Terror no São Jorge: começa hoje (08/09) o Motelx

(Fotos: Divulgação)

 

Arranca nesta terça-feira (08/09) a 9ª edição do único festival integralmente dedicado ao terror em Portugal. Com um dia a mais que o habitual e uma extensa programação que envolve diversas atividades paralelas, o Motelx decorre até 13/09, sempre em Lisboa no cinema São Jorge e na Cinemateca Júnior – espaço este que alberga a seção infantil “Lobo Mau”.

Caberá ao retorno de M. Night Shyamalan ao terror as honras de abertura com A Visita, obra de baixo orçamento e sem atores conhecidos onde o realizador, celebrizado por O Sexto Sentido, tenta reconstruir uma carreira marcada por falhanços de crítica e público nos últimos anos. Já Knock Knock (foto abaixo), o novo trabalho de Eli Roth, um dos maiores divulgadores do “torture porn” com Hostel e que teve o improvável apadrinhamento de Keanu Reeves, encerra o certame.

Entre um e outro, uma grande diversidade de estilos e procedências, apresentando um amplo espetro do que se produz atualmente no mundo do terror. Além de tradicionais projetos dos Estados Unidos, da Ásia e da Europa, este ano haverá, na retrospetiva dedicada a Richard Stanley, até um projeto africano. Entre os destaques na programação estão obras de realizadores icónicos, como Sion Sono (Tag), Takashi Miike (Yazuka Apocalipse), Joe Dante (Burying the Ex – foto abertura), Hideo Nakata (Ghost Theater) e talentos reconhecidos como Paul Hyett (Howl), Além destes, atores de prestígio ajudam a viabilizar obras como Cop Car (Kevin Bacon), Extinction (Matthew Fox) e Green Room (Patrick Stewart), entre outros. Destaque ainda para vários títulos europeus – entre os quais o inglês Nina Forever (foto abaixo). 

A estas alturas com um público cativo que todos os anos lota diversas sessões, o festival está distante dos primeiros tempos, quando surgiu como um prolongamento de um cineclube que reunia entusiastas do terror. Conforme destaca um dos diretores do Motelx, João Monteiro, no entanto, o evento “não tem uma grande estrutura nem patrocínios avultados. O festival continua a ser resultante da paixão daquelas mesmas pessoas“, diz.

Tesourinhos nada deprimentes

Um dos objetivos expressos do festival sempre foi o estímulo a produção nacional. O já tradicional concurso de curtas-metragens portuguesas retorna sob o patrocínio da MOV, que atribuirá a quantia de € 5 mil ao vencedor. Serão dez filmes, exibidos antes das sessões de longas, em competição.

O outro aspeto da valorização do cinema português como um todo é um trabalho único de garimpagem da produção lusitana – indo buscar obras há muito esquecidas e possibilitando a sua visualização pelo público atual. É o caso de A Caçada do Malhadeiro (foto abaixo), obra de 1969 que jazia nos cofres da Cinemateca. “Tivemos sorte, a Cinemateca foi simpática connosco, pois eles incluíram o filme na sua lista anual de recuperações, algo que não estava previsto“. Conforme observa, é a única obra até As Linhas de Wellington a abordar as invasões francesas – e num contexto da mais pura exploitation através de uma história de violação e vingança.

Sinal Vermelho, de 1972, é uma coprodução com a Espanha que traz o incontornável Paul Naschy no elenco e cuja última exibição decorreu há 43 anos. Conforme especifica Monteiro, a versão a ser exibida é inglesa e também é uma completa raridade. O filme aborda o uso e o tráfico de drogas no início dos anos 70.

Histórias fantásticas: Tippi Hedren e o apocalipse do Dr. Moreau

Tippi Hedren ficou famosa depois de ser atacada por pássaros no clássico de Alfred Hitchcock de 1963. No final dos anos 70, ela envolveu-se com o seu então marido, Noel Marshall, em outra aventura animalesca – sobrando para contar uma história entre o trágico, o triste e o incrível. Conforme relata Monteiro, Roar (Homens e Feras, em Portugal – foto abaixo), uma espécie de obra maldita que foi um falhanço de público e crítica no início dos anos 80 e tornou-se uma raridade, foi um projeto que tinha originalmente um cunho ecológico e que, em eras muito distantes do tigre de CGI de Ang Lee, trazia os atores e a equipa a lidar com ataques de animais selvagens… verdadeiros!

No decorrer de sete anos de filmagens, várias pessoas ficaram feridas e abandonaram os seus postos de trabalho. Umas das vítimas foi o diretor de fotografia Jan de Bont, mais tarde parceiro de Paul Verhoeven nos seus trabalhos mais famosos e, ele próprio, realizador de sucesso com Speed e Twister. “Ele era tão maluco quanto o realizador e voltou às filmagens três dias depois!“, assinala. Marshall, produtor executivo de O Exorcista, perdeu tudo o que ganhou com o filme de terror mais rentável de sempre e só voltaria a produzir um único filme sete anos depois. A filha de Hedren, Melanie Griffith, também compõe  o elenco. 

Já outra história assinalável o diretor do festival prefere que seja o próprio filme, The Lost Souls: the Doomed Journey of RS’s Island of Dr. Moreau, a contar – mas não sem deixar de comparar o seu caráter fantástico e surreal a uma das mais emblemáticas odisseias da história do cinema – a realização de Apocalipse Now. O documentário narra a trajetória de Richard Stanley, que vai proferir um masterclass no Motelx, então em ascensão nos anos 90 depois de obras como Hardware e Red Dust (ambas na programação), na sua tentativa de concretizar o sonho de levar ao cinema o clássico de H.G.Wells, A Ilha do Dr. Moreau. O filme foi efetivamente lançado em 1996 e assinado por John Frankenheimer – tornando-se um terrível falhanço de crítica e público e uma mancha na imagem Marlon Brando. Fica para a audiência descobrir o que aconteceu entre a ideia para um projeto de Stanley e o filme francamente mau que foi entregue aos espetadores.

Atividades paralelas

As atividades paralelas incluem as seções Lobo Mau (jogos e filmes para os mais jovens – incluindo um paddy paper no São Jorge), o lançamento de um livro de histórias de terror e várias masterclasses.

 

 

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