E do que falamos quando falamos de sexo? A pergunta recebe um significado especial quando abordam as três horas de A Vida de Adèle: Capítulos 1 e 2, o magnífico filme do franco-tunisino Abdellatif Kechiche (passou pelo Lisbon & Estoril Film Festival), adaptado da novela gráfica de Julie Maroh, premiado em Cannes com a Palma de Ouro em Cannes e um dos mais fortes candidatos a filme europeu do ano.
Ainda perturbados pelo efeito magnético do filme, falámos com a atriz revelação do festival, a alegre, descontraída e surpreendentemente madura Adèle Exarchopoulos.
Esta foi seguramente uma experiência marcante. O que representa para si este filme?
Sim, esta experiência marcou-me enormemente. Acho que representará a liberdade, a tolerância. É a história de amor de uma mulher que descobre a sua sexualidade e que a quer partilhar. Nesse sentido, é muito filme muito carnal.
Até que ponto mudou a sua vida enquanto mulher e atriz?
Não sei se me mudou, mas permitiu-me evoluir e absorver todas as emoções. Seguir esta história de amor permitiu-me crescer e melhorar.
O filme tem cenas de sexo lésbico muito fortes. O que lhe pediu o realizador para que se sentisse à vontade?
Eu sabia que era uma história que teria sexo entre mulheres. Por isso, quanto ao sexo já estava preparada (risos). O Abdellatif apenas pediu para sermos nós próprias e não apenas uma personagem. Depois de tantas horas de improvisação com muita intimidade, sexo e até alguma violência, já estrava preparada para tudo.
Estava mesmo preparada?
Pode ser estranho, mas estava. Apesar de não saber que seria tão intenso.
Foi uma experiência que alterou a forma como encara a sexualidade?
Não, porque para mim o sexo é uma forma de liberdade. Durante essas cenas, apenas damos aquilo que queremos dar. Em todo o caso, verifiquei que era difícil assumir a nossa relação na rua, se nos beijávamos durante uma cena no metro ou quando nos despedíamos à porta de casa. Sentíamos que estávamos a provocar uma reação. Com o decorrer do tempo já não tinha qualquer complexo em estar em bares gay e fazer militância pelas causas homossexuais. Não é um mundo novo, mas percebo que eles têm de se defender.
Como encara toda esta controvérsia em redor dos casamentos entre pessoas do mesmo sexo?
Acho que o problema mudou. Não é esse seguramente o problema no mundo. Penso que temos de parar de julgar a forma como as pessoas decidem fazer sexo. Há na vida problemas muito mais importantes.
É curioso que tenha essa opinião, pois é ainda muito jovem. É por ser uma pessoa bastante madura ou fez parte da sua educação?
Bom, os meus pais são pessoas bastante esclarecidas, muito comunicativos. Sempre me deixaram ver aquilo que queria e ter a minha própria opinião. Apenas discutíamos as nossas ideias. Por outro lado, sempre passei muito tempo com pessoas mais velhas do que eu.
Os seus pais estavam de acordo com as cenas de sexo que teve de fazer no filme?
Estavam porque me deram a liberdade de fazer o que me deixava feliz. Sempre tive uma relação muito ‘cool’ com a minha família. E fiquei muito contente quando vi que o meu pai aplaudiu o filme.
Os seus pais não estão envolvidos na vida artística?
Não. O meu pai tem vários trabalhos, mas nada relacionado com a arte. E a minha mãe é enfermeira. E tenho dois irmãos. Que agora também querem ser atores… (risos).
Este filme levou vários meses a filmar, mas ao longo desse processo como foi que o realizador desenvolveu as vossas personagens?
Foi durante a rodagem. Andávamos sempre juntos. Habituámos-nos a estar nuas perto uma da outra, a fazer cenas de sedução. Foi algo muito solidário. Acho que não poderia ter feito o filme sem a Léa.
Sentiu que durante o filme poderia estar a ir longe demais nessa exploração sexual?
Por vezes, sim. Cheguei a perguntar a mim própria se não estaria a dar demasiado de mim própria, a ser demasiado livre, já que estava a dar a minha pele, o meu pudor, a minha intimidade… Mas acho que o filme merecia isso. O Abdellatif também idealizou um filme em que daríamos tudo.
E acha que deu mesmo tudo o que tinha para dar?
Não sei. Tentei dar tudo o que tinha. O resultado está no filme e para os espetadores decidirem.
A ideia era seguir o original da banda desenhada ou assumir uma adaptação livre?
À medida que íamos avançando mais nos distanciávamos do original. O Abdell tira coisas que são apenas de nós próprias e que só nós sabemos.
É verdade que nem sempre sabia quando as câmaras estavam a filmar?
Sim, é correto. Por exemplo, uma vez quando íamos todos de viagem de comboio acordo e percebo que me estão a filmar. O que o Abdell me dizia era para me esquecer da câmara e fazer a minha vida normal. Por vezes, ele escolhia pessoas da rua para participarem na rodagem connosco, para serem figurantes ou em pequenos papéis. Eu própria cheguei a fazer o som no filme… (risos)
Como foi que começou a sua carreira de atriz?
Foi por acaso. Eu estava num grupo de teatro e uma amiga perguntou-me se queria ir a um casting. Eu tinha apenas 12 anos, depois vieram outras sugestões e fui seguindo. Foi uma espécie de jogo, porque eu não sabia exatamente o que queria.
Para além do lado mais erótico da sua personagem, há um lado completamente diferente, em que faz de educadora de infância. Como foi para si essa transição?
Para mim foi um desafio ficar diante de uma dúzia de crianças que eu não conhecia e conquistar a sua atenção. Mas depois de passarmos muito tempo juntos já havia essa familiaridade.
Sente que em França os adolescentes encaram o sexo dessa forma tão aberta como vemos no filme?
De certa forma, acho que existe essa libertação. Sobretudo aos amigos mais chegados a quem contamos todos os detalhes das nossa aventuras amorosas.
E no seu caso, o filme fê-la encarar o sexo no cinema de uma forma diferente?
Cada realizador tem a sua forma particular de filmar o amor e o sexo. Por exemplo, nos Estados Unidos sabemos que mostrar armas é algo normal e menos as cenas com alguma nudez. Vamos ver como o filme irá ser lá exibido…
Que idade tem a Adèle agora?
19 anos.
Isso significa que teria uns 18 anos quando fez o filme, não?
Sim, tinha 18 anos.
E continua a ir à escola?
Não, deixei a escola. Não era a melhor aluna, contentava-me em ser uma aluna mediana.
Depois de vermos este filme, tornou-se obrigatório falar de prémios. Como encara esta expectativa com todo a emoção em redor do filme?
É algo incrível. Mas para mim, poder estar aqui a falar do filme já é algo fantástico. Ainda não tive oportunidade de pensar muito nisso. Mas todos os prémios serão obviamente bem vindos…

