Jean-Pascal Zadi : “combater é uma forma de reagir ao racismo”

Jean-Pascal Zadi no ritmo da periferia brasileira

(Fotos: Divulgação)

Contemporâneo de Mati Diop, Ladj Ly, Sabrina Fidalgo, Alain Gomis, Jeferson De, Barry Jenkins e de toda a leva de cineasta negros/as que tem desafiado as engrenagens da intolerância racial no mundo, Jean-Pascal Zadi é um rapper que encontrou na realização de longas-metragens um veio a mais de compartilhar as suas inquietações e, sobretudo, o seu bom humor, enchendo salas de exibição.

Ele assina uma das mais sólidas bilheteiras de França neste 2020 pandémico, ao levar 800 mil pagantes a rir com “Tout Simplement Noir”. Aos 40 anos, o multiartista nascido em Bondy, no nordeste de Paris, filho de um casal da Costa do Marfim, vai soltar os seus verbos de ação, neste domingo, na Festa Literária das Periferias (Flup), evento brasileiro que celebra expressões artísticas das populações negras. Ele participa, esta noite, do último colóquio da série #FlupPeloMundo, em entrevista à jornalista Rokhaya Diallo, às 21h do horário carioca, 0H de Portugal. O conteúdo é gratuito e exclusivo no YouTube e Facebook da Flup.

No cardápio de especiarias sociológicas que a dupla vai oferecer ao público do evento organizado pelo escritor Julio Ludemir (autor do seminal romance “No Coração do Comando”), vai estar uma reflexão sobre como driblar o racismo no Velho Mundo; vai-se discutir a mescla de linguagens do rap com o audiovisual e os efeitos da covid-19 nas geografias mais periféricas da capital francesa. “Em França, a polícia sempre pára na rua quem é negro. Fazemos cinema para combater esse comportamento”, disse Zadi por telefone ao C7nema.

Envolvido na direção desde 2010, quando lançou “African Gangster”, Zadi cria em “Tout Simplement Noir” uma cartografia de resiliências ao narrar a aventura de um ator para organizar uma marcha de contestação aos conflitos raciais. Ele divide a realização com o fotógrafo John Wax. Nesta entrevista ao C7, o cineasta, que executou ainda a série “Craignos”, faz uma radiografia da sua estética.

Onde o rap e o cinema confluem na sua obra como realizador?

Rap é imagem. As suas metáforas são visuais. A palavra é o que existe em comum entre os dois. Palavra, para mim, é combate. Quando escrevo um roteiro, penso menos na história a ser contada e mais na luta que vou travar. Combater é uma forma de reagir ao racismo.

Você integra a equipa da Festa Literária das Periferias, a Flup, no Rio, a partir de uma conversa a ser exibida online. O que a palavra “periferia” representa para você?

“Periferia” significa “chance”. Eu tive a chance de nascer periférico, numa família pobre. Aproveitei essa “chance” para criar. Eu percebi ali, num contexto de pobreza, no qual o rap dos Estados Unidos oferecia um norte de expressão para mim, uma “chance” de ser livre. Existe o contexto de “riqueza” na palavra “periferia” também. A riqueza de uma vivência que se pauta pela criatividade. 

O que o humor representa para os filmes que você faz e como preservar o humor no confinamento?

Comédia é combate. Eu uso o riso como arma e como instrumento de mobilização. Sobre a pandemia:estava para lançar o “Tout Simplement Noir” quando a covid-19 parou tudo. E, no primeiro confinamento, percebi que aquela situação de lockdown era uma oportunidade que a gente tinha de repensarmos a nossa vida. Quando os cinemas reabriram, lancei o filme e cheguei a 800 mil espectadores. É importante, agora, repensarmos quem somos. Eu tenho mais um filme para fazer, no qual interpreto um policia.

Que cineastas hoje mais impressionam o seu olhar, em especial as vozes negras na realização?

É inegável que o Spike Lee fez coisas incríveis, mas, hoje, em França, há mais artistas negros/as que têm o projeto de realizar do que realizadores já com uma obra em curso. O cineasta que mais me impressiona hoje, pela sua liberdade, mesmo com toda a sua controvérsia, é Lars von Trier. Mas gosto muito de Yorgos Lanthimos e do Roy Andersson.

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