Acolhido com o aplauso mais forte recebido pela competição de Gramado (até agora), Justino – Nos Bastidores do Reino, de José Eduardo Belmonte, transforma a trajetória de um pregador evangélico numa reflexão sobre fé, ambição, culpa e redenção. O filme encontra em Danuza, personagem de Onna Silva, o seu grande eixo de empatia: uma presença que ilumina a história (real) transformada num misto de drama e thriller. Christian Malheiros entrega-se com visceralidade ao papel de Justino, leitor da Bíblia que atravessa pobreza, poder e fanatismo até tentar acertar contas com o próprio passado.
Ao falar desse homem e da sua literatura confessional, consagrada por um livro censurado durante muito tempo, Belmonte reafirma uma filmografia dedicada a personagens feridas, isoladas e em conflito com sistemas maiores do que elas. O realizador da franquia Alemão (2014-2021) combina thriller, drama e crítica social para investigar um Brasil marcado pela desigualdade, pelo racismo e pela intolerância, com uma construção visual vigorosa e a fotografia de Leslie Monteiro. A montagem de André Finotti mantém o filme em movimento, sem sacrificar a dimensão humana da sua história. A banda sonora de Flávia Tygel merece um destaque à parte: em vez de sublinhar sentimentalismos, acompanha as feridas do filme com precisão e tensão.
Na conversa que se segue, Belmonte (na foto abaixo) explica ao C7nema o que procurou ao falar de um homem que desafiou o determinismo, se tornou uma estrela da evangelização e, posteriormente, flertou com o crime, até se redimir.

O que encontrou em Mario Justino para querer contar a história dele?
Essa é uma grande jornada de autoconhecimento. E é um testemunho muito honesto, muito franco. O que me impressionou foi justamente essa honestidade. Quantas vidas precisamos de viver para saber quem somos? O que é preciso para nos conhecermos, para deixar a nossa essência aflorar? Justino tem uma jornada muito errática, como a vida é. Mete-se em todos os tipos de contradições e abismos que o brasileiro tem, num país que também carrega muitas feridas, e acaba por se descobrir. E acaba por se perdoar também. Acho que o interessante do filme é perceber que, no fim, as coisas podem ser mais simples.
Os seus filmes costumam olhar para pessoas que estão em situações de derrota, isolamento ou à margem. É uma escolha consciente?
Totalmente. Sempre me interessou esse lado das pessoas que estão um pouco fora das coisas, tentando furar bolhas que às vezes parecem intransponíveis. Pessoas que já estão à margem da vida e tentando encontrar-se nesse lugar. Mas, na verdade, o que me interessa são as pessoas que querem sair do isolamento. Identifico-me muito com isso, talvez por ter vindo de Brasília, que é uma cidade que não era muito gregária, principalmente naquela época. Era muito deserta. Saíamos e não encontrávamos uma multidão como no Rio de Janeiro. Encontrávamos uma multidão de nada, na verdade. Um grande vazio. Então, essa tentativa de sair do isolamento através do outro é uma questão muito forte para mim, como ser humano.
E o cinema entrou justamente como uma forma de romper esse isolamento?
O cinema ajudou-me muito a fazer isso, porque cinema é encontro. Encontramos as pessoas e descobrimo-nos através do outro, por meio desses espelhos. Acho que me interessam as pessoas que se sentem isoladas, vulneráveis e precisam de sair disso.
Olhando para a sua filmografia, quais são as marcas que reconhece como recorrentes?
Com certeza, três coisas: 1) pessoas que querem sair do isolamento; 2) pessoas que querem ligar-se à realidade; 3) pessoas que lutam contra sistemas maiores do que elas. Essas três coisas sempre me interessaram. Se olharmos para Meu Mundo em Perigo, Alemão, Entre Idas e Vindas, Carcereiros, Aurora e os meus quatro filmes iniciais — aquela fase que chamo de “tetralogia da crise” —, todos têm essa questão. Todos querem ligar-se à realidade de alguma forma, todos se sentem isolados e todos estão a lutar com temas que são maiores do que eles.
É também um dos poucos cineastas brasileiros que transitam por muitos géneros, às vezes ao mesmo tempo, filme a filme. O que representa para si o cinema de género?
Acho que o cinema é uma aventura com a vida. Temos de aproveitar, experimentar. Eu quero expandir. O grande problema do artista é quando encontra um estilo, encontra uma maneira de fazer e cristaliza aquilo, querendo transformá-lo numa marca. Temos de nos colocar um pouco em risco também, para sairmos mais fortes. David Bowie dizia isso: colocava-se em apuros para sair mais forte. Isso foi muito inspirador para mim. Gosto de experimentar. Tenho uma cabeça que quer experimentar. É isso que me fascina.
O que Brasília lhe deu de mais sólido como olhar sobre o mundo?
Primeiro, essa coisa de juntar várias culturas, esse caldeirão da cultura brasileira. E também uma perceção um pouco horizontal e reflexiva, um certo distanciamento das coisas. Acho que Brasília me deu muito isso.

