Nheengatu: “O Brasil não foi descoberto, o Brasil foi invadido”

(Fotos: Divulgação)

Frente a uma esquadra portuguesa que aporta na 44.ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que se inicia hoje, tal como o Doclisboa, o documentário Nheengatu surge em ambos os certames como um vetor de excelência pelo mapeamento dos resíduos históricos de uma invasão. Exibido na abertura do Doclisboa, o novo filme de José Barahona, numa ponte entre Lisboa e o Amazonas, é um estudo de traumas e reinvenções. Nele, o realizador de Estive em Lisboa e Lembrei de Você (2015) faz uma viagem pelo alto Rio Negro, na Amazónia profunda, para cartografar o falar de uma língua imposta aos indígenas pelos antigos colonizadores.

Que Amazónia foi procurar com este filme e de que forma ela se articula com a ideia de nação que o Brasil parece ser hoje?

O Nheengatu e os seus falantes são uma língua e um povo distintos. Este “outro país” é um lugar de modernidade agarrada a marcas de tradição muito fortes, onde as línguas — e não só o Nheengatu, mas também o Baniwa e o Tukano, entre outras — são a marca mais evidente disso mesmo. O cidadão português mais ingénuo, que eu também sou, poderia ir à procura do indígena nu, saltando pelas árvores, caçando e pescando num jardim do Éden da floresta. Esse mundo já não existe. Se existe no Brasil uma tradição histórica, essa tradição só deveria ser a indígena. Mas não é. É também uma tradição histórica europeia, porque a influência da Europa faz-se sentir há mais de quinhentos anos. Essa língua, misturada com outra língua europeia, quem sabe já com marcas africanas dissimuladas, é um reflexo do Brasil de hoje. Ficaram marcas portuguesas, que os portugueses gostam muito de salientar, mas não necessariamente positivas. Essas marcas são o que são. Revelam a força cultural que o Brasil tem hoje, mas também transportam um passado de muito sofrimento, de muito sangue, de uma miscigenação forçada — não pelo lado mais amigável ou romântico dos portugueses com as indígenas, mas pela força bruta da violação. Essas ainda são marcas vivas na região do alto Rio Negro, quando encontramos os muitos descendentes, filhos de várias indígenas espalhadas ao longo do rio, e do mesmo poderoso homem branco do regatão e da borracha. O Nheengatu é também isto: a alma dos seus falantes, os indígenas que habitavam as margens do rio, submetidos a esse estupro físico e cultural, cuja língua foi trocada por outra que o invasor trouxe.

Qual é o lugar do Doclisboa hoje para servir de lançamento a um filme como o seu? E como é que a Mostra de São Paulo se apresenta como uma montra para abrir diálogo com os brasileiros?

Acho que é a terceira vez que um filme meu (O Manuscrito Perdido, em 2010; Alma Clandestina, em 2018; e agora Nheengatu) estreia em datas muito próximas nos dois países, nestes dois festivais. É uma ponte que um dia gostaria de explorar ainda mais: este salto transatlântico do Doclisboa para a Mostra de São Paulo. Quando fiz O Manuscrito, pensava que teria um grande impacto em Portugal, pois filmei povos indígenas a dizerem que “O Brasil não foi descoberto, o Brasil foi invadido” — coisa que ainda hoje não é muito óbvia para todos em Portugal. Talvez por isso o filme tenha sido muito bem recebido no Brasil e tenha passado mais despercebido em Portugal. Não sei como será com o Nheengatu, mas o Doclisboa é a melhor montra que podia pedir em Portugal para iniciar esta “viagem” de divulgação e exibição do filme, ainda mais sendo o filme de abertura. Já a Mostra, até porque este ano decorre online para todo o Brasil, perdendo a magia da sala mas ganhando dimensão continental, é também um espaço privilegiado para exibir o filme.

O que é que o Rio Negro lhe apresentou de mais desafiante e de mais resiliente?

A região do Rio Negro, a zona ribeirinha — que foi a única que conheci, pois é a única para onde se consegue viajar de barco — é muito inóspita para nós, não indígenas. É difícil filmar ali. Embora seja uma zona onde a modernidade já chegou, onde as pessoas vivem como nós, em casas de madeira, com geradores a gasolina para ver televisão à noite e usam roupas compradas na cidade, ao mesmo tempo não existem lojas, hotéis, restaurantes e muito menos rede de telemóvel.

Tivemos de montar toda a nossa infraestrutura num barco que alugámos para fazer o filme, onde dormíamos e cozinhávamos com a comida que levávamos em arcas ligadas a um gerador que funcionava 24 horas por dia. Só assim conseguimos aguentar quatro semanas, a viajar pelas profundezas da floresta no Rio Negro, atravessando a fronteira com a Venezuela e a Colômbia, numa zona de beleza extrema mas com um clima hostil. A humidade, o calor e os mosquitos tornam o quotidiano penoso e difícil. As doenças e os micróbios afetam-nos mais do que podíamos esperar; a malária espreita a cada curva do rio, e as disenterias podem ser fatais de tão intensas. Se, quando o branco chegou, trazia doenças mortais como a gripe para as populações indígenas, hoje somos nós que não temos resistência para viver ali com tranquilidade.

A falta de rede de internet é um sintoma gritante da nossa dependência tecnológica. Toda a equipa, eu incluído, estava habituada a estar em contacto quase permanente com família, amigos e redes sociais. Isso acaba ali de um momento para o outro e, por vezes, damos por nós a olhar para o telemóvel à procura de rede onde sabemos que não existe. É um sintoma. Por outro lado, há a cultura indígena, muito diferente da nossa, que muitas vezes entra em choque connosco e ainda mais com a forma habitual de fazer cinema. A obsessão com a rentabilização do tempo, a pontualidade — tudo isso é relativo naquele lugar, onde o nosso barco partiu da cidade com dois dias de atraso, considerado normal pelos locais.

O valor do dinheiro e da palavra também é complexo. O branco que vem de fora parece ter a imagem de cifrões colada à cabeça. Isso acontece em todo o mundo, mas ali, talvez porque desde o início os brancos chegaram oferecendo coisas, ainda é mais forte esse sentimento: o de que se eles tiraram tanta coisa, agora têm de deixar cá. Tudo o que filmámos foi pago — todas as pessoas e lugares —, por vezes com negociações muito duras e complicadas. É compreensível, mas lidar com tudo isto na feitura de um filme não é simples.

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