Michel Ocelot: “Há mais mulheres mortas no dia a dia que os mortos numa guerra”

(Fotos: Divulgação)

Esguio, sorridente e de mochila às costas como um verdadeiro turista, foi assim que encontramos Michel Ocelot, na passada primavera, em pleno Cinema São Jorge, onde estava a decorrer a Monstra – Festival de Animação de Lisboa.

O motivo da sua passagem por Portugal era a exibição de Dilili em Paris, o último trabalho de um cineasta de animação que conta nos créditos com a trilogia KirikouPríncipes e princesas, entre tantas obras do género que marcaram o cinema francês e mundial.

Ainda não vi nenhum filme“, disse-nos entre sorrisos, explicando que preferiu andar a passear por Lisboa, cidade que o fascina, não só por ter muitas construções do século XVIII, que adora, mas igualmente por trabalhos de art déco e arte nova. “Também fui ver um edifício dos anos 40/50, um belíssimo cinema que agora é uma igreja americana“, diz-nos. Naturalmente, referia-se ao Cinema Império e é por aí que começa a nossa conversa absorvente.

Explicamos a Ocelot que não se trata de um culto norte-americano, mas com origem no Brasil, na figura do Pastor Edir Macedo, e que a igreja que ele fala é a Universal do Reino de Deus (IURD). “E eles têm dinheiro para isso?“, questiona-nos, descobrindo que sim, que para além desse espaço, o culto é dono de muitos outros, tem até um canal de televisão e produziu dois filmes (Nada a perder) em torno do seu pastor. Ocelot desconfia e insiste que tem de ser uma igreja norte-americana, ou pelo menos com um toque de capital por trás, dando-nos o exemplo de Montevideo, no Uruguai, onde as grandes avenidas estão cheias de igrejas similares. Seja como fôr, o realizador já tinha estado no Cinema Império e lembrava-se do “esplêndido” restaurante  que ainda lá se encontra. Outro espaço lisboeta que o marcou nesta visita a Lisboa foi o Palácio da Marquês da Fronteira, um local “maravilhoso“.

De Lisboa para Paris

Em Dilili em Paris seguimos uma menina educada e inquisitiva que chega pela primeira vez até nós como figura de uma exposição “viva” com o tema colonial sobre o povo da Nova Caledónia. Ela faz amizade com Orel, um rapaz e, juntos, com a ajuda da soprano Emma Calvé, partem numa investigação a uma série de sequestros executados por uma seita misteriosa com a denominação misógina de os Mestres-Homens (Mâles-Maître).

Os meus filmes passam-se sempre em todo o lado, menos no meu país. Escolhi a Paris da Belle Époque pois foi o último período em que as mulheres usavam belos vestidos e chapéus. Imaginar a Sarah Bernhardt de calções, não me agrada. (risos) Foi uma época de ouro em que muitos jovens floresceram. Foi uma era de avanços em todas as áreas, humanas, técnicas, morais, artísticas. Foi também, pelo menos em França, a era em que as mulheres realmente se emancipam. É a época da primeira mulher numa universidade, a primeira professora numa faculdade, a primeira taxista, a primeira médica, a primeira advogada. Era uma era onde se quebraram barreiras.”, explicou-nos o cineasta sobre a sua escolha da época e local para a ação.

No filme, a pequena Dilili cruza-se com imensas personalidades da época, como Louis Pasteur, Marie Curie, Picasso, Proust, Toulouse-Lautrec, na sua cruzada feminista contra uma entidade de vilões que está desagradada com os novos tempos e com a emancipação feminina. As jovens raptadas por eles são rebaixadas, obrigadas a andarem a quatro patas e servirem de apoio – como mobiliário – para os homens se sentarem. “O mal que se faz às mulheres está em todo o lado, a violência está em todo o mundo. Há países em que as mulheres são piores que tudo. Esse foi o ponto de partida para o filme“, explicou Ocelot, acrescentando: “A estupidez e a malícia revoltam-me. Prefiro que me chamem humano a feminista [apesar de o ser]. Se uma mulher torturar um homem, não estou do lado dela. Mas há mais mulheres mortas no dia a dia que os mortos numa guerra. A guerra é secundária para aquilo que os homens fazem às mulheres. A guerra, os atentados, etc, tudo secundário.

Uma regressão histórica na condição da mulher

O cineasta vai mais longe e diz que vivemos tempos de regressão em relação ao passado, especialmente na condição da mulher. “Em Paris há mulheres de véu, isso é inimaginável no país de Sarah Bernardt, de Marie Curie e Joana D’Arc. Falamos de espaços, como as piscinas, em que homens e mulheres estão separados. Tudo aquilo que nos batemos, reverteu-se. Acho que há mesmo um recuo da condição feminina no mundo inteiro (…) Veja-se o caso Weinstein, e todos dizem por causa disso que os homens são uns bastardos. Mas isso é apenas um pequeno caso, é Hollywood. Fora disso é muito mais grave. O #MeToo é bom para quebrar novamente as barreiras. É preciso que as mulheres digam todos os horrores que sofreram e sofrem“.

Autocensura nos tempos que correm 

Semanas antes da entrevista, Pedro Almodóvar tinha dito que vivíamos tempos em que o politicamente correto estava a fazer com que certos autores, como ele, tivessem em si mecanismos de autocensura. Ocelot lamenta as palavras de Almodóvar, considerando muito grave que alguém como o espanhol seja obrigado a isso, acabando por descrever o termo “politicamente correto” como ser um cobarde e um hipócrita.

Mas ele próprio dá um exemplo de “autocensura“, mas noutro ponto de vista. Na tal cena em que os Mestres-Homens usam as mulheres como mobiliário, o realizador diz que o texto que originalmente escreveu era ainda mais duro e trágico, mas que mudou-o porque desejava que os mais pequenos pudessem assistir ao filme: “Fiz uma autocensura nessa cena. O que escrevi era bem mais duro. Não queria mostrar a humilhação das mulheres durante muito tempo, até porque faço filmes para todo o público e não queria mostrar às meninas a humilhação que estas mulheres sofrem durante demasiado tempo. Censurei-me, mas não pelo que as pessoas iam dizer da cena, mas por causa das crianças“.

Um projeto difícil de avançar

Inicialmente, a produção do filme foi de todo rejeitada e o financiamento comprometido: “Recebi muitas cartas de produtores a dizerem que o meu filme não era bom, que o projeto não prestava. Quando vi isso, percebi que ele era bom. Por isso trabalhei no texto, estudei aquela época sensacional, tirei fotos por toda a Paris, para trabalhar na direção artística. Aos poucos, a situação desbloqueou-se, mas teria sido melhor ter mais dinheiro para fazer o filme.

Depois de avançar, foi ainda necessário um reparo aqui e ali, mas sem grande impacto no tema. Veja-se por exemplo nos EUA, onde uma cena teria de ser cortada. Como era algo irrelevante, o cineasta acedeu: “Nos créditos iniciais, em que se vê uma senhora Kanak a cozinhar com os seios à mostra. Fizemos uma versão para todo o mundo e uma para os americanos. Era algo irrelevante“.

Uma sequela?

Com o Kirikou sempre disse que não, mas fiz três. Nesse caso, não foi pelo sucesso, foi pelo amor que fiz os 3 filmes. Foram as pessoas que me pediram, os africanos que me disseram: “fizeste-nos bem, não tens o direito de parar”. Continuam-me a pedir mais filmes Kirikou, mas à partida não farei mais. Já me pediram do Azur et Asmar, do Dilili, e  – neste caso – há mais hipóteses do que no Kirikou. A rapariga é muito jovem  e podemos acompanhá-la maior, apaixonada. Se se passarem 10 anos ou isso da história, entramos na década 20 ou 30, e isso é apaixonante, pois ainda é melhor que a Belle Époque. É uma era inventiva, prazerosa, colorida. Mas não tenho ainda uma história para isso.

De Björk a Àgnes Varda – divertidos fait divers

Com várias décadas de carreira no cinema, a vida e o trabalho de Michel Ocelot já se cruzou com diversas personalidades. Nessas histórias e estórias, pedimos a ele para nos falar de duas: a sua colaboração com Björk no videoclipe Earth Intruders; e o facto de ter tido como madrinha a cineasta Agnès Varda, quando foi ordenado Cavaleiro da Ordem Nacional da Legião de Honra em 2009.

Sobre a colaboração com cantora e compositora islandesa, Ocelot explica que inicialmente pensou que fosse uma partida de alguém que o conhecia e só acreditou quando a islandesa lhe bateu à porta: “Recebi um email a perguntar se queria trabalhar e encontrar-me com a Björk. Disse que sim, mas achei que era uma partida de alguém. Um dia abri a porta e estava lá a Björk. Gostei muito de trabalhar com ela e até posso contar uma piada sobre essa colaboração. No primeiro dia de trabalho, uma grande figura da composição musical para cinema, o Gabriel Yared, vem até mim e diz: ‘tenho de o prevenir que as imagens e o cinema não me interessam’. Eu respondi: ‘ótimo, mas tenho de preveni-lo que o som que mais aprecio é o do silêncio’. Correu lindamente a colaboração. (risos) Normalmente, depois do trabalho, refugio-me no silêncio. Não tenho a alma de músico, não vou a concertos. “

Já sobre Agnés Varda, que faleceu recentemente, a história que o realizador nos conta não fica atrás em graça: “É o futuro legionário que escolhe o seu padrinho e foi ela que escolhi, pois achava-a muito interessante. Fiz uma cerimónia super simples, de manhã porque de tarde estava a trabalhar e tinha um novo projeto para lançar. Pedi a todos para virem de manhã, e na cerimónia havia café com leite e viennoiseries. Ela quando viu a receção disse-me: “não podias ter um pouco de champanhe?” (risos). E quando começou a cerimónia, eu ia-a apresenta-la e ela mandou-me calar: “Sou eu que falo e te apresento, ‘pá’”. Foi muito divertido (risos) “

Novos projetos

Tenho três projetos e estou a pensar fazer dois ao mesmo tempo. Vão demorar pelo menos dois anos e vou usar uma técnica de animação mais humilde, mais rápida de executar. Uma espécie de técnica com recortes de silhuetas de papel (em que Ocelot já trabalhou), mas digitalmente. O meu próximo filme oficialmente será um mau produto comercial, pois é composto por uma curta-metragem e duas médias metragens. Mas quero um lançamento no cinema. Sempre fiz na vida tudo o que quis. Todos os meus filmes, fui eu que os decidi fazer e, neste caso, acho que uma longa-metragem seria demasiado. Penso que funciona melhor como média metragem. .

Logo após o Dilili, o meu cérebro pensou em fazer imediatamente outra coisa e escrevi duas histórias, mais felizes e menos sérias e duras que este filme. [Os próximos projetos] Serão algo ligeiros, um pouco século XVIII, um pouco 1001 noites; uma parte em silhuetas negras e outra com o triunfo da cor“.

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