A 15ª edição do único festival de cinema de terror em Portugal inteiramente devotado ao género decorre entre 7 e 13 de setembro no cinema São Jorge, em Lisboa. O C7nema esteve com os diretores Pedro Souto e João Monteiro – numa conversa que acabou por direcionar-se a dois temas principais – o cinema português e a promissora longa-metragem de Carlos Conceição, “Um Fio de Baba Escarlate“, e a questão do feminino no cinema do terror. Com uma postura abertamente militante, conforme descrita na apresentação da seção “Fúria Assassina: Mulheres ‘serial killer’”, também enfatizam: “não estamos a passar sermões a ninguém”.
RISCOS: O CAVALEIRO VERDE
Mas, antes, o começo, que traz ousadias: primeiro a do realizador britânico David Lowery, que subverteu estruturas e ritmos da jornada heróica ao pegar numa ramificação medieval das lendas do rei Arthur – e saiu-se com a abordagem muito original de “The Green Knight”. E depois do Motelx, que andava atrás da nova proposta da A24 e agarra-se a um projeto que chega cheio de “hype” lá de fora.
“Procurar filmes sonantes é a regra da maior parte dos festivais”, diz Pedro Souto. “Por vezes, como aconteceu com Super Dark Times, em 2017, a receção pode não ser tão boa, pois não tem aquele ambiente festivo de abertura. Mas não temos medo de arriscar”.
Também pode ser o caso do encerramento, “The Night House”, de David Bruckner. Segundo João Monteiro, o mistério que envolve a vida de uma mulher solitária numa casa onde o namorado faleceu recentemente e demonstra ainda estar por lá, traz, “dentro da sua simplicidade, momentos arrepiantes – que chegam a lembrar The Lost Highway, do David Lynch”. Ao mesmo tempo, “não é banal, também desafia a narrativa”, completa.
RISCOS: A SEÇÃO “X”
A procura por riscos também estende-se à mais nova seção – denominada simplesmente X. Composta por curta-metragens, terminou por ser uma evolução natural daquilo que vinha acontecendo nas diversas seleções dos programas de curtas dos anos anteriores. Para a surpresa dos programadores, boa parte dos filmes tinham um carácter mais experimental – de forma que eles acharam que podiam compor uma seção inteira.
Um dos destaques do ano passado, aliás, uma curta de Bertrand Mandico, que agora retorna com uma longa-metragem. Esta, “After Blue“, promete ser um dos pontos altos da programação – a julgar pelas reações no último Festival de Locarno.
A QUESTÃO DA REPRESENTAÇÃO: FÚRIA ASSASSINA, MULHERES “SERIAL KILLER”
O festival tem um posicionamento vincado no que toca a questões de igualdade de género e todos os anos a programação reforça essa postura. Este ano, desde o “spot” até a seleção de diversos filmes (o canadiano “Violation“, o tunisino “Black Medusa“) e incluindo, obviamente, o painel de debates que segue a seção “Fúria Assassina, Mulheres ‘Serial Killer’”, não é diferente.
Certamente reconhecendo a importância do tema, a conversa envereda, no entanto, pelos rumos por vezes estranhos que têm tomado nas redes sociais e na eventual asfixia das fantasias que se podem ter no cinema. O que, no caso do cinema de terror, pode ser particularmente paralisante.
“Talvez por uma razão de otimismo”, diz Pedro Souto, “vejo como temporária toda essa fase da ‘cancel culture’ e certos radicalismos vindos de pessoas que queriam que as coisas se movimentassem de forma mais rápida. Por vezes o radicalismo é necessário mas, mais importante, é estimular o debate. De qualquer forma, todos os filmes que exibimos, incluindo os desta seção, não podem ficar restritos a este tema. Há diversas formas de interpretar estas obras”.
“O que acho muito estranho”, reforça Monteiro, “é de que agora parta do pressuposto que qualquer criador é uma espécie de santo, um super homem ariano. Não consigo entender. De qualquer forma, o festival tem um posicionamento, mas não estamos a passar sermões a ninguém”.
ESCAPANDO PELA TANGENTE: A “EXPLOITATION”
A vastidão de obras sob o vasto guarda-chuva da palavra “exploitation” tem sobrevivido aos tempos e continuamente escapado ao cerceamento vindo de certas agendas. Na mesma semana em que inicia o Motelx, que exibirá “Straight to VHS“, sobre um misterioso cineasta “underground” uruguaio, Veneza apresenta um documentário sobre Joe D’Amato…
Segundo João Monteiro, mesmo estes filmes na altura eram escolhidos para passar mensagens que não circulavam no “mainstream”. “Nos últimos anos os festivais têm vindo a recuperar realizadores que durante anos foram vilipendiados”, observa.
UM FIO DE CINEMA PORTUGUÊS

E, com isso, chega-se ao mais novo representante do cinema de terror português, sendo um dos propósitos expressos do certame o fomento da cinematografia lusa no género. Para além da tradicional Competição de Curtas, onde a pandemia não afetou a quantidade e nem as complicadas logísticas de produção (“sempre foi um cinema feito com pouco dinheiro”, diz Monteiro), o destaque é a longa de Carlos Conceição, “Um Fio de Baba Escarlate“.
O filme é uma curiosa viagem sem diálogos pela iluminada noite lisboeta no descapotável de um “serial killer” – que subitamente se vê alvo das insuportáveis redes sociais. Satisfeito com a proposta, Monteiro destaca a presença de Leonor Silveira. “Se esse filme tivesse sido feito 15 anos atrás teria sido um escândalo”, brinca.
Dentro desta lógica, é imperdível o painel “Making Genre – from Concept to Distribuition”, onde o destaque vai para o produtor Josh C. Waller. Depois de abandonar a SpectreVision (produtora de filmes como “Mandy” ou “A Girl Walks Home Alone at Night“), Waller instalou-se em Portugal e fundou uma nova produtora – a Woodhead. Eventualmente, será uma forma de não só atrair produções internacionais como dar hipótese aos trabalhadores da indústria cinematográfica lusitana – assim como fomentar novos talentos.
E, por fim, até pode ajudar a romper uma certa lógica do ICA, conforme ressalta Pedro Souto. “Se em vez de meia dúzias de filmes de género eles passarem a receber dez ou 20, começa a ser difícil ignorar – especialmente se forem projetos com consistência. Estamos aqui para mediar esse processo”.

