Susanna Lira devassa os porões da ditadura brasileira em “Torre das Donzelas”

Vitaminado pelo fenómeno de bilheteira de Bacurau (visto por 340 mil pagantes em 16 dias), mas ainda abalado por conflitos políticos da gestão Bolsonaro, o Cinema Brasileiro recebe este fim de semana o que promete ser seu documentário de maior sucesso (e de maior polémica) do ano: Torre das Donzelas.

Laureada com o troféu Redentor de Melhor Direção do Festival do Rio 2018 por este ensaio memorialístico sobre a ditadura brasileira, cercado de elogios em várias línguas, a realizadora Susanna Lira virou um sinônimo raro de “quantidade = qualidade” nas telas do Brasil. A prolífica produção de longas e séries da diretora de Damas do Samba e de Mussum: Um filme do cacildis trilha uma progressão crescente (e surpreendente) de excelência. Vencedor do Prémio Especial do Júri do Festival de Brasília, Torre… é um comovente registro do reencontro de ex-presioneiras políticas, entre elas a ex-presidente Dilma Rousseff. Na entrevista a seguir, ao C7nema, Susanna revela o que inquieta o seu olhar.

Qual é o conceito de feminino que perpassa Torre das Donzelas e que Brasil está sintetizado ali, naquela narrativa?

Embora aborde um período passado da nossa história, o .doc Torre das Donzelas fala muito sobre o Brasil de hoje, onde, novamente, vemos nossa democracia ameaçada e que temos que voltar a resistir. O conceito que perpassa o filme é a sororidade, algo de que falamos muito atualmente, mas que precisamos aprender a exercer na prática. O espaço da Torre foi um lugar de forte compartilhamento e acolhimento entre as mulheres.

O que foi essa tal Torre e onde ficava?

A Torre das donzelas foi o conjunto de celas femininas do lendário Presídio Tiradentes em São Paulo. A torre abrigou presas políticas do final de 1969 até 1973. O presídio foi demolido na década de 1980.

Como foi construído o jogo de armar entre memória e vivência, passado e presente desta viagem aos porões da ditadura?

A produção do filme, entre pesquisa e lançamento, durou sete anos e durante todo esse período três referências cinematográficas permearam a construção narrativa: Dogville, do Lars Von Trier, Cesar Deve Morrer, dos Irmãos Taviani e Imagem que Falta do Rith Pahn.

Existe uma linha narrativa consciente que unifica a sua investigação documental? Qual é a questão central da sua busca como documentarista?

A questão central da minha busca como documentarista hoje é confrontar meu próprio processo de criação. E quero me desafiar sempre, pois o lugar do conforto não é o meu lugar. Além de ir fundo nos temas que me inquietam, eu tenho perseguido a renovação de linguagem.

Onde a ficção entra na sua obra?

A ficção sempre foi fonte de pesquisa para meus documentários. Recentemente, eu me tornei uma ficcionista e gostei muito da experiência. Escrever e dirigir ficção é um desafio muito enriquecedor. Mas tudo que escrevo em ficção vem da minha pesquisa e vivência com o documentarista. Estou escrevendo agora a minha terceira série de ficção e tudo que coloco no roteiro são histórias que vi na realidade.

Quais são seus próximos projetos?

Tenho séries de ficção a caminho e meu próximo documentário é sobre o Casagrande, ex-jogador e comentador de futebol. Preciso ainda captar recursos para a realização. Quero ousar bastante da linguagem desse .doc e o Casagrande é muito inspirador. Vai ter muito sexo, drogas e rock and roll.

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