Le Café de mes Souvenirs: Jacques Demy na ribalta

(Fotos: Divulgação)

Num quarto de hotel da capital russa, recém-chegado ao 43º Festival de Moscovo, com a tarefa de encerrar a maratona cinéfila esta quinta-feira, com a projeção de “Le Café De Mes Souvenirs”, o ator Valto Baltzar entra no zoom ainda ofegante, na companhia de uma jovem intérprete capaz de traduzir as suas reflexões em Finlandês sobre dois substantivos pontiagudos: “solidão” e “desconexão”.

Palavras quase gémeas quando os seus significados são aplicados à vida numa cidade grande, e ambos os termos se combinam no filme que Baltzar filmou – na sua estreia no cinema, após anos de devoção ao teatro – e Kimmo Koskela fotografou, editou e produziu. O fotógrafo também estava na sala de Zoom do C7nema, mascando verbos num Inglês perfeito, mas com sotaque, para evocar Jacques Demy (1931-1990).

O papa do musical moderno e a sua obra-prima na direção – “Os Chapéus de Chuva de Cherburgo”, vencedor da Palma de Ouro de 1964 – são as inspirações para uma narrativa sem compromissos com o realismo, mas atenta a conflitos sociais do mundo à nossa volta, pilotada por Baltzar. Apoiado numa direção de arte estonteante, o seu roteiro revela uma relação alquebrada, numa viagem por Helsínquia. Lá, uma empregada de mesa, Emilie (Eveliina Kauhanen), vive nas raias do encantamento uma paixão por um professor de Francês, Philippe (Lionel Nakache), sendo boicotada pela sua mãe controladora. “Lógica e emoção devem andar juntas na vida”, diz Baltzar ao C7, numa entrevista sobre a realidade de produção na Finlândia, ao lado de Koskela.

Como funciona a indústria de cinema na Finlândia para gerar um musical como este?

Valto Baltzar: 
Quando esse projeto começou, fui a um videoclube e aluguei “Os Chapéus de Chuva de Cherburgo” para entender a arquitetura de emoções de Demy. Não queria copiar os seus passos e, sim, dialogar com eles. Como venho do Teatro, fui atrás de patrocinadores, mas num momento em que várias pessoas estavam a filmar.

Kimmo Koskela:
  Começamos esse projeto há dez anos. Ele demorou porque submetemos o roteiro à aprovação do fundo nacional finlandês de fomento à produção. Sem nunca sermos aprovados, levou-nos a correr atrás de investidores. Baltzar conseguiu apoio graças a um trabalho incrível de convencimento da importância desta história, que filmamos com cerca de € 800 mil, trabalhando com um elenco que atuou abaixo das tabelas salariais.

Mesmo com o baixo orçamento, o filme alcançou um resultado impressionante, sobretudo na força da sua montagem e na potência das suas cores. O quanto esse colorido dialoga com Demy?

Valto Baltzar: 
O cinema dele permite-nos repensar tudo o que existe de clássico no musical e oferece-nos a chance de repensar Helsínquia a partir de sua própria geografia, aquela que vemos ao abrir as janelas, mas que se redefine ao nosso olhar quando a enquadramos da mesma forma que Demy filmou Cherbourg.

Kimmo Koskela:
  Mais do que uma referência de cor, Demy serviu como parâmetro para os nossos movimentos de câmara, uma vez que ele regista a realidade com uma liberdade que nos leva ao lirismo. Sou um fotógrafo e quando penso a imagem, busco sempre a força do movimento, coisa que Demy dominava, sob um prisma de encantamento.

Apesar de ser uma história de amor, ‘Le Café De Mes Souvenirs’ mostra o quão solitários são as suas personagens. Qual é a dimensão poética da solidão?

Valto Baltzar: 
É um filme sobre escolhas e sobre a dominação, duas forças que nos levam a perdas.
Kimmo Koskela: 
A diferença de idade das personagens é algo que alimenta a distância.  

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