Entrevista a John Michael McDonagh, o realizador de «O Guarda»

(Fotos: Divulgação)
(Entrevista originalmente publicada durante o Festival de Sundance de 2011)

Descrito pelo argumentista e realizador John Michael McDonagh como “um grande filme sobre um grande homem com grandes gargalhadas e um coração enorme”, The Guard é um thriller com tons cómicos passado na costa irlandesa protagonizado por Brendan Gleeson como um policia pouco ortodoxo,  e com especial apetência para prostitutas, que se junta a um agente do FBI, protagonizado por Don Cheadle (‘Hotel Rwanda’, ‘Ocean’s Eleven’), para investigar uma transação gigantesca de estupefacientes.Mais de dois anos depois de estrear a 20 de janeiro de 2011 no Festival de Sundance, The Guard chega finalmente às nossas salas. O c7nema teve a oportunidade de falar com John Michael McDonagh [por alturas do Festival de Sundance] que nos confidenciou alguns detalhes sobre a produção do filme, da razão porque demorou tantos anos a voltar ao cinema após escrever o argumento de Ned Kelly e até brincou com o seu futuro:

 
A IMDB afirma que o seu último trabalho no cinema foi o argumento de Ned Kelly. Isso foi há oito anos atrás. Qual foi a principal razão para o hiato de oito anos entre trabalhar nesse filme e The Guard chegar ao cinema?
Não consegui que os meus argumentos passassem a filmes. A maioria dos produtores no Reino Unido e na Irlanda estão empenhados em lançar filmes maus no mercado, ano após ano. Eles também gostam de trabalhar com argumentistas que possam controlar. Se não queres fazer filmes maus, e não queres ser controlado, então não fazes filmes. Foi o que me aconteceu.
Onde nasceu a ideia para The Guard?Há alguns anos atrás eu escrevi uma curta chamada The Second Death, que é protagonizada por muitos dos atores de The Guard. Havia um pequeno papel secundário, um polícia misantropo, que mais tarde percebi que podia protagonizar um filme se eu tivesse um guião. Em 2008 a policia capturou um iate com 500 mil milhões de cocaína a bordo na costa da Irlanda. E assim, eu já tinha a minha personagem e a minha história.

Qual a diferença entre este filme e os filmes normais entre policias que se dão mal, e depois bem? Porque devemos nós ver este filme?Não há uma relação directa entre esse género e The Guard. Esse género é normalmente lixo. “The Guard” não é lixo. Tem uma melancolia dos anos 70 nele. É um filme anti-estabelecido, anti-PC. Mas não têm de o ver se não quiserem [risos]. Ninguém vos aponta uma arma. Vão antes ler um livro. O 2666 do Roberto Bolano é bom.

Que filmes gosta e que cineastas o inspiram mais?

Gosto de cinema americano de 1967 a 1976, de cinema sul-coreano, e da nova vaga australiana. Sou inspirado por Preston Sturges, Takeshi Kitano, Michelangelo Antonioni, Barbara Loden, Charles Laughton, James William Guercio e Luigi Bazzoni.

Como foi trabalhar com Brendan Gleeson, Don Cheadle e Liam Cunningham, que já tinha trabalhado consigo na sua estreia?
O nível das interpretações em The Guard é uma das coisas que o distância da maioria do cinema mais comercial. O elenco é tão talentoso que sabia que The Guard sairia um bom filme.
O Brandon e o Don têm dois estilos de atuar diferentes que se complementam tremendamente bem. Ambos têm um grande sentido de humor, o que foi também muito importante. O Liam é um óptimo actor, especialmente no uso das mãos. Eu diria que é o melhor ator europeu, senão mundial. O Mark Strong e o David Wilmot, no papel de vilões, são muito fortes, com grande sentido de timing e complementaram o Liam de maneira perfeita. Queria ainda mencionar o Michael Lane, um jovem ator irlandês descoberto nesta obra e sem qualquer experiência anterior. Queria juntar uma companhia de atores similares aos de Sturges e John Ford, e acho que fui bem sucedido.Acha que Sundance e Berlim são importantes para o filme chegar ao mercado?

Definitivamente. Sundance é particularmente importante para as vendas nos EUA. A Berlinale é importante para introduzir o filme na Europa, sugerindo que ele enquadra atributos comerciais e artísticos em si.

Acha que o público e os críticos vão gostar do filme? Interessa-lhe a opinião da crítica?

Sim e sim. Algumas pessoas sentem-se ofendidas, mas é bem feito. Algumas pessoas merecem ser ofendidas.Onde te vês daqui a 10 anos? Tens outros projetos em mente?

Estarei reformado daqui a 10 anos, depois de fazer mais três ou quatro filmes. Tenho outro projeto em desenvolvimento com o Brendan Gleeson chamado Calvary, e espero ainda conseguir realizar um road movie existencial baseado numa obra de Georges Simenon. Depois, provavelmente vou viver para a Austrália com a minha terceira mulher, uma ex-atriz pornográfica, e educar as minhas duas crianças fantásticas: Babs e Willie…
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