Marcelo Gomes: um real de calças jeans, uma ficção desnudada

(Fotos: Divulgação)

Laureado em Cannes há 15 anos com o prêmio anual do Sistema de Educação da França por “Cinema, Aspirinas e Urubus” (2005), o realizador pernambucano Marcelo Gomes abriu o ano às voltas com os sintomas económicos da Covid-19: em março, foi obrigado a interromper as filmagens da longa-metragem “Relato de Um Certo Oriente” por exigência dos protocolos de segurança impostos pela pandemia.

Estava, por sorte, ocupado com a finalização de um outro projeto, “Paloma”, sobre o sonho de uma agricultora trans de se casar na Igreja. É um filme com pinta dos temas que atiçam o apetite da Berlinale, onde Gomes disputou o Urso de Ouro, em 2017, com “Joaquim”. Esteve lá no ano passado também com “Estou Me Guardando Para Quando o Carnaval Chegar”, no qual mapeia a rotina de Toritama, uma cidade de Pernambuco, o seu estado.

O documentário está na Netflix. O seu mapeamento envolve a importância da produção de calças jeans para o povo daquele cantinho do Nordeste, região que se desnuda poeticamente nos filmes que já levaram o cineasta de 56 anos aos festivais de Toronto e de Veneza. Lá, há onze anos, numa parceria com o cearense Karim Aïnouz (o vencedor do prémio Un Certain Regard de 2019, com “A Vida Invisível”), ele arrancou aplausos e lágrimas com “Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo” (2009). A longa-metragem vai servir de farol teórico para a arguição pela qual Gomes vai passar esta noite (às 19h no Brasil; 0h em Portugal) no seminário Na Real_Virtual.

O evento começou no dia 20 de julho com curadoria de Carlos Alberto Mattos e Bebeto Abrantes. Para seguir a conversa de Gomes e saber das pérolas que estão sendo garimpadas nesse simpósio, basta consultar a página do evento. Já deram 150 pessoas (ou mais) na “sala” organizada no Zoom pelo produtores Marcio Blanco e Kerlon Lazzari, da Imaginário Digital, falando com titãs da não ficção como Maria Augusta Ramos, João Moreira Salles, Cao Guimarães, Carlos Nader, Petra Costa, Walter Carvalho, Belisario Franca, Joel Pizzini, Gabriel Mascaro e Rodrigo Siqueira.

Em entrevista ao C7nema, Gomes falou sobre os seus atuais passos nas telas, sobre o atraso na rodagem do seu trabalho mais recente e fez um balanço de sua estética, sempre atravessada por uma percepção da solidão.


O seu cinema documental (me) passa sempre uma sensação de solidão na multidão, de corpos vulnerabilizados pelo excesso de gentes. Qual é o lugar consciente da solidão na sua estética do real?

Acho que esse elemento de solidão vem de um processo de criação quase inconsciente. Afinal, o artista é consciente e inconsciente. Um dia, alguém me perguntou o motivo dos meus personagens serem todos solitários. Eu confesso que nunca tinha me inteirado disso e eles são, todos são. É curioso você falar dessa ideia de multidão e de solidão, porque no “Viajo Porque Preciso, Volto Porque te Amo”, em dois momentos, a personagem está solitária na estrada e decide, uma hora, ir para a cidade dos Romeiros, para se envolver com muita gente, e outra vez, para a Feira de Caruaru, para novamente, simetrizar com essa gente e, ali, diluir essa solidão que ele não aguenta mais. Vendo em retrospectiva todos os meus trabalhos, essa solidão parte de um processo de autoconhecimento. Nada é melhor que estar sozinho para refletir sobre você mesmo. Ao mesmo tempo, é uma solidão às vezes tão grande que deixa os personagens sufocados. É assim com a protagonista de “Era Uma Vez Eu, Verônica”, é assim com os viajantes de “Cinema, Aspirinas e Urubus”, é assim com o Zé Renato de “Viajo Porque Preciso, Volto Porque te Amo”. Entendendo que cada decisão, cada rumo, cada palavra a dizer, depende apenas de você, a solidão é transformadora e vai te ensinar. Ao mesmo tempo, ela pode ser demais, a ponto de te deprimir. Esses personagens vivem em uma solidão à procura de multidão e, também, se afastam da multidão para se isolar e refletir sobre si mesmo. Acho que o homem é a síntese dessa reflexão.

A sua longa-metragem mais recente, exibida na Berlinale de 2019, foi “Estou me guardando para quando o carnaval chegar”. Esse .doc usa um pedaço de tecido, os jeans, como metonímia de uma cidade e de um processo de trabalho. Na imersão naquele pano afetivo de gentes, o que você descobriu sobre a dinâmica das lutas de classes naquele lugar? Como a dinâmica pesa em sua narrativa: o quanto a dialética daquele mundo se manifesta como dramaturgia para você?

Ali, havia uma câmara próxima aos personagens, deixando-os livres para falarem o que quisessem. Queria que fosse uma câmara para compartilhar confidências, não uma desculpa para invadir a privacidade das pessoas e denunciar elementos da vida delas. Eu queria que fosse uma câmara afetiva, que compartilhasse essas confidencias, a partir de conversas íntimas e não de entrevistas formais. Por isso que as entrevistas sempre parecem conversas em locais de trabalho das pessoas. A ideia era apresentar um lugar singular, a partir de experiências de personagens também singulares.

Que Brasil cabe ali em Toritama e o quanto cabe de Toritama no Brasil?

Acho que, nesse filme, quis refletir sobre a nossa própria relação com o trabalho, com o consumo e o que fazemos com o tempo nas nossas vidas. Essa lógica atual em que você é um ser não do “dever fazer”, mas do “poder fazer”. Vejo a cidade como uma ponte entre o passado e o futuro, ou seja, uma cidade que imaginei ver algo como a Inglaterra na Revolução Industrial. Ali, comecei a ver uma ponta do capitalismo, do neoliberalismo que está chegando em todos nós. Essa ideia do ser autónomo. Esse projeto neoliberal que desejam implantar em todo o país. Acabou-se com as leis trabalhistas, elas foram extirpadas. Direitos históricos dos trabalhadores se acabaram e com isso, surge a ideia de ser autónomo. Acho que, no futuro, a gente vai viver uma realidade muito parecida com Toritama. A cidade é um microcosmo do Brasil. Então, vamos estar aparentemente livres, podendo usar o tempo como quisermos, mas sendo induzidos pelo consumo e pelo desejo de ganhar mais, a viver em uma espécie de autoescravização. Essa falácia da autonomia num sistema de desejos induzidos pelo consumo. Nós todos vamos seguir o lema dos neoliberais dos anos 80, a Margaret Thatcher e o Ronald Reagan, que diziam que a ganância é boa. Toritama é a cidade do futuro. É muito trágico que o Brasil esteja caminhando para se tornar uma Toritama, sem essas leis trabalhistas e só o desejo de sobreviver que emana.

Que novos sentidos a narrativa documental assumiu com a explosão das plataformas digitais?
O que é importante nessas plataformas é que milhões de pessoas têm acesso aos meus filmes. O ‘Estou Me Guardando…’, quando chegou na Netflix, teve um público enorme e até os moradores da cidade onde filmei, Toritama, tiveram a oportunidade de assistirem ao filme. Foi maravilhoso, eles se viram pela primeira vez em uma plataforma. Acho que o filme teve um público mais amplo e provocou inúmeros debates.

A sua obra documental teve visibilidade em alguns dos maiores festivais do mundo e ganhou circuitos físicos. Mas e hoje? O que um streaming conta pro seu cinema? Como a linguagem (física) que nasce da recepção do streaming interfere na sua forma de produzir/criar um filme?

Acho que se você escolhe o cinema como a sua forma de expressão – para revelar um universo, uma história, um personagem -, nenhuma plataforma pode interferir na forma que você vai narrar essa trama. Você não pode pensar em como vai decupar uma cena ou uma sequência dependendo se aquela pessoa vai receber a informação numa tela de cinema ou num celular [telemóvel]. Eu sempre penso que a pessoa vai receber o filme numa tela de cinema. Construo a visualidade da sequência pensando que esse alguém não vai assistir ao filme no celular e sim em uma tela grande. Não vou mudar uma forma de narrar visualmente uma sequência por conta do aparato de recepção. Acho que isso pode tolher um pouco a minha criatividade. Eu digo-se que o cinema é a minha forma de comunicação artística, então acho que devo ser fiel a ela. Acho mais sensato ser fiel ao cinema. Dito isso, penso que as condições de cinema são ideais para receber o produto cultural que estou criando, porque você verá o filme com todos os detalhes, o som perfeito, a imagem perfeita. Na telona você pode captar as nuances da luz e de interpretação. Mas vejo que em outra plataforma o espectador também vai compreender o total da história, perdendo apenas algo: a experiência de absorver a essência maior dentro de uma sala de cinema. Afinal, fiz um filme pensando em emocionar os espectadores de uma forma ou de outra, seja na tela pequena ou na grande. Nunca pensei em adequar meus filmes a plataformas, seja que financie ou que compre meu filme. Acho que o cinema já passou pela chegada da televisão e não morreu, pelo contrário, ele expandiu-se em termos de linguagem. Acho que vai passar por essas plataformas e vai acontecer a mesma coisa.

O que o processo de “Joaquim”, uma imersão sua no passado, à la Game of Thrones, trouxe pras suas narrativas documentais?


O que faço quando dirijo um documentário é emprestar das cenas de ficção o rigor da elaboração… da elaboração de uma coreografia cinematográfica, de uma imagem visual consistente e necessária. Trago todo esse rigor, mas, ao mesmo tempo, deixo que o acaso contamine o ambiente fílmico. No documentário, a gente é mais livre para deixar o deus Acaso dominar tudo. A gente tem um roteiro, às vezes, mas ele pode ser diluído a partir dos desejos dos personagens e do diretor que muda a todo tempo. Tem aquela frase do Orson Welles que diz: “Na ficção, o diretor é Deus e no documentário, Deus é o diretor”. Acho que é muito válido isso. Um filme de época, como ‘Joaquim’, tende a ser preso às convenções de figurino, à direção de arte e, até mesmo, à tendência ao classicismo. Acho que iria fazer um filme de época onde a câmara é viva, porosa, transpira, segue os personagens, próxima a de um registo documental. Ou seja, a ficção se alimenta do documentário, e vice-versa.

Quais são os projetos que você tem pela frente na seara documental e na seara da ficção? O que temos pra este ano?

Estou finalizando “Paloma”, um longa de ficção. Paloma é uma mulher trans, agricultora e, com ela, lá volto eu para o sertão de Pernambuco. Ela tem um desejo de se casar, um dia, na igreja e o que deveria ser uma cerimónia para firmar laços amorosos, tem consequências desastrosas. Além disso, tive que parar as filmagens do longa “Relato de Um Certo Oriente”, baseado em um livro do Milton Hatoum, sobre a colonização libanesa na Amazónia. A gente preparou o filme em janeiro e fevereiro, e as filmagens começaram em meados de março, em Belém do Pará. No quarto dia de filmagem, precisamos suspender por conta da pandemia. O que causou um grande prejuízo no nosso orçamento e agora vamos precisar ir atrás de apoios financeiros e parceiros para voltar as filmagens de um tema extremamente atual, a Amazónia, o Líbano e o Brasil.

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