Lar de filmes que levaram inquietações do Brasil para o mundo, como “O Som ao Redor” (2012), “Boi Neon” (2015), “Aquarius” (2016) e o recente “Carro Rei”, Pernambuco tem hoje no seu perímetro de invenções um dos mais populares festivais de animação do planisfério cinéfilo, capaz de driblar os percalços da pandemia numa nova sede, o Teatro do Parque. Animage é o nome do evento realizado sob a curadoria do crítico e cineasta Julio Cavani. Na sua 11ª edição, a maratona pernambucana vai de 8 e 17 de outubro, em uma versão híbrida, com exibições online e sessões presenciais no cine teatro que virou um tradicional reduto da classe artística do Recife. A ocupação do espaço será limitada a 300 lugares, atendendo a protocolos de prevenção contra a Covid-19. O público será orientado sobre a obrigatoriedade do uso de máscaras, será assegurado o distanciamento social entre as poltronas e o uso de álcool em gel. Os bilhetes são gratuitos e a retirada será feita na bilheteira do teatro uma hora antes do início das sessões de cada dia. A sua programação também contempla miúdos, com longas-metragens e mostras de curtas infantis. Sessões especiais presenciais de curtas infantis também acontecem no Compaz Miguel Arraes, nos dias 14/10 (quinta) e 16/10 (sábado), com acesso gratuito.
Diante das 1200 inscrições que recebeu para a sua competição de curtas, Cavani e sua equipa curatorial selecionaram 49 produções, de 26 países. Participaram da comissão de seleção a animadora Marila Cantuária, a curadora e diretora Patrícia Lindoso e o quadrinista e animador Rogi Silva. Entre os destaques da programação está “Genius Loci”, do francês Adrien Mérigeau, uma das curtas animadas mais premiadas do ano passado. A narrativa acompanha um dia na vida de Reine, uma jovem solitária imersa num caos urbano de ares caleidoscópios. Além de vencer no Festival de Annecy, em França, o filme conquistou o prestigiado festival de curtas de Clermont-Ferrant e foi indicado ao Oscar este ano. Outro título que merece atenta mirada é “Affairs of The Art”, de Joanna Quinn, uma das realizadoras mais celebradas da atual cena da animação no Reino Unido. Todo feito com desenho em papel, o filme, também premiado em Clermont-Ferrant, acompanha Beryl, uma mulher que tem obsessão em desenhar. Vai ter ainda sessão de “Wolfwalkers”, da Apple TV, que deslumbrou a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood mas passou batido pelo circuito brasileiro.
Na entrevista a seguir, ao C7nema, Cavani faz um balanço da animação na sua pátria.
Que lugar o Teatro do Parque ocupa no imaginário cinéfilo do Recife e o que representa uma mostra de animação nesse espaço de circulação social?
Além de apresentar espetáculos, shows e filmes, o Parque sempre foi uma espécie de ponto de encontro, um ambiente de socialização que gira em torno das artes. Historicamente, o Cine-Teatro sempre foi um exemplo de como a cultura se movimenta, não só a partir do conteúdo das obras, mas também pelas relações estimuladas por elas. A localização no Centro do Recife também tem um significado especial, já que essa região já teve muitos cinemas de rua e poucos sobraram. Levar a animação para esse ambiente é uma forma de atiçar ainda mais a imaginação das pessoas a partir de uma linguagem artística com possibilidades criativas ilimitadas.
De que maneira a animação brasileira driblou a pandemia e o que ela encontrou de mais libertador nestes últimos meses sob o fantasma da covid?
O sistema de trabalho da produção de cinema de animação tem particularidades que podem ser adaptadas ao esquema remoto, com artistas e profissionais que conseguem trabalhar em casa, isolados em seus computadores e com os seus pincéis, canetas, folhas de papel e outros processos artesanais. É diferente de um set de filmagem com atores, que exige uma reunião de pessoas no mesmo ambiente. No contexto da animação brasileira, produções que já estavam em andamento continuaram a avançar sem grandes interrupções, como demonstra a presença de brasileiros em festivais como Annecy e no próprio Animage, que, este ano, apresenta 27 filmes nacionais. Entre as curtas do festival, “Mensagem de uma Noite sem Fim”, de Tiago Minamisawa e Barcabogante, é o mais especialmente interessante pelas reflexões que traz sobre o momento pandémico atual. Entre as longas-metragens, destaca-se “Absolute Denial”, de Ryan Braund, do Reino Unido, com 71’. O diretor fez o filme praticamente sozinho, todo em preto & branco. Ryan fez 30 mil desenhos sozinho, trancado em casa, durante a pandemia É um bom exemplo de como é possível fazer um filme de animação em isolamento social. Um suspense psicológico de ficção científica, com elementos que lembram diversos filmes clássicos.
Como o festival se adaptou aos sintomas sociais da covid-19?
Em 2020, por causa da pandemia, não foi possível realizar o festival. As curtas inscritas no ano passado foram automaticamente transferidos para o processo de seleção deste ano, quando reabrimos as inscrições. Neste ano, o festival adota um formato híbrido, com a maior parte da programação disponível na internet, além de cinco projeções cinematográficas presenciais, em caráter simbólico, com público reduzido e outras medidas de segurança. Em março, com apoio da Lei Aldir Blanc, realizamos também uma edição especial digital online, com programação reduzida.
Que curiosidades você destaca da programação deste ano, em termos de:
1) novos participantes?
Graças a uma iniciativa do próprio Animage, no sentido de descentralizar olhares, o número de participantes da África e da América Latina está cada vez maior. É perceptível também um aumento na quantidade de filmes produzidos em Pernambuco, seja graças aos patrocínios públicos ou pela multiplicação de iniciativas independentes, muitas delas indiretamente estimuladas pelo próprio festival, que sempre promove oficinas e intercâmbios.
2) novas temáticas?
Há sempre diversidade nos temas apresentados pelos filmes, mas o cinema de animação, como outras artes, reflete questões sociais e políticas urgentes presentes na sociedade, então sempre vai haver uma renovação temática a partir das inquietações do mundo. Curtas como “The Physics of Sorrow” e “Affairs of the Art” impressionam pelo gigante trabalho artesanal desenvolvido ao longo de anos.
3) novas provocações?
Um filme da programação que considero bastante provocativo é “On Gaku” por ser um longa-metragem de animação japonês que se diferencia muitíssimo do estilo dos animes dos grandes estúdios. Além da originalidade estética e da combinação de técnicas, ele também tem um esquema de produção muito particular, artesanal, cooperativo e independente. É uma obra espontânea feita entre amigos e a maioria da equipe não é formada por animadores profissionais. O resultado é instigante, envolvente, com um ritmo incrível e cheio de referências culturais que vão do punk aos mangas mais alternativos. É diferente de tudo o que estamos acostumados a ver no universo hegemónico da animação japonesa.
Que técnicas mais se impõem na seleção deste ano?
Percebo que as novas tecnologias, de alguma forma, tornaram os filmes mais artesanais e analógicos ainda mais especiais. Por outro lado, a computação gráfica, artisticamente, muitas vezes, destaca-se mais em exercícios minimalistas do que nas grandes produções detalhistas. Mesmo na mega indústria da animação tridimensional comercial, a essência cartunesca, o lado humano e a narrativa dramatúrgica são mais importantes do que as tecnologias. Associar as duas coisas pode gerar resultados maravilhosos, como percebemos em grandes filmes atuais, mas a criatividade sempre será mais determinante do que a técnica.
Que veios “Wolfwalkers” desbravou em sua relação com os códigos da animação industrial?
“Wolfwalkers” é um bom exemplo de como é possível inserir inteligência, atitude social e riqueza artística original no circuito de entretenimento infantil internacional, sem a necessidade da repetição de fórmulas e ideias baseadas em tendências mercadológicas. É um filme que precisa ser mais descoberto pelo público brasileiro e que ganhará uma primeira projeção cinematográfica presencial no Brasil graças ao Animage. A experiência de ver uma animação tão rica plasticamente na tela grande tem tudo para ser realmente sublime.

