Elogiado na Europa na sua passagem por Roterdão e por Biarritz, “Capitu e o Capítulo” deu a Júlio Bressane o gostinho, há tempos pedido, que ele tinha cada vez que apresentava um novo filme nas maiores competições do cinema brasileiro e saía delas laureado em múltiplas frentes, da realização à direção de arte.
Foi o que aconteceu esta quarta-feira, no encerramento da 16ª edição do Fest Aruanda, na Paraíba, Brasil: o veterano realizador de 75 anos conquistou os troféus de Melhor Longa-Metragem, Melhor Realização; Melhor Guarda-Roupa (confiado a Maria Aparecida Gavaldão); Melhor Ator Secundário (dado a Enrique Diaz); e o Prémio da Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine). A sua narrativa debruça-se sobre as formas de se representar o universo do escritor Machado de Assis (1839-1908) a partir de leituras do seu aclamado romance “Dom Casmurro” (1899), no qual a jovem Capitu é acusada de adultério pelo marido, Bentinho, ao chorar “mais do que a viúva” no enterro de um amigo, Escobar. O que Bressane faz não é uma adaptação, mas, sim, uma análise semiótica, sobre dilemas existenciais inerentes àquelas personagens e o quanto elas representam a vida real. A justificação do júri (formado pela montadora Cristina Amaral, a atriz Sandra Corveloni e o realizador e artista plástico Cesar Meneghetti) foi: “Quem nunca teve o seu perfil desenhado e depois não conseguiu mais se encaixar nesta imagem? Júlio Bressane nos apresenta uma provocação sensorial das fragilidades humanas com extrema maestria e rigor, um espelho que nos convida a olhar para a tela refletida nos olhos de Capitu e nos capítulos de Machado de Assis”.
Neste sábado, às 20h, o Cinépolis Lagoon exibe o vencedor de Aruanda em telas cariocas, na reta final da agenda do 23º Festival do Rio, apoiado no apelo popular de Mariana Ximenes (a sua Capitu) e Vladimir Brichta, o Bentinho, com o público. Amparado por uma sumptuosa direção de arte (de Isabela Azevedo e Moa Batsow) e pela delicada fotografia de Lucas Barbi, Bressane faz de Diaz uma versão madura de Bentinho (Vladimir Brichta), definindo-se como Casmurro. Por meio dele é que sabemos dos conflitos de Capitu (Mariana Ximenes), acusada de disfarçar um ato adúltera nas profundezas de seus olhos de cigana oblíqua… olhos de ressaca
“Tentei construir uma reflexão e, não, uma tradução, que abordasse o que existe de indizível entre is intervalos que Machado cria em sua leitura com uma profusão de capítulos”, disse Bressane, revelado na segunda metade dos anos 1960, com “Cara a Cara” (1967) e aclamado em “Matou a Família e Foi Ao Cinema” (1969).
Aruanda deu o prémio de melhor curta a “Sideral”, de Carlos Segundo, que passou, em julho, em Cannes, discutindo o envolvimento de uma empregada da limpeza na corrida espacial.
Os vencedores da seção oficial de longas-metragens
Melhor Roteiro- Thais Fujinaga, por A FELICIDADE DAS COISAS
Melhor Desenho de Som -Confraria de sons e charutos por BOB CUSPE – NÓS NÃO GOSTAMOS DE GENTE
Melhor Montagem- Lia Kulakauskas por MADALENA
Melhor Banda-Sonora -Junior Marcheti, por MADALENA
Melhor Direção de Arte- Daniel Bruson por BOB CUSPE – NÓS NÃO GOSTAMOS DE GENTE
Melhor Guarda-Roupa -Maria Aparecida Gavaldão por CAPITU E O CAPíTULO
Melhor Fotografia- Guilherme Tostes, Tiago Rios MADALENA
Melhor Ator -Maicon Rodrigues, por SALAMANDRA
Melhor Ator Secundário- Enrique Diaz, por CAPITU E O CAPíTULO
Melhor Atriz -Patricia Saravy, por A FELICIDADE DAS COISAS
Melhor Atriz Secundária Magali Biff, por A FELICIDADE DAS COISAS
Melhor Realização- JULIO BRESSANE, por CAPITU E O CAPíTULO
Melhor Longa-Metragem CAPITU E O CAPÍTULO
“Capitu e o Capítulo” vence 16ª edição do Fest Aruanda
(Fotos: Divulgação)

