
Se alguma conclusão é possível tirar, agora que chegamos a meio caminho nesta edição do festival de Veneza, é que apesar da posição perpetua de festival “A-list”, a organização atravessa dias difíceis. Encurralado por Toronto e um festival de San Sebastián mais agressivo do que nunca, que conseguiu “roubar” alguns dos mais procurados títulos do momento, Veneza mais parece um parente pobre e desesperado do que o festival que iniciou todo circuito internacional.
Muitos dos filmes mais discretos têm sido autênticas revelações, mas, infelizmente, o mesmo não pode ser dito daqueles que naturalmente mais expetativas surtiram aquando do lançamento do programa. Quando comparado com programa de 2014, que incluía obras como Birdman, O Olhar do Silêncio e Um Pombo Pousou Num Ramo a Reflectir na Existência, este ano as estrelas regressaram a ilha de Lido, aparentemente, e quase na totalidade dos casos,sem razão nenhuma.
Comecemos pela nem sempre amada Kristen Stewart, que renovada após o sucesso e prémios alcançados com As Nuvens de Sils Maria, atracou em Veneza para representar Equals, de Drake Doremus, uma obra de ficção cientifica sobre um futuro onde as mais básicas necessidades humanas, em particular as mais libidinosas, são consideradas doença, cuja a única solução é a morte assistida. Se visualmente o filme não deixa de ter o seu interesse, com vários e cenários de cortar a respiração e um universo desenhado ao bom estilo Apple, a história revela-se rapidamente entediante e previsível. Esta espécie de Romeu e Julieta no futuro rapidamente se esquece do essencial, revelando-se incapaz de criar um universo tenso e ameaçador que justifique o martírio das suas personagens. Quando finalmente o tenta, já é tarde demais, sabendo sempre a pouco. O resultado é que Equals mais se assemelha a um videoclipe anormalmente longo do que ao épico de culto para os sempre exigente fãs do género que pretende ser. Igualmente insossa é a performance de Stewart, que apesar do papel que requisita intermináveis olhares frios e uma postura perpetuamente reta, algo que reconhecidamente lhe é característico, a jovem norte-americana demonstra-se também ela incapaz de elevar uma personagem que se desejava mais perspicaz e intuitiva. Para ser honesto, nem Guy Pearce nem Jackie Weaver, dois atores com dotes invulgares, são capaz de contrariar a tendência, num filme que num abrir e fechar de olhos caírá no esquecimento.
Equals
Por falar em fracassos, o que dizer acerca de The Danish Girl, de Tom Hooper? Inspirado nas vidas de Lili Elbe e Gerda Wegener, Hooper oferece-nos um filme de época que retrata a primeira cirurgia de mudança de sexo. Aparentemente para Eddie Redmayne a diferença entre uma mulher presa num corpo de um homem e um pequeno génio amaldiçoado por uma doença impiedosa é virtualmente nula, fazendo-nos esquecer por momentos que não estamos a assistir à sequela de A teoria de tudo. Para dificultar ainda mais a tarefa, tal como na obra de James Marsh, The Danish Girl emprega todos, sem exceção, os clichés típicos do melodrama Hollywoodesco: lenços soltos ao vento, close-ups de choradeiras e violinos ate morrer. Independentemente da plasticidade do enredo e da performance insípida de Redmayne, o filme não deixará de representar um marco importante para o movimento LGBT, que finalmente vê representada para as grandes massas, mesmo que de uma forma simplicista, a comunidade transsexual no grande ecrã.

The Danish Girl
Cada tiro cada melro. Isto é, até surgir em cena a estrela que mais gritos inspirou na carpete vermelha: Johnny Depp. Ao longo das ultimas décadas Depp cresceu de um herói adolescente na televisão até uma das mais requesitadas estrelas de Hollywood. No entanto, durante esse processo, as suas performances, inquestionavelmente únicas e ímpares independentemente de gostos e simpatias, nunca geraram suficientes elogios que justificassem maiores voos. Com Black Mass, de Scott Cooper, parece que finalmente Depp será capaz de justificar o Óscar que há muito Hollywood lhe quer oferecer. No papel de um gangster psicopata do sul de Boston, Whitney Bulger, Depp encarna uma personagem que em nada exige a habitual caricatura “Deppiniana”. Controlado, maduro e sempre seguro, o ator norte-americano aparece agora como nunca o vimos antes, sendo capaz de liderar um elenco de luxo, que inclui ainda um imponente Benedict Cumberbatch e uma bastante menos astuta Dakota Johnson.

Black Mass
Igualmente significativo é o facto de Black Mass distanciar-se de outros trabalhos do género por preferir não oferecer um retrato de um criminoso charmoso, mas sim um mero psicopata capaz de apunhalar pelas costas qualquer entrave que se lhe apresente pela frente. Como tal, o mais recente trabalho de Cooper tem muito de refrescante.
Talvez o mais curioso Tweet a sair de Veneza até ao momento foi o de um critico do New York Times, que escreveu: “Boston precisa de arranjar um novo agente de relações publicas“. Dificilmente podia estar mais correto. É que lado a lado do submundo do crime de Boston em Black Mass foi também apresentado em Spotlight, de Thomas McCarthy, um filme que nos narra a história de uma grupo de jornalistas do Boston Globe que desmascarou o escândalo de pedofilia na igreja católica. Ao bom estilo de Escândalo na TV e Os Homens do Presidente, o filme de McCarthy tem muito de rebelde e provocador.

Spotlight
Seguramente que tal seria inevitável, tendo em conta a pertinência e controvérsia do tema. Mas talvez seja na performance do elenco, também ele de luxo, que Spotlight mais se destaca. Marc Ruffalo, que parece inesgotável nos últimos anos, regressa ainda mais confiante e imponente, enquanto que Rachel McAdams aparece irreconhecível, numa prestação que promete fazer correr muita tinta e louvores.
Felizmente o festival de Veneza, apesar da habitual obsessão pelas estrelas de Hollywood, ainda não abandonou o seu cariz anti-lógica de mercado, e como tal é no cinema dito menos comercial que se volta a destacar. Esta edição, que ainda só vai a meio, tem sido particularmente rica em revelar novas e excitantes tendências do cinema mundial, mas isso é uma história para outro capitulo.

