Menos de dois meses após a conquista do Urso de Ouro para “Bad Luck Banging or Loony Porn“, e com duas nomeações aos Oscars dadas ao documentário “Colectiv“, o cinema romeno celebra mais uma vitória, diante da mobilização que o seu novo fruto, a sombria comédia “#dogpopgirl“, vem gerando no Festival de Moscovo, na competição oficial.
Estreante nas longas-metragens, o ator e realizador Andrei Hutuleac é visto como um íman vivo de prémios por conta do seu ácido filme sobre a onda de linchamentos virtuais ligados a disputas morais, falando-se isso hoje em dia como “cultura do cancelamento”. Mas ele parece refutar o termo, por aversão a qualquer rotulação. No seu filme, uma bancária tem a sua vida destruída depois de um vídeo captado por um smartphone tornar-se viral na internet, mostrando a sua recusa em limpar o vómito do seu cãozinho recém-adotado numa carruagem do metro. Este incidente faz dela o alvo de uma perseguição nas redes sociais.
Na entrevista a seguir, Hutuleac conta ao C7nema a fonte real dessa narrativa e faz uma análise da realidade industrial da Primavera Romena, termo usado desde 2007 para definir a força poética do seu país nas telas.
Qual considera ser a mais grave sequela da cultura do cancelamento, que é um dos principais assuntos do seu “#dogpoopgirl“?
Este filme nasceu de uma situação real que ocorreu em 2005, na Coreia do Sul. Uma jovem estava no metro com o seu cão e ele defecou. O dono de um blog tirou uma fotografia, publicou-a e fez da situação um escândalo. A mulher passou a ser identificada nas ruas de Seoul como a “Dog Poop Girl” e foi forçada a sair da faculdade pelo que aconteceu. A situação só parou quando ela ameaçou matar-se.
Um livro chamado “So You’ve Been Publicly Shamed“, de Jon Ronson, também foi um parâmetro importante para que construísse o roteiro. Não compro muito a ideia do termo “cancelamento” porque incomodo-me com rótulos, por crer que eles encerram demasiadamente certas certezas. Prefiro falar em “difamação virtual”. O que causa essa situação é o facto da internet ser…ainda… um meio de expressão muito jovem. Essa juventude da web leva as pessoas a olharem o meio digital como um caminho de exercerem justiça pelas próprias mãos. Quem deveria atribuir culpa e pena é a Justiça, o Direito. Mas hoje, quando as pessoas tornam-se muito passionais, reagem com brutalidade. E esse é o fenómeno.
Usaria o termo “heroína” para definir a figura da bancária que, no seu filme, é destruída por essa tal “difamação virtual” de que fala?
De novo, temos o problema do rótulo. A vida real não comporta heróis nem vilões. Na vida real, temos pessoas que passam por algumas tragédias e temos pessoas que cometem erros. A minha protagonista tem a peculiaridade de atear mais fogo ao incêndio que se armou à sua volta.
Desculpe incorrer em mais um rótulo para falar de “#dogpoopgirl“, mas não há como não chamar ao seu filme uma comédia. Qual é a génese desse humor que os romenos fazem no cinema?
Não saberia fazer uma genealogia, até porque, no caso deste filme, o enredo que construí não passa pela tradição cinematográfica romena e, sim, pelo medo que senti diante do que certos movimentos andam a fazer via internet, ao exigir justiça para questões que parecem não pertencer a eles.
Desde “A Morte do Sr. Lazarescu“, em 2005, o cinema tem sempre algum buquê de surpresas para receber da Primavera Romena. Como é que vocês articulam-se como indústria no audiovisual?
Não existe muito dinheiro, sobretudo para quem é cineasta estreante. Eu pude contar com um fundo do governo que oferece uma verba de arranque (seed money) para filmes, mas precisas ir atrás de investimentos para completar o orçamento. Não sei te precisar o nosso custo exato, mas foi algo em torno dos 200 mil euros. E só custou isso porque filmamos de maneira bastante independente em 18 dias. Uma narrativa com a abordagem que escolhemos poderia impor mais desafios e exigir mais. Mas ainda sou um realizador jovem. Aceitei o desafio para aprender com os possíveis erros. E como também sou ator, pude convencer alguns colegas a trabalharem comigo sem ganharem os valores que seriam ideais.
Existe algum tipo de censura para um filme como esse?
Não sigo nem professo nenhum tipo de ideologia, então não vejo neste filme nenhuma bandeira que não o desejo de contar uma história capaz de mobilizar as plateias. E existe, sob o projeto, a tal história real da jovem coreana. Parti desse episódio que foi a génese de um fenómeno hoje generalizado.

