
“What’s your favourite scary movie?”. Foi assim que arrancou a 9ª edição do MOTELx, que promete “assustar” Lisboa durante 6 dias, um dia a mais que as anteriores edições.
No Cinema São Jorge o ambiente era de festa e muitos decidiram visitar as “catacumbas” do Festival, o qual inicia uma rentrée de todo um conjunto de certames ligados ao cinema na capital durante este último trimestre. Porém, a palavra de ordem é terror, e não literalmente o terror vivido nesta agradável noite de setembro. Nesse sentido fomos abatidos pela saudade. Esta palavra descreve os primeiros minutos da sessão de abertura. Sessão essa que se iniciou com uma homenagem a Wes Craven, o mestre do terror falecido no passado dia 30 de agosto e que nos deixou uma marca inconfundível no género, entre as quais contam-se obras como Scream: Gritos, cujos primeiros 15 minutos foram visualizados no âmbito do tributo.
É uma sequência genial, essa, em que Drew Barrymore é atormentada por um desconhecido assassino Nesta cena, algo nos vem à memória: Wes Craven para além de ser um artesão único na arte de assustar, consegue aplicar uma ênfase dramática nas suas “vitimas”. A morte da personagem de Drew Barrymore é trágica, longe de ser um divertimento carniceiro que muitos slashers apostariam. O realizador ainda apimentou a “situação” colocando à mercê dos espectadores a perspetiva dos progenitores desta mais recente morte de Ghostface. Uma homenagem pequena e sincera que salienta o facto do MOTELX não querer deixar de lado a memória daquele que fora um dos grandes mestres do seu Mundo. Provavelmente poderemos contar com um tributo mais aprofundado na próxima programação do Festival.

Logo de seguida a direcção subiu ao palco e presenteou o público com as habituais apresentações e “espreitadelas” na programação do Festival, pelo menos até chegar a vez da curta-metragem Arcana, que também serve de spot publicitário à edição deste ano. O realizador, Jerónimo Rocha, da produtora Take it Easy, começou por alertar o espectador para eventuais vómitos e enjoos, até porque tal como havia sido prometido, não é coisa que falta. Um ensaio de terror que envolve bruxarias e muito misticismo, onde foi possível assistir a um formidável trabalho na área da caraterização e nos efeitos, assim como é apresentada a relevância da sonoplastia na criação da atmosfera. Arcana, por momentos, faz-nos questionar para quando iremos ver uma longa-metragem lusitana de terror puro? É que Coisa Ruim, de Tiago Guedes e Frederico Serra, já foi em 2006.
Mas isso, como se costuma dizer, são outros mil reis, até porque depois disto seguiu-se a antestreia nacional de A Visita, aquele que é apontado como o grande regresso de M. Night Shyamalan ao género que o destacou. Eis um found footage que esforça-se em não perder a sua consistência enquanto estilo narrativo, mas as suas qualidades estabelecem-no como um aparte neste subgénero cada vez mais … moribundo. Shyamalan tem aqui personagens interessantes e divertidas, e o mais surpreendente de tudo é que são duas crianças que conseguem constituir um vinculo emocional com o espectador.

The Visit
A Visita centra a sua intriga em dois jovens que irão passar uma semana na casa do avós na Pensilvânia. Um desses jovens é uma aspirante a documentarista que anseia concretizar um trabalho de pesquisa às relações perdidas entre a sua mãe e os respetivos pais, um fator que torna-se crucial no registo de fenómenos bizarros que entretanto começam a acontecer na casa destes simpáticos velhotes. M. Night Shyamalan volta a remexer em territórios familiares, na manutenção de laços afetivos perdidos ou simplesmente em decomposição, e guarda-nos um trunfo há muito não visto na sua filmografia – um twist bem encaixado.
Não será certamente a melhor obra do realizador indiano radicado nos EUA, mas sim uma espécie de compensação para com a sua audiência, entretanto perdida. O público aderiu em força a esta experiência e o ambiente foi contagiante: gritos, risos, aplausos e sustos, tal como manda o cardápio do MOTELx.

