Um ano depois de estrear em França e de surgir no circuito de festivais internacionais, “Thalasso” encontrou finalmente espaço nos ecrãs portugueses, via Festa do Cinema Francês.
Repetindo uma parceria que começou num telefilme em 2012 e prosseguiu em “O Rapto de Michel Houellebecq”, Guillaume Nicloux volta a chamar o famoso escritor francês para um projeto, dividindo agora o ecrã com Gérard Depardieu, com quem o “troll” literário já se tinha cruzado em “Saint Amour”, de Benoît Delépine e Gustave Kervern. “Conheço o Michel há muito tempo. Foi no lançamento de um romance que o conheci. Não foi pela obra, mas pela pessoa que me interessei nele. Pela sua sua personalidade e temporalidade estranhas. Quando realizei um telefilme (L’affaire Gordji, histoire d’une cohabitation) para o Canal +, não sei porquê imaginei-o como chefe dos serviços secretos de França, e foi assim que a nossa colaboração começou”, explicou Nicloux ao C7nema em San Sebastián (2019), acrescentando que não lhe interessam particularmente atores ou atrizes. “Amo as personalidades. Claro que quando peço ao Gérard Depardieu ou à Catherine Deneuve para estarem num filme é porque fazem parte da minha cinefilia, porque me impressionaram com todas as suas imagens. E muitas vezes interesso-me por gente que não é ator. Às vezes interessa-me filmá-los por causa das suas personalidades. É isso que acontece com o Michele Houellebecq”.
Inspiração, conteúdo e forma

O cenário deste “Thalasso“ (Nas Termas) é um Spa, um centro de terapia de luxo na zona costeira de Cabourg. Aí, Houellebecq e Depardieu participam num tratamento de talassoterapia. Tudo é tratado num registo documental numa linguagem muito próxima à Reality TV e a dupla de “enfants terribles” perde-se em conversas e parece estar mesmo a ser o que realmente é na perceção para o grande público: “trolls” desbocados que adoram abanar com o sistema.
“As minhas escolhas são muitas vezes espontâneas e instintivas. Em todos os filmes que fiz até hoje abordei-os diferentemente. Por exemplo, a minha abordagem ao “A Religiosa”, baseada na obra de Diderot, ou ao “Les confins du monde” é bastante diferente, até porque este último era um filme de guerra e foi necessário recorrer a muita documentação. O processo de inspiração para estas obras não é como a que tenho para outros filmes, como o “Thalasso“, onde deixo o meu inconsciente falar. Deixo-o sempre em modo automático para não me censurar. É quando as coisas já estão escritas que vejo do que falam, de maneira a ser livre para as retirar ou não. Mas só depois de as ter escrito, não antes. Quero ter o máximo de liberdade e espontaneidade no meu imaginário.”
Quanto à sensação “documental”, tal como em “O Rapto de Michel Houellebecq”, ela é apenas isso mesmo: uma sensação. Tudo, mas absolutamente tudo neste “Thalasso” é ficção e está escrito num guião, não havendo espaço para qualquer tipo de improvisação além do dizer uma outra palavra de forma diferente. “Nada é improvisado. Tudo é escrito. O que me interessa é deixar as pessoas pensarem que tudo é improvisado para ter essa espécie de febrilidade do ‘verité’. Claro que nesse processo há sempre algo que se fabrica no momento e gera uma reação espontânea, pois há coisas que dizia ao Gérard, mas não dizia ao Michel, e vice versa. Essa surpresa vai desestabilizar e eu não me calo durante as filmagens. Estou sempre a dizer: “diz isto”, “diz aquilo”, “diz aqueloutro”. Não dou tempo para os atores refletirem. Filmo com quatro câmaras e é algo que está vivo em permanência. É algo muito fatigante, muito mais que filmar no Vietname” (risos).
A vergonha da França
Numa das cenas mais marcantes de toda a fita, quando as duas figuras controversas estão sentadas a tagarelar sobre tudo e sobre nada neste “Thalasso“, um homem aproxima-se e diz que ambos são uma desgraça e um embaraço para a França.
Quando questionado pelo c7nema sobre esse momento, Nicloux replica: “Quem me dera ser a vergonha da França. É uma bela distinção, pois essa afirmação provoca uma reacção, talvez de raiva ou até rejeição. É um pouco como a raiva. Aquilo que projetamos noutra pessoa é aquilo que sentimos dentro de nós. De certa maneira, o Michel e o Gérard estão orgulhosos de ser um embaraço para a França, pois é uma reação de pessoas que têm na realidade esse embaraço dentro delas e soltam-no cá para fora através deles”.

