitzhak Rabin, o primeiro-ministro israelita que assinou os acordos de Oslo, abrindo portas para o dialogo entre dois povos em eterno conflito. O último trabalho de Gitai é tudo menos tímido. Apontando o dedo, sem vergonhas nem cautelas, a Benjamin Netanyahu e ao partido Likud, que, segundo Gitai, muito contribuíram para o ambiente incendiário que resultou na morte do Nobel da paz. Rabin, the Last Day tenta retratar a posição frequentemente silenciosa (ou será silenciada?) da esquerda israelita. O formato e método são discutíveis, já que Gitai por vezes escolhe seguir caminhos demasiadamente teatrais e rigorosos, e durante grande parte do filme, limita-se a reproduzir os intermináveis interrogatórios conduzidos pela comissão de inquérito ao assassinato.

Por outro lado, a mistura de imagens de arquivo e entrevistas a Shimon Perez e a Leah Rabin, mulher do falecido politico, oferecem um equilíbrio interessante, complementado por meia dúzia de cenas em que os extremistas judaicos assumem o papel principal. Numa ocasião em particular, Gitai encena uma cena de particular relevo, quando uma psicóloga reputada se apresenta perante um grupo de anciãos influentes para defender a sua tese de que Rabin era esquizofrénico e um traidor à nação hebraica. Ao fazê-lo de forma tão perspicaz, mesmo que em nada discreta, Gitai oferece-nos um retrato da dialética fundamentalista que ainda hoje perdura e impera em Israel, transformando este documento histórico numa obra que promete aquecer o discurso politico na região, motivando muitos moderados a voltar a pensar em Rabin e em tudo o que defendia.

Outra abordagem inesquecível foi a do dinamarquês Tobias Lindholm, que entrou de rompante na secção Orizzonti com o seu pertinente A War. Muito ao estilo de A Caça, de Thomas Vinterberg, cujo guião foi escrito por Lindholm, o filme retrata o dilema de um oficial do exercito dinamarquês, Claus, que lidera um batalhão de patrulha no deserto do Afeganistão. Durante um fogo cruzado, Claus e os seus homens, encurralados pelos Talibãs, ficam sem outra alternativa senão exigir um bombardeamento à vila que patrulhavam, resultando na morte de cerca de uma dúzia de crianças e mulheres.

De regresso a Copenhaga, Claus confronta-se com outra guerra, a de um inquérito judicial que ira definir a legitimidade e legalidade das suas ações. Esta não é a primeira vez que o tema chega ao grande ecrã. Recentemente o documentário Armadillo, de Janus Metz Pedersen, expôs uma série de atrocidades cometidas pelos seus compatriotas em terras Afegãs, abrindo os olhos da opinião publica acerca da necessidade de uma presença significativa na região. Mas a preocupação de Lindholm é outra. Longe de tentar defender as tropas, prefere criar um ambiente de suspeita e duvida constante, retratando um homem justo e moral que se vê obrigado a deixar a sua família para ir lutar numa guerra duvidosa. A premissa antiguerra do cineasta não podia ser mais clara, insinuando que não podemos julgar os homens e as suas desesperadas ações quando nem sequer houve um debate público e exaustivo acerca da necessidade da Dinamarca participar no conflito.

A War vai ainda mais longe, mostrando que na realidade a guerra invadiu o quotidiano dinamarquês, já que enquanto Claus tenta sobreviver no Afeganistão, a sua mulher faz o mesmo de forma a criar os três filhos sozinha.

Da Turquia chegou também uma abordagem interessante, na forma do thriller psicológico Frenzy, de Emin Alper. O filme narra-nos a história de Hamza, um ex presidiário que tenta retomar uma vida normal numa Turquia transformada em estado policial.

Aos poucos e poucos a personagem começa a demonstrar um desequilíbrio psicológico, deixando a audiência perpetuamente na duvida do que é real ou imaginário. Por si só o truque não nos oferece nada de novo. O que de facto torna Frenzy numa obra digna de se assinalar é a análise subliminar da paranóia Turca em relação ao terrorismo e a instabilidade social. Tal como na vida real, em particular durante o movimento de protesto de 2014, Istambul mais parece Bagdade, com canhões a patrulhar as ruas repletas de insurgentes. Num momento em que o cinema turco parece ter a atenção do mundo do cinema, em particular com sucessos recentes como o de Mustang, de Deniz Erguven, ou Winter Sleep, de Nuri Ceylan, Frenzy aparece agora para mostrar uma nova face: mais rápida e impiedosa, sem grande espaço para reflexão, que seguramente cativara novos curiosos. Estes três exemplos falam-nos de casos reais e palpáveis. Mas depois aparece aquele que provavelmente será o mais estranho e bizarro filme a passar este ano na Bienalle.

Brady Corbet, mais conhecido como ator, em particular pela sua performance em Brincadeiras Perigosas (versão americana) de Michael Hanake, apresentou a sua primeira longa-metragem intitulada Childhood of a Leader. Falando de politica, o filme, dividido em três atos curiosamente chamados de “três birras”, descreve-nos a infância do filho de um diplomata norte-americano, próximo do presidente Wilson, que se instala nos arredores de Paris durante as negociações no pós primeira grande guerra.

Se existe uma total ausência de comentários específicos a guerra ou as negociações de paz, o mesmo não se pode dizer em relação as insinuações que Corbet distribui em relação a elite e a educação dos seus filhos. Em vários episódios são nos oferecidas explicações sobre como se cria um líder, em particular um líder autoritário, com pouca disponibilidade para conceder um milímetro de discórdia ou alternativa. É vital ainda assinalar que Childhood of a Leader destaca-se pela técnica, e de que maneira. Existem vários rasgos de génio na obra de Corbet. Desde uma banda sonora impetuosa e radical, que deixou a audiência em sentido com um par de estalos na cara, à utilização de imagens históricas que oferecem ao filme um certo cariz épico.

É uma primeira obra extremamente ambiciosa e ousada, com ecos de Kubrick e Orson Welles, que apesar de muitos desequilíbrios, promete transformar Corbet numa figura de culto, com um filme que irá ainda gerar muito debate.

Mas como nem tudo são rosas, falta um curto apontamento sobre Italian Gangsters, de Roberto Di Maria, que regressa ao festival depois do sucesso de La vita Oscena no ano passado. Desta feita Di Maria surge com um conceito interessante: Utilizar a biografia de um grupo de reputados criminosos para descrever a história politica da Itália no século XX. Sem dúvida que as imagens de arquivo apresentadas são deveras interessantes, o problema, como é habitual no discurso cinematográfico do cinema italiano contemporâneo, é o processo.

As historias são narradas por atores que encarnam as personagens em palco. Em menos de 10 segundos a audiência é inundada com uma enxurrada de estereótipos baratos. O filme tem-nos a todos: Olhares de alto, mãos na garganta, cigarros pensativos e ameaçadores, etc. Esta mistura cansativa resulta num filme que mais se assemelha a um programa televisivo de fim de tarde do que uma obra digna de ser passada num festival como Veneza.

Rapidamente o valor dos comentários são substituídos com histórias de violência gratuita, descrições de perfis machistas e tudo o resto que o género já nos habituou e cansou. Muito se tem falado sobre politica concreta em Veneza este ano. Curiosamente, o debate não acaba ai. Outra politica, desta feita a do corpo, também tem estado na ordem do dia. Mas isso fica para outro capítulo.

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