Mostra de São Paulo inaugura a sua 45ª edição com 265 produções internacionais

(Fotos: Divulgação)

Homenagem a Paulo Rocha (1935-2012) e aos seus “Verdes Anos” (1963), estreia sul-americana de “Listen”, de Ana Rocha de Sousa; e uma variedade de produções da Bando à Parte de Rodrigo Areias alimentam, uma vez mais, a brutal relação de amor do cinema português com a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, o mais prestigiado festival audiovisual do Brasil.

Há 265 filmes na programação, que segue desta quinta até o dia 3 de novembro. Elenque entre os títulos obrigatórios da sua programação um Almodóvar (“A Voz Humana”, com Tilda Swinton); o vencedor do Urso de Ouro de 2021 (a genial comédia romena “Má Sorte no Sexo ou Porno Acidental”, de Radu Jude); e o filme que deu ao mestre sul-coreano Hong Sang-soo o prémio de melhor realização na Berlinale 2020: “A Mulher Que Fugiu”. Do Brasil, vão surgir filmes inéditos de Bárbara Paz (“Ato”), Cesar Cabral (“Bob Cuspe- Nós Não Gostamos de Gente”), Ana Maria Magalhães (“Já Que Ninguém Me Tira Pra Dançar”) e José Eduardo Belmonte (“As Verdades”) além de um dos destaques da Quinzena dos Realizadores de Cannes: “Medusa”, de Anita Rocha da Silveira. O C7nema preparou aqui uma seleção do que há de urgente para conferir no evento, que se estruturou de forma híbrida, ou seja, parte presencial, parte online. O www.mostra.org tem a programação.

‘TITANE’, de Julia Ducournau (França): Vencedor da Palma de Ouro, o controverso exercício de género da diretora de “Raw” lembra Cronenberg na sua reflexão sobre o corpo como usina de pulsões existenciais. Na Croisette, houve gente saindo das sessões quando Alexia (a brilhante Agathe Rousselle) bate o próprio rosto contra um lavatório, a fim de deformar o nariz. Deformar-se é parte da reinvenção pela qual a personagem há de passar quando se assume, sem culpa, como serial killer, dando um ponto final à existência de homens que passam dos limites na aproximação a ela e dando um adeus a mulheres que não reagem a seus carinhos furiosos como ela espera. E ela mata usando um pau de cabelo como arma. Mas é a segunda transformação pela qual passa. A primeira acontece na sua infância, quando um acidente rodoviário impõe a instalação de uma placa de titânio na cabeça.

‘A VIAGEM DE PEDRO’, de Laís Bodanzky (Brasil – Portugal): 
A aclamada realizadora de “Como Nossos Pais” (2017) retorna à realização numa trama protagonizada por Cauã Reymond, que passa-se numa viagem de barco, da volta do D. Pedro I para a Europa. Ele foi praticamente expulso do Brasil, durante uma grande crise política e pessoal. É nisto que a cineasta mergulha nesse universo interior do monarca. É, segundo disse a realizadora, em setembro de 2020, ao C7nema, “um filme de personagens, que fala muito mais do Pedro do que exatamente do D. Pedro I”.

 ‘BRIGHTON 4TH’, de Levan Koguashvili
 (Geórgia – EUA): Uma das sensações do Festival de Tribeca, de onde saiu com o prémio de melhor roteiro e melhor ator (Levan Tedaishvili). Na trama, um campeão de luta livre, hoje grisalho, tem de viajar até os Estados Unidos, para salvar o filho que tem uma dívida com a máfia.

‘7 PRISIONEIROS’, de Alexandre Moratto (Brasil): Rodrigo Santoro vive um momento de apogeu nasua evolução como ator nesta denúncia sobre o trabalho escravo no Brasil contemporâneo, que faz de um ferro-velho de São Paulo um microcosmos para a submissão. Santoro é Luca, o gerente desse espaço para onde vão jovens cheios de sonhos de prosperidade, como Mateus (Christian Malheiros), um alvo dessa máquina de moer esperanças.

‘7 PRISIONEIROS’

‘LINGUI’, de Mahamat-Saleh Haroun (Chade): Num delicado estudo de alteridades, o chadiano laureado em Cannes, em 2010, com “O Homem Que Grita”, discute maternidade, fé e tradição ao acompanhar o drama de uma mãe solteira muçulmana cuja filha adolescente resolve fazer um aborto. A câmara de Haroun vasculha vetores de pobreza que oprimem suas personagens.

‘LUZ NATURAL’, de Dénes Nagy (Hungria): Vencedor do Urso de Prata de melhor direção na Berlinale. Há tempos, talvez desde “Na Neblina” (2012), de Sergey Loznitsa, não se via uma incursão tão visceral à frente dos campos de batalha da II Guerra, mais preocupada em mapear o estado de coisas daquele instante da História do que em cartografar horrores. Não é um filme sobre o Holocausto, é um filme sobre a vivência do combate, do ponto de vista do estrangeirismo, da falta de pertença, da desconexão dos combatentes com o terreno que estão lutando para proteger, a mando de uma ideologia política. Mais conhecido pelo seu trabalho como documentarista, Dénes Nagy estreia na ficção levando de suas experiências com as narrativas do Real um olhar geográfico para entender o quanto o espaço afeta conjugação do verbo “viver” em contextos de tensão. Há violência, há medo, mas há, sobretudo, incertezas acerca do que virá para os personagens. Munido de um dado histórico – em 1943, os húngaros foram convocados para lutar na URSS ocupada -, o cineasta mergulha nas fossas do Império Soviético, num inverno de plena aspereza, para tentar mapear, de um ponto de vista distanciado, o que (e como) se viveu ali. Importa menos a jornada que ele narra e mais o ambiente físico e, à certa medida, moral, onde ela se passa, para possibilitar à plateia uma chance rara de espatifar a imagem da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) hoje cristalizadas em nosso imaginário. 

‘O CIRCO VOLTOU’, de Paulo Caldas (Brasil): Qualquer filme do realizador de “Deserto Feliz” (2007) dá um nó nas convenções narrativas do realismo, transbordando poesia. Aqui, ele se reporta aos anos 30 do século passado, quando um casal de jovens de Major Isidoro, no sertão alagoano, encantou-se com a passagem de um circo pela região. Segundo José Wilson, ambos eram indígenas Xucurus-cariris originários de Palmeira dos Índios. Ao ver a caravana, o casal teria decidido montar sua própria companhia circense, batizada de Brasil Lux. Quase 90 anos depois vemos José Wilson à frente do Circo Spadoni e da Escola de Circo Picadeiro, mantendo essa longa tradição das famílias circenses viva e forte.

‘COW’, de Andrea Arnold (Reino Unido): Laureada três vezes com o Prémio do Júri, por “Red Road” (2006), “Fish Tank” (2009) e “American Honey” (2016), a inglesa brilhou em Cannes com um documentário baseado na rotina das vacas, partindo delas para abrir uma discussão moral.

‘O PAI DA RITA’, de Joel Zito Araújo (Brasil): Wilson Rabelo e Ailton graça são dois bambas do samba de SP que enxergam na disputa pela paternidade de uma jovem (Jéssica Barbosa) um potencial veio de ruptura para a amizade que os une, nos acordes do samba. É o regresso de um dos mais contundentes documentaristas do Brasil, consagrado por “Meu Amigo Fela” (2019), aos códigos da ficção.  

‘A VINGANÇA É MINHA, TODOS OS OUTROS PAGAM EM DINHEIRO’

‘A VINGANÇA É MINHA, TODOS OS OUTROS PAGAM EM DINHEIRO’, de Edwin: O ganhador do Leopardo de Ouro de Locarno, indo da Indonésia, celebra o legado dos filmes de artes marciais asiáticos dos anos 1970 e 80 com uma história de amor improvável entre um matador de aluguer que luta contra a impotência sexual e uma jovem lutadora cheia de desejo.

‘O PERFEITO DAVID’, de Felipe Gómez Aparicio (Argentina): Publicitário de sucesso em terras hermanas, Aparicio estreia em longas-metragens explorando a psique de um rapaz, o David do título (vivido por Maurido Di Yorio), que é obcecado em tonificar seu corpo até o limite da perfeição, num rígido regime de fisiculturismo. É treino todo dia. É suor aos litros. Tudo fica mais complexo quando sua mãe, Juana (Umbra Colombo), entra em cena, revelando aspectos sinistros do quotidiano do jovem. Artista plástica, ela molda suas esculturas a partir dos músculos do filho.  

“MEMÓRIA”, de Apichatpong Weerasethakul (Colômbia – Tailândia): Onze anos após a conquista da Palma de Ouro com o metafísico “Tio Boonmee…” (2010), o maior poeta do cinema tailandês volta aos ecrãs com um elenco multinacional (Tilda Swinton, Jeanne Balibar, Daniel Giménez Cacho), numa trama sobre as camadas sensoriais da nossa relação com o mistério da existência. No enredo, Tilda é uma escocesa que, em viagem pela Colômbia, começa a perceber estranhos sons, que a convidam a novas perceções da realidade. Mas que sons são esses e como eles desafiam a sua lucidez? Essa pergunta rendeu-lhe o Prémio do Júri em Cannes.

‘O LEOPARDO DAS NEVES’, de Marie Amiguet (França): No alto do planalto tibetano, entre vales inexplorados e inacessíveis, encontra-se um dos últimos santuários do mundo selvagem, onde vive uma fauna extraordinária e desconhecida. Vincent Munier, renomado fotógrafo da vida selvagem e o aventureiro e romancista Sylvain Tesson exploraram por várias semanas esse local em busca desses animais únicos e tentarão localizar um dos felinos mais raros e difíceis de se registrar.

‘ESPÍRITO SAGRADO’, de Chema García Ibarra (Espanha): 
Laureado com uma menção honrosa em Locarno, este exótico estudo sobre o fascínio com o espaço entorpece nossa percepção, no limiar da comédia rascante, ao falar sobre um conclave de ufólogos numa cidade nos confins da Península Ibérica onde o desaparecimento de uma menina revela um sinistro segredo.

Espiritu Sagrado: do hilariante esoterismo à trágica realidade - C7nema.net
‘ESPÍRITO SAGRADO’

‘CAMILA SAIRÁ ESTA NOITE’, de Inés Barrionuevo (Argentina): A diretora de “Julia y el Zorro” (2018) comoveu plateias no Festival de San Sebastián, na Espanha, com este “Os Incompreendidos” feminino argentino, seguindo os passos da educação sentimental de uma adolescente, vivida por Nina Dziembtowski, às voltas com uma série de lutas de afirmação.

‘MEU TIO JOSÉ’, de Ducca Rios (Brasil): Annecy comoveu-se com esta animação baiana em 2D sobre as sequelas da ditadura militar brasileira vista, numa reconstituição dos anos 1980, aos olhos de um menino que vê o tio militante (na voz de Wagner Moura) sentir as pressões do regime de farda que acossou brasileiras e brasileiros por 21 anos.  
 

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