Artistas das mais variadas latitudes do Brasil chegam de carrinha às ruas empedradas de Ouro Preto, cidade histórica de Minas Gerais, para um festival de cinema que assume a restauração e a preservação como bússolas, lado a lado com a dimensão iluminista da memória. CineOP é o nome do evento, irmão das mostras de Tiradentes e de Belo Horizonte, ambas no mesmo estado, e realizado pela produtora Raquel Hallak, da Universo.
A maratona abre esta quinta-feira a sua edição de 21 anos, num lugar marcado por acontecimentos que mudaram o curso do Brasil e da sua relação com as heranças coloniais e mercantilistas da Europa. Nascida no final do século XVII, durante o ciclo da exploração aurífera, a região, então chamada Vila Rica, transformou-se rapidamente no principal centro económico da América Portuguesa e num dos símbolos da formação do Brasil moderno. Capital de Minas Gerais durante o período colonial, a cidade foi palco de acontecimentos decisivos da história do país, entre eles a Inconfidência Mineira.
O seu extraordinário conjunto arquitetónico, marcado por igrejas barrocas, chafarizes de pedra e ladeiras sinuosas, valeu-lhe o reconhecimento como Património Mundial da UNESCO em 1980, tornando-se a primeira cidade brasileira a receber essa distinção. Com cerca de 75 mil habitantes, Ouro Preto preserva até hoje um património artístico e cultural singular, onde sobressaem as obras de Aleijadinho e Mestre Ataíde, afirmando-se como um dos mais importantes centros históricos das Américas.
Entre 25 e 30 de junho, este território de memória entra em tempo de cinema. Sob o lema Um País Existe nas Imagens Que Preserva, a CineOP deste ano reúne 135 filmes — 33 longas-metragens, quatro médias-metragens e 98 curtas-metragens — distribuídos por 42 sessões presenciais e online. As exibições ocupam o Centro de Artes e Convenções da Universidade Federal de Ouro Preto, a Praça Tiradentes e o Cine-Museu, instalado no Anexo do Museu da Inconfidência, reforçando a articulação singular da CineOP entre património histórico, formação de públicos e descoberta cinematográfica.
A programação envolve produções de 18 estados brasileiros e de seis países, reafirmando a vocação do festival para cruzar diferentes geografias, linguagens e gerações de realizadores. Como habitualmente, a mostra organiza-se em torno de três eixos estruturantes — História, Preservação e Educação —, que orientam uma seleção onde convivem clássicos restaurados, estreias nacionais, filmes escolares e obras dedicadas à recuperação da memória cultural.
Pelo segundo ano consecutivo, a CineOP promove a competição Arquivos em Questão, dedicada a filmes que utilizam imagens de arquivo como matéria-prima criativa. Com curadoria de Juliana Gusman e Cleber Eduardo, a secção reúne cinco longas-metragens em pré-estreia nacional: Proust Palimpsesto: Pastiches e Misturas, de Carlos Adriano; Apocalipse Segundo Baby, de Rafael Saar; Universo Circular – Jocy de Oliveira, de Dácio Pinheiro; Irritante Prodígio, de Luiza Lindner; e Notas sobre um Desterro, de Gustavo Castro.
Em comum, estas obras transformam arquivos históricos e pessoais em dispositivos de reflexão estética, política e afetiva.

A Mostra Contemporânea amplia esse diálogo com a memória através de títulos como Anistia 79, de Anita Leandro, que revisita imagens realizadas durante a Conferência Internacional pela Anistia, em Roma, e recupera debates sobre os crimes da ditadura militar brasileira. Destacam-se ainda Fernanda Abreu – Da Lata 30 Anos, o Documentário, de Paulo Severo, e Fernando Coni Campos: Cada Um Vive Como Sonha, de Luis Abramo e Pedro Rossi, dedicado ao realizador de Viagem ao Fim do Mundo (1968).
Um dos momentos centrais da programação surge na Mostra Histórica, dedicada à questão Como Elas Começaram? Memórias do Primeiro Filme. A seleção revisita os percursos inaugurais de cineastas brasileiras fundamentais, através de obras como Feminino Plural (1976), de Vera de Figueiredo, Mar de Rosas (1977), de Ana Carolina, Que Bom Te Ver Viva (1989), de Lucia Murat, Um Céu de Estrelas (1996), de Tata Amaral, e Um Dia com Jerusa (2020), de Viviane Ferreira.
A homenageada da edição é a realizadora Helena Solberg, pioneira do cinema feminista brasileiro. A sua filmografia será revisitada através de títulos emblemáticos como A Entrevista (1966), Meio Dia (1970) e Carmen Miranda: Bananas Is My Business (1995), reafirmando a importância da cineasta na construção de uma perspetiva feminina e crítica sobre a sociedade brasileira.
Na vertente dedicada à preservação, sobressai a exibição da nova restauração em 4K de O Ébrio (1946), clássico realizado por Gilda Abreu e um dos maiores sucessos comerciais da história do cinema brasileiro. A secção inclui ainda obras restauradas como Vento Norte (1951), de Salomão Scliar, Jangada de Ir e Vir (1977), de Marcus Vale, e A Luta do Povo (1980), de Renato Tapajós, além das pré-estreias de Os Irmãos Segreto, documentário de Michele Manzolini e Federico Ferrone sobre os pioneiros italianos do audiovisual brasileiro, e O Filme Infinito (2018), de Leandro Listorti, construído a partir de fragmentos de produções argentinas inacabadas.
A componente formativa mantém-se igualmente central. A Mostra Educação apresenta títulos como Fraternura, retrato afetivo de Frei Betto realizado por Evanize Sydow e Américo Freire, e Arquivo Vivo, de Vincent Carelli e Ana Carvalho, dedicado ao legado do projeto Vídeo nas Aldeias. Já a Mostrinha e as sessões Cine-Escola oferecem uma programação dirigida ao público infantil e estudantil, com destaque para A Mensagem de Jequi (2025), de Igor Amin, acompanhada por curtas e animações produzidas em diferentes regiões do Brasil.
Mais do que um festival, a CineOP continua a afirmar-se como um espaço privilegiado de reflexão sobre a preservação de películas, o cuidado com arquivos digitais e a proteção da memória cinéfila.

