Filtrados os exotismos potenciais a qualquer imersão estrangeira na porção brasileira da maior floresta verde do planeta, o processo de reeducação geográfica e afetivo da sul-africana Pia Marais acerca da questão indígena na América do Sul, construído ao longo das filmagens de “Transamazônia”, passou essencialmente pela demarcação simbólica da fronteira entre a ancestralidade e o presente. Concorrente ao Leopardo de Ouro de Locarno, em agosto, quando encarou as críticas de incorrer no código dos filmes white savior, a longa-metragem fez a sua estreia em terras brasileiras no Festival do Rio, com a presença da realizadora.
“O trabalho com os povos indígenas, que foram cocriadores, foi maravilhosos, mas marcou-me sobretudo pela forma com que eles estão na contemporaneidade, como se vivessem entre dois tempos. Existem as tradições ancestrais de um lado e existe toda uma população com smartphones na mão, que vão às discotecas na sexta à noite. Queria manter isso no meu retrato”, disse Pia ao C7nema, acompanhada pelo ator Hamã Sateré e pelo produtor Camilo Cavalcanti.

Como a película foi rodada no estado do Pará, uma das mais respeitadas cineastas de lá, Jorane Castro (“Para Ter Onde Ir”), entrou no projeto como coprodutora, e esteve também na projeção carioca de “Transamazônia”. A trama assume como protagonista uma jovem vinda do outro lado do Atlântico, Rebecca (Helena Zengel), que adquiriu status de curandeira depois de ter sobrevivido a um desastre aéreo numa área florestal. Ela é filha do missionário Lawrence Byrne (Jeremy Xido), que trata a sobrevivência da filha como se fosse um milagre e usa essa dimensão milagreira da menina como um chamariz para atrair fiéis. A fama de Rebecca é grande numa região que acaba por ser invadida por madeireiros ilegais. A invasão macula a integridade dos povos indígenas que estão num processo de evangelização, o que acaba por atirar os Byrne no epicentro de um conflito.
“Quando Bolsonaro assumiu a presidência, pensei em mudar o projeto para a Guiana Francesa, mas o Brasil era o local e é um território imenso, que me impressionou desde a primeira viagem de preparação que fiz, em 2015”, disse Pia, que elogia o comportamento corajoso de Hamã nos sets. “Ele teve muita bravura nas suas cenas”.
O jovem integra o microcosmos de encontros que trazem novos vetores sociais à vida de Rebecca. “Nem eu imaginei que faria uma personagem com tanta coragem”, disse o ator.
Integrante da produção de “A Vida Invisível” (Prix Un Certain Regard de Cannes em 2019), Cavalcanti lembra que Pia, amiga do cineasta Karim Aïnouz, percorreu o Pará em busca de uma estrada onde pudesse construir o eixo da sua narrativa. “Fomos de Belém a Tucuruí, no território das populações Assurini”, diz o produtor.
Ao analisar as vivências que teve na América do Sul, Pia esbarra na interseção entre religião e política de um continente marcado pelo avanço das igrejas neopentecostais, e cita o dinamarquês Carl T. Dreyer (realizador de “A Palavra”) como referência no trato com a fé.
“É difícil não pensar na dimensão económica ligada àquele ambiente de sociedade patriarcal. Não sei se penso tanto na conexão entre fé e política, nesta história. Talvez o que mais me interesse seja o aspecto da redenção, do perdão, que é também um valor cristão”, diz Pia.
Vão ainda haver mais sessões de “Transamazônia” no Festival do Rio 2024: uma será nesta segunda-feira, dia 7, às 16h30 (horário brasileiro), no Cinesystem Praia de Botafogo 1, e a outra no dia 13, às 18h15 (no relógio sul-americano) no Estação NET Gávea 3.

