Detectam-se manifestações sexistas de controlo em Si Tu Penses Bien que geram embrulho no estômago, até quando o filme se deixa levar por um tom apelativo já testado — e bem-sucedido — em It Ends With Us. Não há espaço para a subtileza neste drama de possessividade realizado por Géraldine Nakache, que funciona como um alerta para o perigo que habita a intimidade de muitos casais. O ciúme surge como expressão de um instinto de posse — nunca legítimo e intrinsecamente objetificante — que a narrativa expõe. Gradualmente, na dissecação em tempo real de uma dinâmica marcada pela ausência de empatia, o que começa como um traço ciumento transforma-se num contínuo ritual de violência.

O cenário é o Dubai, onde Gil (Monia Chokri) conhece Jacques (Niels Schneider, perturbador em cena). O amor à primeira vista entre ambos, alimentado por uma intensa pulsão sexual, conduz a um casamento precipitado que rapidamente revela uma clivagem profunda de visões do mundo, já que Gil não partilha da fé avassaladora do marido. Jacques tenta submetê-la a uma leitura fundamentalista da Torá, num discurso que se aproxima da ameaça. Gil trabalha no cinema para sobreviver, mas deixa de encontrar paz perante o medo que o companheiro impõe.

Nakache alterna temporalidades para ilustrar, através de situações quotidianas, o descontrolo de um homem dominado pela insegurança. A forma como proíbe a sogra e os cunhados de visitarem a filha recém-nascida revela uma brutalidade que sintetiza a arquitectura do machismo. A sua obsessão contamina Gil de múltiplas formas, como se percebe no desconforto que manifesta perante uma ama mais jovem.

Na montagem de Juliette Welfling, o filme procura um registo de thriller que por vezes se impõe, mas nem sempre se sustenta. Já a fotografia de Sylvestre Vannoorenberghe revela maior consistência na sua aposta em cores quentes, refletindo a ebulição de um amor em colapso.

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
si-tu-penses-bien-expoe-a-arquitetura-da-posseNa montagem de Juliette Welfling, o filme procura um registo de thriller que por vezes se impõe, mas nem sempre se sustenta.