Estreado mundialmente em 2019 no Festival de Toronto, “Blackbird” chega agora aos cinemas portugueses num período em que o tema da eutanásia já passou pelo nosso parlamento, abrindo porta à chamada legalização da morte assistida.
A eutanásia é aliás o ponto chave deste filme, remake do filme dinamarquês “Still Heart” (2014), que reúne no elenco grandes nomes do cinema contemporâneo, como Susan Sarandon, Kate Winslet, Mia Wasikowska, Lindsay Duncan, Sam Neill, Rainn Wilson e Bex Taylor-Klaus.
Filmado por Roger Michell, conhecido pela diversidade na realização de filmes tão diferentes como “Notting Hill”, “A Mãe” ou “Hyde Park em Hudson”, “Blackbird-A Despedida” segue uma família durante um fim de semana que irá culminar com a morte assistida da matriarca.

“É um filme mais sobre a vida e viver. De como como colocar a vida numa espécie de alívio, fazendo lembrar que todos os dias podem ser o último”, explicou aos jornalistas o ator Sam Neill em San Sebastián, onde o filme abriu o certame em 2019. “É um filme sobre famílias, mães e filhos e a complexidade de um fim de semana quando se é confrontado com algo bastante extremo.”
Já Roger Michell, também presente no certame basco, explicou que “Blackbird” não toca apenas no tema da eutanásia, mas “agarra-o com as duas mãos” sem fazer polémica ou propaganda a qualquer um dos lados da questão: “É um filme que não barrica o espectador a dizer ‘vamos legalizar a eutanásia em todo o lado’ (…) Eutanásia vem do grego e significa “uma boa morte”, mas este tema é muito mais complicado que este filme. Nenhuma das personagens presentes parece acreditar em Deus e muitos dos temas em torno da decisão de fazer ou não estas escolhas já aconteceram, propositadamente, antes do filme começar.”

A complexidade do tema
Para Michell, qualquer legislação em torno da eutanásia tem de ser tratada com enorme delicadeza: “Há potencialmente muitas vítimas da chamada “eutanásia má”. Os doentes ricos com familiares gananciosos, pessoas idosas já sem capacidade de decisão, etc. É difícil legislar em torno disto e acho que as coisas vão-se extremar no futuro, pois as pessoas vivem mais tempo, os idosos vão ter cada vez mais ideia do que é viver a 3ª idade, e todos quererão manter o controlo sobre os seus destinos. Na vida e na morte.”

Remake sim, mas com identidade própria.
Todos os elementos da equipa e elenco do filme tinham perfeita consciência que estavam a participar num remake, mas nenhum deles viu o filme anterior para evitar comparações e influências. “Não queria ser absorvido pela sua dimensão e qualidade, e creio que o nosso filme é bastante diferente, não só no guião mas igualmente no tom”, explicou Michell, com Sam Neill a acrescentar: “Ninguém do elenco viu o filme original, não por desrespeito mas porque queríamos fazer algo nosso. Primeiro, todos queremos trabalhar com o Roger e fazer o seu filme. Depois, pessoalmente, não queria ver outro ator a fazer aquele papel. Todos os atores tomam decisões de como fazer as coisas quando assumem um papel e eu não queria ser influenciado pela decisão de outro ator ou replicar o que ele fez. E ainda não vi o original.”
Sam Neill explicou igualmente que ajustar-se à sua personagem, do médico e marido de Susan Sarandon, foi todo ele um “exercício de contenção”, um trabalho de suprimir os sentimentos de “culpa e pesar”, tentando simultaneamente manter o equilíbrio emocional da família: “Se ele abandonar o barco, o caos vai invadir a família. Foi o assumir de uma grande responsabilidade perante decisões horríveis. “ A família é muito volátil. Ele tem duas filhas muito loucas, cada uma à sua maneira, e não é fácil ser pai.”
O ator neozelandês também refletiu como a sua experiência pessoal teve influência não só no ato de aceitar o papel, mas igualmente na sua construção: “A minha mãe, que era a pessoa mais engraçada, brilhante e cheia de vida que conheci, faleceu com demência. Foi algo muito humilhante para ela e muito doloroso e triste. Quando o meu pai estava a morrer perguntou porque razão ninguém acabava com o seu sofrimento, como se faz com os cães. A minha mãe certamente quereria o mesmo. Foram dois anos de profunda angústia e tormenta, que é o que acontece a alguém com demência. Claro que agora estou naquela idade em que também penso se um dia ficarei demente e se quererei que alguém “desligue-me” da vida.”
Como filmar cenas verdadeiramente dramáticas
Para Roger Michell é muito mais fácil filmar dramas que comédias, e quando se tem grandes atores como “Blackbird”, tudo se torna mais simples: “A carga que as cenas trazem transporta-se para o plateau, por isso não foi difícil. Tínhamos também um elenco fabuloso com gente muito talentosa. Estranhamente, e pela primeira vez na minha carreira, todos eles estavam nas filmagens simultaneamente e viviam a 5 minutos do local. Conseguimos filmá-lo quase na sua totalidade de forma cronológica em termos de história, o que também é algo muito difícil de acontecer no cinema. Creio que isso desenvolveu em nós um método socrático muito poderoso, com um grande sentido de coletivo e um círculo de verdadeira intimidade. E no final das filmagens todos fizemos uma tatuagem de um melro (Blackbird), por ideia da Kate Winslet. Foi este este o nível de coesão.“

