To Die to Live: “O meu filme é sobre pessoas que sentem que morreram na guerra”

(Fotos: Divulgação)

Filmado ao longo de doze anos, To Die to Live, que teve a sua estreia mundial nas sessões especiais da 60.ª edição do Festival de Karlovy Vary, recorre a uma linguagem cinematográfica fragmentária para chamar até si o trauma vivido por Shakhta, Dancer e Potter, três homens ucranianos que, após a invasão russa de territórios ucranianos em 2014, se voluntariaram para combater no leste do país.

Depois de anos na frente de combate, tentam regressar à vida civil, mas as experiências que viveram continuam bem presentes neste interlúdio. Quando se inicia a invasão russa em larga escala de 2022, eles voltam a ter de confrontar a guerra e os demónios do conflito.

“Não esperava aquilo que viria a ter no final, porque este filme passou por uma grande transformação”, disse a cineasta ucraniana Yuliia Hontaruk ao C7nema em Karlovy Vary. “Estes homens foram para a guerra como voluntários para proteger o nosso país em 2014. Depois, quando começaram os acordos de Minsk, começaram a regressar a casa. Filmei-os durante cerca de cinco ou seis anos na vida civil e, quando as suas vidas começavam a ficar boas e normais, começou a invasão em larga escala. E eles voltaram novamente para a guerra.”

To Die to Live

Reconhecendo que o seu filme mudou várias vezes, consequência da evolução política e militar do conflito, Yuliia confessa que não foi particularmente complicado convencer os três homens a deixarem-se filmar: “Estava a filmar pessoas que tinham começado a lutar naquele momento. Eles estavam abertos a isso e eu também, porque todos tínhamos o mesmo objetivo: falar da luta ucraniana nesta guerra.”

“Nunca senti que fosse como um Big Brother”, explicou Shakhta ao C7nema na cidade checa. “Tento viver de uma forma em que não tenha de esconder nada. Não havia nada a esconder da câmara. Houve momentos em que disse à Yuliia para parar, em que não queria participar no filme. E isso era sempre uma tragédia para ela. Mas isso não estava ligado ao filme em si. Eram apenas períodos difíceis da minha vida pessoal, momentos em que não queria ver ninguém perto de mim, fosse a câmara, a família ou o trabalho. Nesses momentos, dizia à Yuliia: ‘Para.’ Mas ela era muito insistente. Às vezes conseguia que ela parasse de filmar, outras vezes não. Agora, quando vejo o resultado do filme, percebo que estes 12 anos valeram a pena. Espero que este filme possa ajudar pelo menos uma pessoa a encontrar um sentido para a vida, se essa pessoa o tiver perdido.”

Ao regressar ao filme e a todos esses anos que revelam a sua história e também a da Ucrânia, o soldado reconhece que To Die to Live tem muitas camadas e múltiplos sentidos que só agora começa a compreender. Por isso mesmo, afirma que quer vê-lo uma segunda vez, não para se observar no ecrã, mas para perceber melhor todas as dimensões do que é apresentado. Para si, este filme enfrenta o tema mais difícil de todos, a vida e a morte, algo que considera essencial e universal, e que nem imaginava ser possível transformar num documentário.

A equipa de To Die to Live em Karlovy Vary

Quando questionado sobre o futuro da Ucrânia, Shakhta é claro. “O país continuará a resistir à agressão russa”, diz-nos, porque essa é uma questão de vida e de “sobrevivência”. Porém, insiste que este conflito não deve ser visto apenas como uma guerra russo-ucraniana, pois, como recorda, em 2014, muitos ucranianos também olharam para o conflito como algo distante, limitado ao leste do país, e essa indiferença permitiu que a guerra crescesse e que a Rússia avançasse para a guerra em larga escala. “Para o mal vencer, basta que as pessoas boas não façam nada”, afirma, deixando ainda um aviso ao mundo livre, que, na sua opinião, ainda não compreendeu totalmente a dimensão da ameaça. A Ucrânia, afirma, é hoje “a fortaleza que protege o mundo livre”, e To Die to Live surge também como um apelo para não ignorar o perigo antes que seja tarde demais.

Sobre a questão do título do filme, Yuliia diz que este sofreu muitas alterações ao longo de dez anos, com nomes provisórios como Ten Years of War, To Become We More Than Me e Meta Death. “Também gostava muito de Near-Death Experience, ‘experiência de quase-morte’, mas parecia que o espectador podia comprar bilhete para o cinema a pensar que era sobre morte clínica. E não, não é isso que o nosso filme é. Mas a ideia de experiência de quase-morte podia também dizer respeito ao filme. De um lado há a morte, do outro há a vida.”

Por isso, e para ela, To Die to Live representa duas coisas muito próximas e, ao mesmo tempo, muito diferentes. Mas, de qualquer forma, este será sempre um filme sobre a vida e sobre a morte. “O meu filme é sobre pessoas que sentem que morreram na guerra. Durante todo esse período, tentam começar a viver outra vez. Morrem para viver”, conclui.

Link curto do artigo: https://c7nema.net/gmfi

Destaques