Fantasma Neon: Leonardo Martinelli prepara longa-metragem com coprodução internacional

Jurado das curtas de Gramado, Leonardo Martinelli fala ao C7nema sobre a passagem por Locarno, a ligação a Portugal, a defesa do musical brasileiro e o caminho de Fantasma Neon para a longa-metragem.

Um ano depois de passar pela Semana da Crítica de Cannes com Samba Infinito, Leonardo Martinelli continua debruçado sobre o projeto de transformar o universo de Fantasma Neon (que lhe valeu o Pardo di Domani em Locarno, em 2021) numa longa-metragem, o que representará a sua estreia na realização nesse formato. O seu horizonte, até sexta-feira, concentra-se nos títulos concorrentes ao Kikito de Melhor Curta-Metragem do Festival de Gramado. O cineasta carioca, do Andaraí, integra o grupo de jurados de uma seleção que chama de “Brasil em pílulas” e que terá os seus vencedores divulgados neste 21 de agosto. Na conversa que se segue, fala do seu futuro, com base no musical, género em torno do qual mais gravita.

Já passou por Portugal com os seus filmes. O que representa esse país para si como espaço de troca, sobretudo dentro do panorama europeu?

Fantasma Neon teve a estreia portuguesa no IndieLisboa e O Som do Silêncio teve a estreia portuguesa no Curtas Vila do Conde. Acho muito interessante pensar numa integração de um cinema lusófono. O Brasil coproduz muito com Portugal e há cineastas portugueses que considero geniais, como João Salaviza e muitos outros nomes interessantes. O Salaviza fez grandes curtas-metragens. Arena, de 2009, que ganhou a Palma de Ouro, é um excelente filme e talvez seja o meu favorito dele. Portugal, dentro do contexto do cinema europeu, parece não estar no protagonismo, mas, ao mesmo tempo, tem cineastas que fazem obras protagonistas do cinema, como Pedro Costa e João Salaviza.

O seu nome ficou muito associado a Locarno. O que representou aquele festival para a sua carreira?

Posso dizer que Locarno foi o festival que me descobriu, no sentido de me ter dado a primeira grande oportunidade de visibilidade internacional. Isso possibilitou e ajudou significativamente a construir uma carreira, a aceder a outros festivais e laboratórios. É um festival que sinto que investiu na minha carreira e, por isso, sou muito grato. Acredito muito na visão de cinema daquele festival.

A música atravessa de maneira muito singular os seus filmes, com aproximações ao musical, à folia e até à ópera. De onde vem essa relação?

Sou um grande fã de música brasileira, mas também de música mundial. Ouço música o tempo todo: estou sempre com os auscultadores no banho, a escrever… A música está muito presente na minha vida. E acredito que o Brasil é o país com os melhores músicos do mundo, com os melhores momentos musicais. Eu amo o cinema brasileiro, mas não acho que o Brasil tenha o melhor cinema do mundo. Acho que o nosso cinema ainda tem muito espaço para evoluir e crescer. Já a música brasileira, para mim, é a melhor do mundo. Ao mesmo tempo, sempre senti uma lacuna de musicais brasileiros, um género de que gosto muito como cinéfilo, pensando em Jacques Demy, Vincente Minnelli, Stanley Donen e também no cinema contemporâneo. Pensei: isto é algo que posso preencher, algo em que tenho vontade de estar presente, ajudando a construir os primeiros musicais brasileiros do século XXI.

A chanchada (um tipo de comédia carnavalesca praticada de 1934 a 1962) foi o grande filão do musical brasileiro no século XX. Há alguma referência desse cinema que o entusiasme?

Acho o cinema de chanchada muito interessante, mas, ao mesmo tempo, distancia-se do tipo de cinema que tenho feito. É inevitável que esteja dentro do repertório da construção do cinema musical brasileiro, mas acho que acaba por não passar para o que faço agora. Talvez pela crónica de costumes.

Como vê hoje a circulação das curtas-metragens latino-americanas no panorama europeu?

Vou fazer um hot take: acho que a América Latina, incluindo as Caraíbas, só não é mais marginalizada internacionalmente do que África, em termos continentais. É extremamente comum ver uma seleção de um grande festival europeu com uma curta-metragem latino-americana — talvez uma, no máximo duas. É ridículo. A quantidade é minúscula. Geralmente, a presença latino-americana é ainda maior do que a dos países africanos, que às vezes têm um ou nenhum filme. Dá pena, porque temos excelentes cineastas na curta-metragem, mas os filmes nem sempre chegam lá. Então vamos trabalhar para que cheguem mais.

A curta-metragem Ilha das Flores, de Jorge Furtado, continua a ser apontada como um dos grandes marcos da curta-metragem brasileira. Que lugar ocupa na sua formação?

Vi Ilha das Flores no colégio. Tenho 28 anos, nasci em 1998, e foi um filme muito influente na minha formação. Quando somos adolescentes e vemos aquilo, percebemos o que é possível fazer com uma curta-metragem em termos de linguagem. É um filme muito inventivo. Acho que o lugar de destaque que Ilha das Flores ocupa é muito justo.

Está em Gramado como jurado da competição de curtas-metragens. O que significa atribuir um Kikito a um cineasta que ainda está a construir a sua carreira?

Acho que o trabalho de um júri é muito importante porque, quando damos um prémio tão importante como um Kikito a um filme, sobretudo a cineastas em ascensão, estamos a atestar que aquele tipo de cinema merece ser defendido, que merece ter mais oportunidades. Por isso, este é o júri mais importante de que já participei. Já estive em mais de dez festivais como jurado, incluindo festivais internacionais, mas este sinto que é o mais importante. E percebo, dentro do panorama atual da curta-metragem, não só a presença de pautas identitárias, mas também uma procura por uma construção de linguagem autoral que dialogue com essas pautas. Acho que essa é uma tendência que tem ocorrido.

E o que pode acontecer com Fantasma Neon no campo da produção internacional?

Já estamos em negociações avançadas para uma coprodução internacional com uma produtora francesa. Ainda não posso dizer qual, porque não assinámos, mas a negociação está bastante avançada e tudo indica que será fechada. A configuração da produção deverá ser, pelo menos, Brasil-França, mas talvez entre também um terceiro país europeu.

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