Veneza 2026: Jérôme Pierrat filma o crime por dentro em “La Moula”

Com verdadeiros ex-criminosos e antigos polícias diante da câmara, Jérôme Pierrat explica ao C7nema como 25 anos de jornalismo de investigação deram origem a La Moula e fala do futuro de uma profissão que encara com pessimismo.

Com quase três décadas dedicadas ao jornalismo de investigação e em particular o crime organizado e o banditismo, com vários artigos e livros publicados sobre a matéria, Jérôme Pierrat decidiu transformar essa experiência em ficção, estreando-se na realização com La Moula, mockumentary que acaba de estrear na secção Orizzonti do Festival de Veneza.

Nele seguimos um jornalista especializado em crime organizado que se aproxima de um grupo de traficantes que prepara uma operação de grande escala. À medida que acompanha os criminosos por dentro, a reportagem começa a confundir-se com a própria ação, colocando em causa os limites entre observação, cumplicidade e ética jornalística. 

Cruzando os códigos do filme de gangsters com a linguagem do documentário jornalístico, colocando diante da câmara verdadeiros ex-criminosos e antigos polícias, e interpretando ele próprio uma versão de si, Pierrat falou ao C7nema sobre o impulso que o levou do jornalismo ao cinema, a atração contraditória que o público sente pelo mundo do crime, os limites éticos da reportagem, e o trabalho com pessoas vindas diretamente do universo que retrata. E falou ainda sobre o futuro do jornalismo de investigação, que encara com pessimismo. 

Jean Ruimi em La Moula (© Iconoclast, 2026).

Começou como jornalista de investigação. Porque decidiu avançar para o cinema e para a ficção?

Tinha uma frustração. Paralelamente às minhas reportagens, fazia algum trabalho de argumento, porque havia realizadores e argumentistas que me pediam pequenas consultorias. Foi assim que comecei a interessar-me pela ficção e pela escrita de argumentos.

Mas continuava a sentir uma grande frustração nos documentários: conseguia mostrar apenas uma pequena parte do trabalho. O resultado final nunca revelava tudo aquilo que tinha sido necessário fazer, todo o esforço e toda a aventura que existiam por trás da reportagem.

Foi isso que coloquei neste filme. E há aqui um paradoxo: para me aproximar da verdade do trabalho de jornalista, tive de passar pela ficção. Só a ficção me permitia mostrar os bastidores, o making of da reportagem, mas também a humanidade e a psicologia das pessoas.

É também por isso que decidiu trabalhar com antigos criminosos e polícias reais? Interessava-lhe mostrar uma dimensão humana que normalmente fica de fora das reportagens?

Sim. Mesmo nos documentários, muitas vezes não há espaço para mostrar essas dimensões. Há espaço para os factos, para aquilo que fizeram enquanto criminosos, mas nunca para mostrar que fazem bolos, aquilo que fazem no dia a dia, aquilo que sentem, as alegrias, as tristezas, os medos.

Isso sempre me irritou. Na vida real, eles estão escondidos e eu não posso revelar demasiado sobre a personalidade deles, porque estaria a dar pistas sobre quem são. Acabo, portanto, por ter um homem de balaclava a explicar como trafica droga, sem sabermos realmente quem é. E eu quero saber quem é o homem debaixo da balaclava. É uma pessoa normal? É pai de família? Como pensa? Como vive?

Mesmo que no filme não os vejamos propriamente com as mulheres e os filhos, existe essa humanidade. Queria mostrar que estes tipos podem ser simpáticos e engraçados e, ao mesmo tempo, psicopatas perigosos.

Primeiro aproximamo-nos daquelas personagens e só depois percebemos realmente quem são. Queria também contrariar a imagem tradicional do gangster no cinema?

É por isso que as personagens evoluem ao longo do filme. No início, são simpáticas. Sinceramente, até eu teria vontade de ir para aquela casa. Enquanto espectadores, pensamos: “Parecem divertidos.” Depois percebemos que não. São engraçados, sim, podem ser simpáticos, mas continuam a ser psicopatas tóxicos, parasitas para a sociedade. Matam, vendem droga, fazem mal. Interessava-me toda essa ambiguidade.

Muitas vezes, no cinema, temos criminosos como Alain Delon ou Robert De Niro, sempre claramente criminosos. Comportam-se como tal, nunca parecem pessoas normais. Na vida real, são mais próximos destes. É a diferença entre O Padrinho, com Marlon Brando, e The Sopranos. Os verdadeiros são os Sopranos. Estes são os meus Sopranos.

Hoje existem inúmeros filmes e séries sobre droga, tráfico e crime organizado — Narcos, por exemplo, foi um enorme sucesso. Foi difícil perceber o que poderia acrescentar a um universo que o cinema e a televisão já exploraram tantas vezes?

Claro. Há imensos filmes e séries. Pensamos imediatamente: “O que é que eu vou trazer de novo?” Já vimos tudo, e provavelmente melhor feito, por melhores realizadores, com melhores atores e melhores orçamentos.

Parti então do jornalista. Além de fazer um filme de gangsters, isso permitia-me introduzir uma reflexão sobre a nossa relação com a imagem, o voyeurismo, a fascinação por este mundo e a deontologia. Existe uma reflexão sobre o trabalho do jornalista para além da história de gangsters.

O filme pode ser visto de duas maneiras. Podes não querer saber dessa reflexão pseudo-intelectual sobre jornalismo ou da dimensão mais filosófica e vê-lo simplesmente como um filme de gangsters. Divertes-te, gostas ou não gostas, mas tens uma história de gangsters e droga.

Mas, se quiseres ir um pouco mais longe, essa história serve também para falar de jornalismo, imprensa, da nossa relação com a informação, com a verdade, com a fascinação por esse mundo e, ao mesmo tempo, com a nossa repulsa. Estamos constantemente a dizer: “É horrível, vendem droga aos nossos filhos.” Mas, assim que isso aparece na televisão, ficamos todos fascinados.

Isso permitia-me tentar elevar um pouco o olhar — sem querer ser pretensioso —, adotar uma espécie de perspetiva meta e falar de outras coisas para além da droga.

Acabou também por interpretar o jornalista no filme. Porque decidiu assumir esse papel?

No início, eu não ia interpretar o jornalista. Aliás, na primeira versão, a personagem aparecia menos. Mas, como tinha escolhido verdadeiros criminosos e verdadeiros polícias para desempenharem os seus papéis, os produtores e toda a equipa começaram a dizer-me: “Jérôme, esta é a tua história. Este é o trabalho que fazes há 25 anos. Não faz sentido ser outra pessoa. Tens de ser tu a interpretar Jérôme Pierrat, porque tu és Jérôme Pierrat.” E acabei por representar, embora isso não estivesse previsto.

Eu já pensava: “Vai ser suficientemente complicado fazer uma longa-metragem de ficção. Se ainda tiver de representar, nunca mais saímos daqui.” Esse era precisamente o único papel para o qual eu queria contratar um ator. Pensava que, pelo menos, aquele papel ficaria bem interpretado e eu poderia concentrar-me na realização, nas ideias para a câmara e em tudo o resto.

Na realidade, a frase que resume um pouco o filme é: tudo é verdade, exceto a história. Toda a gente desempenha o seu próprio papel. Até a própria história poderia ser verdadeira. Está muito próxima da realidade, não é uma história fantasiosa. Apenas levámos alguns elementos mais longe para nos podermos divertir.

E, em França, também apareço nos meus documentários. Faço isso no Canal+ há cerca de 15 anos. Portanto, para o público francês que conhece esse tipo de trabalho, havia qualquer coisa de divertido no facto de aquilo parecer exatamente um dos meus verdadeiros documentários.

Já falou sobre os antigos criminosos e também dos verdadeiros polícias presentes no filme. Como fez esse casting?

Utilizei vários critérios. Os criminosos tinham de aceitar mostrar o rosto e saber que, depois do filme, seriam reconhecidos, mesmo que já tivessem abandonado aquela vida. Também tinham de gostar de cinema e querer participar nesta aventura, porque não havia propriamente dinheiro a ganhar.

Sobretudo, escolhi pessoas que conhecia há muito tempo e que sabia serem capazes de ser elas próprias diante da câmara. Não queria que representassem. Mas uma rodagem exige disciplina, por isso também precisava de pessoas capazes de respeitar determinadas regras. [risos]

Com os polícias foi semelhante. Conheço muitos através do meu trabalho e os critérios eram praticamente os mesmos, embora tivessem de estar reformados. Um deles, aliás, reformou-se durante a rodagem. No fundo, foi uma questão de afinidades humanas e de encontrar pessoas que achassem graça à experiência.

Jérôme Pierrat em La Moula (© Iconoclast, 2026)

No caso dos ex-criminosos, o filme acabou também por funcionar como uma forma de cortar definitivamente com aquela vida?

Esse era outro critério importante: tinham de querer realmente mudar de vida. Eu dizia-lhes: “Depois disto vai ser complicado continuar a ser gangster. Depois de apareceres num filme, acabou.”

Alguns aceitaram precisamente por isso. Diziam-me que, mesmo querendo parar, poderiam sentir a tentação de regressar por causa do dinheiro, dos amigos ou daquele ambiente. Ao mostrarem o rosto no filme, sabiam que já não poderiam voltar atrás.

Para alguns, foi quase uma forma de terapia, uma maneira de cortar definitivamente com aquela vida. Costumo brincar dizendo que La Moula é também uma obra de reinserção social: retirámos cinco gangsters de circulação. A polícia e a sociedade podem agradecer-me. [risos]

Qual foi o maior desafio na realização de La Moula ?

No início, tinha algum receio em relação aos “atores”: não sabia se iriam representar demasiado, se ficariam bloqueados diante da câmara ou pouco à vontade.

Mas o verdadeiro desafio cinematográfico foi encontrar a forma certa de filmar. Era preciso equilibrar uma rodagem documental, um pouco caótica, com algo que continuasse a ser cinema e tivesse um trabalho de câmara interessante. Não podia parecer demasiado cinematográfico, mas também não podia parecer simplesmente uma reportagem. Era preciso encontrar essa gramática, esse equilíbrio entre os movimentos de câmara e a sensação de que algumas coisas podiam escapar.

Felizmente, tive um excelente diretor de fotografia, vindo de um universo completamente diferente. Trabalha muito em publicidade, incluindo campanhas para a Louis Vuitton e outras marcas de luxo. Não era de todo o mundo dele, o que acabou por tornar a experiência ainda mais interessante.

Como trabalhou a ideia da câmara ser uma personagem do filme?

No cinema, normalmente fazemos tudo para esquecer a presença da câmara. Aqui, toda a relação entre o jornalista e os criminosos depende dela. A câmara pode ser amiga ou inimiga. Talvez seja mesmo a personagem principal do filme, porque está permanentemente presente e condiciona tudo. Chega inclusive a ajudá-los. No início, dizem ao jornalista: “Vais filmar os polícias com a tua câmara.” Depois, eles próprios instalam câmaras para vigiar outras pessoas. Se retirarmos aquela câmara, deixa de haver filme.

La Moula também funciona como uma homenagem ao jornalismo?

Sim. O filme existe um pouco como homenagem — não a mim, evidentemente — à profissão de jornalista. Somos muito mal vistos, muito criticados, e existe uma desconfiança enorme em relação à profissão. Queria, portanto, prestar alguma homenagem a este trabalho.

Existem muitos jornalistas extraordinários e é uma profissão muito bonita. Sem jornalistas, sem querer parecer idealista ou pretensioso, como conheceríamos determinadas coisas?

E como vê o futuro do jornalismo de investigação?

Sou bastante pessimista. A investigação está a diminuir e há cada vez menos espaço para fazê-la. Já não há orçamento, tempo ou dinheiro. Trabalhei muitos anos na imprensa escrita antes de passar para a televisão. O problema é que a investigação custa demasiado, demora demasiado tempo e não é aquilo que gera mais retorno.

É mais simples fazer um talk show: custa pouco, colocam-se três câmaras, algumas pessoas num estúdio a fazer disparates e há dez vezes mais espectadores. Além disso, a investigação traz muitos problemas aos canais, aos editores e às redações: processos judiciais, ameaças e complicações. É muito mais fácil produzir entretenimento.

Acho que o jornalismo vai tornar-se cada vez mais diluído. Estou cansado de que nos tratem apenas como comunicadores. É triste assistir ao empobrecimento da profissão: as pessoas são cada vez pior pagas, menos respeitadas e deixam de querer fazer este trabalho.

A precariedade também está presente na personagem que interpreta em La Moula ?

Sim. Também queria que o filme permitisse rir um pouco disso, mas mostrando as dificuldades da profissão.

O jornalista de La Moula atravessa dificuldades financeiras, e aquilo que o leva a começar a pôr de lado a deontologia e a ética é precisamente o facto de precisar de chegar ao fim. Precisa daquele filme, precisa de ganhar a vida e quer mostrar aquilo que descobriu.

Existe uma espécie de pequeno sacrifício nisso. E, na especialidade que escolhi, só há problemas para ganhar. Não há dinheiro. Só problemas. Portanto, pelo menos podemos rir-nos um pouco disso.

E quer continuar no cinema sem abandonar esse contacto com o terreno?

Sim. Gostaria de continuar a fazer cinema. Mas quero continuar ligado ao terreno. Como gosto de um cinema ligado ao real e à verdade, preciso de continuar com os pés no mundo real para poder alimentar o cinema. Se me desligar completamente, acho que perco qualquer coisa essencial.

E agora está em Veneza com o filme. O que sente ao chegar à Mostra com a sua primeira longa-metragem?

É alucinante. Nunca pensei sequer que faria um filme na minha vida, muito menos que acabaria na Mostra de Veneza com ele. Quando comecei a filmar traficantes de droga, há 25 anos, nunca imaginei que, enquanto filmava um tipo a cortar cocaína, aquilo me levaria um dia à Mostra.

E o que acharam os protagonistas do resultado final?

Viram o filme pela primeira vez hoje, durante a projeção. Gostaram muito e riram bastante ao verem-se no ecrã. Também senti que estavam orgulhosos, por eles próprios, pelas famílias e pelos filhos. Podem dizer: “Não fiz apenas coisas más na minha vida. Não estive apenas preso, não vendi apenas droga, não matei pessoas. Também fiz uma coisa divertida, uma coisa boa.”

O que significa para eles passarem da prisão para a passadeira vermelha de Veneza?

É um percurso incrível. Nós conhecemos os media, vamos à televisão, circulamos nesse mundo. Eles nem sequer costumam aparecer na televisão e, de repente, estão na Mostra de Veneza, na passadeira vermelha. Um dos atores terminou há dois anos uma pena de 20 anos de prisão. Outro passou 27 anos preso. Se somarmos o tempo de prisão efetivamente cumprido por todos os atores, são 137 anos.

Para eles, tudo isto é completamente inesperado. Fico muito feliz por termos feito o filme, nem que seja por isso.

Disse que quer continuar no cinema. Já tem um novo projeto?

Sim. Continuará dentro de um universo policial e ligado à ilegalidade, porque é o meu universo desde sempre. Não vou mudar agora. Gosto muito de comédias românticas, mas seria incapaz de fazer uma. Acho que não saberia escrevê-la. Aliás, a minha mulher disse-me: “Não, tu não saberias escrever uma.” [risos]

Pode fazer uma comédia romântica entre um traficante e uma polícia [risos].

Entre um traficante e uma polícia! [risos] Tens razão, é uma boa ideia.

Mas gostaria de explorar outros géneros para além do universo do crime?

Gosto muito de cinema de género e de filmes que assustam. Pensei também numa história passada dentro de uma seita. Gosto de universos um pouco sombrios. Não conseguiria fazer uma coisa demasiado leve.Es pero continuar. Veremos. Talvez agora toda a gente me diga: “Não, para. Já chega.” [risos]

Link curto do artigo: https://c7nema.net/zkyg

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