‘Ainda Temos A Imensidão…’ do streaming: filme de Gustavo Galvão arrebata fãs

(Fotos: Divulgação)

Exibido no Rio de Janeiro, em visionamento de imprensa pontuado de lágrimas, suspiros e aplausos antes de a pandemia paralisar as atividades presenciais da (dita) Cidade Maravilhosa em 2020, “Ainda Temos a Imensidão da Noite”, produção brasileira de poética universal, segue até hoje tocando nos corações e arrebatando fãs.

Há uma semana, o filme de Gustavo Galvão marcou um golo em prol do audiovisual brasileiro, em terreno argentino, ao sair do Buenos Aires Festival Internacional de Cine Independiente (BAFICI) laureado com o prémio de melhor interpretação, dado à atriz Ayla Gresta. Foi ex aequo: a consagração de Ayla foi dividida com uma outra estrela do Brasil, Simone Spoladore, pelo seu trabalho em “O Livro dos Prazeres”. A vitória só fez aumentar o número de holofotes sobre a longa-metragem, hoje disponível nas plataformas digitais Now, Vivo Play e Oi Play.  A partir do dia 29 de abril, ele ampliará o seu circuito digital, entrando no catálogo da Apple TV, Google Play e YouTube Movies.

Realizador do filme de culto “Uma Dose Violenta de Qualquer Coisa” (2013), Galvão faz nesta nova longa-metragem uma espécie de “Round Midnight” do BRock (o rock’n’roll brasileiro) dos anos 2010. É pura vontade (d)e potência: um ensaio existencial sobre geografias, a de Brasília e a de Berlim, sob acordes do rock. Bonito de ver e viver. A trama: cansada de lutar por um lugar ao sol com a sua banda de rock, a vocalista e ás do trompete Karen (Ayla) decide partir do Distrito Federal. Ela vai deixar para trás a realidade brasiliense, abandonando a metrópole que o seu avô, hoje muito adoentado, ajudou a construir. Ela segue os passos do ex-parceiro de banda, Artur (Gustavo Halfed), que tenta a sorte na capital alemã. O convite parte de Martin (Steven Lange), amigo alemão com quem os dois fecham um triângulo imprevisível. Em solo alemão, sob um frio de rachar, amores, copos e solfejos vão marcar o desterro de Karen. Na conversa a seguir, Galvão faz uma autopsia em corpo vivo da capital política dae sua pátria.

Como você avalia o papel que a streaminguesfera hoje exerce para pequenas produções independentes do Brasil?

Um bom parâmetro para entender a relação entre o streaming e o cinema independente é o que aconteceu com os festivais. O filme passou por alguns festivais que precisaram se adaptar ao online em função da pandemia, em países tão diferentes quanto a Itália ou Coreia do Sul. Conversei com os programadores e a resposta deles foi a mesma: na melhor das hipóteses, os festivais online atingem o mesmo número de espectadores da média do evento presencial. Há uma razão evidente para isso, que é a gigantesca concorrência em escala global. Sem condições para fazer uma divulgação compatível com o alcance das ferramentas online, os festivais não ampliam seu público. É o que acontece com as produções independentes: sem condições de investir forte em divulgação, estrear no streaming é como ser jogado numa vala comum. Por um lado, não posso reclamar, pois o “Imensidão” foi adquirido para distribuição em 71 países, inclusive territórios que não costumam receber produções brasileiras, como Reino Unido, Irlanda e Canadá. Isso é um sonho! Por outro lado, não tenho verbas para fazer o filme destacar-se em catálogos com milhares de filmes e séries, então só me resta torcer para que algo de bom aconteça. Ou seja: o streaming abre oportunidades que talvez o cinema presencial jamais abriria. Mas se esse é o futuro do audiovisual, precisamos discutir as formas de regulação e difusão para que o abismo entre os independentes e os grandes produtores de “conteúdo” não inviabilize totalmente a atividade dos pequenos. Para entender porque coloquei “conteúdo” entre aspas, sugiro ler o brilhante artigo do Scorsese na “Harper’s Magazine” de fevereiro.


Qual é a Brasília de “Ainda Temos a Imensidão da Noite” e como ela se articula com a Brasília de agora?

Uma coisa é certa: a Brasília de Ainda Temos a Imensidão da Noite não é, definitivamente, a mesma que os brasileiros conhecem pelo noticiário político. É a Brasília que as pessoas comuns vivenciam no dia a dia. São pessoas com contas para pagar, mas também com sonhos, desafios e percalços próprios de uma realidade utilitarista, que sufoca aqueles que querem construir algo novo. É também uma cidade ainda em construção, não no sentido físico, e sim no sentido cultural e humano. Contamos tudo do ponto de vista de uma trompetista e cantora numa banda de rock, a forma como ela se relaciona com Brasília é de choque. Ela sabe que esta cidade tem vocação nata para a arte, por isso não se conforma que as pessoas em volta não lutem por isso. Ao mesmo tempo, não falamos de uma cidade apenas, falamos de várias, pois muitas cidades compõem o que se convencionou chamar de Brasília. A personagem circula pelo Plano Piloto
(o eixo central da cidade), onde vivem seus amigos e parceiros, mas ela vive no Gama, uma das cidades mais antigas do Distrito Federal, além de ser uma das mais distantes do Plano.

Como foi o trabalho de direção da Ayla Gresta?

A Ayla interpreta a Karen e a Karen é a alma do filme. É natural que tudo partisse da seleção da trompetista que interpretaria a Karen. Começamos esse casting em 2015, fizemos algumas entrevistas e assim conhecemos a Ayla. Ela brilhou desde o primeiro momento. Tocar trompete era requisito crucial para o papel, mas ela já trazia consigo outras virtudes importantes: desenvoltura corporal (havia atuado em performances), conhecimento dos temas do projeto no tocante a Brasília (ela é arquiteta profissional) e falava inglês fluentemente (sendo que a nossa Karen também atua em inglês, quando vai a Berlim). Dito assim, parece que ela já era a personagem, mas não. A Karen traz dentro de si uma raiva, um inconformismo e uma energia combativa que a própria Ayla admitiu que não tinha. Todo o trabalho de direção fundamentou-se em trazer à tona essa raiva e essa energia. Isso tomou alguns anos de conversas e de muita preparação prática, que começou em dezembro de 2016 (quando fizemos as primeiras aulas com a preparadora de elenco Vanise Carneiro) e que culminou com um intensivo de preparação vocal (com Cristiano Karnas, em julho de 2017) e com mais ensaios comigo e com a Vanise (julho/agosto de 2017). E em paralelo, construíamos a banda do filme. Foi lindo ver como uma coisa (a preparação para atuar) complementava a outra (a preparação da banda). Tudo isso fez com que a Ayla fluísse naturalmente no set. Em setembro/outubro de 2017, ela parecia uma atriz calejada, sendo que esta foi a primeira experiência dela em cinema! Foi um dos trabalhos mais gratificantes da minha trajetória em cinema e a premiação dela no BAFICI coroou isso.

Quais são seus atuais projetos?

Tenho um longa-metragem em preparação, cuja contratação na Ancine está parada há dois anos e dois meses. Já temos elenco definido, temos um roteiro afiado (já no seu 15º tratamento), temos uma boa parte das locações escolhidas, temos até o plano de filmagem pronto. Falta apenas a Ancine fazer a parte dela, que é contratar o projeto, aprovado em seleção do FSA em 2018. Enquanto isso não acontece, eu e um grupo fiel de parceiros seguimos o trabalho como podemos, melhorando o roteiro, ajustando o orçamento à crise sanitária e à inflação e buscamos referências estéticas e conceituais. O filme seguirá duas tramas em paralelo, sendo uma ambientada em Brasília (no Plano Piloto) e outra em uma cidade do chamado Entorno (cidades de Goiás coladas no DF). O projeto chama-se “O Vazio de Domingo à Tarde”. Espero filmá-lo ainda em 2021.

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