The Only Living Pickpocket in New York: “Se escreves um filme sem pensar em John Turturro, talvez não estejas a escrever um filme”

(Fotos: Divulgação)

Estreado em Sundance, com passagem pela Berlinale e apresentado agora ao público checo no Festival de Karlovy Vary, como filme de encerramento, The Only Living Pickpocket in New York, de Noah Segan, é um dos grandes prazeres cinéfilos da temporada: uma carta de amor a Nova Iorque e à sua mitologia cinematográfica, com John Turturro no papel de Harry, um carteirista profissional de uma velha guarda quase em extinção. 

Quando Harry rouba a mochila de Dylan, um jovem interpretado por Will Price, sem saber que este está ligado ao crime organizado e transporta um chip extremamente valioso, dois mundos entram em colisão. De um lado, o universo analógico, físico e manual de um ladrão que trabalha com as mãos; do outro, uma criminalidade já contaminada pela lógica digital e pelos fluxos invisíveis de informação. Estas duas figuras vão assim confrontar-se numa cidade também ela numa mutação muito mais rápida do que muitos dos seus habitantes conseguiram acompanhar. 

Filmado em 26 dias, com fotografia de Sam Levy e um elenco que inclui ainda Giancarlo Esposito, Steve Buscemi, Karina Arroyave e Jamie Lee Curtis, The Only Living Pickpocket in New York surge como um retrato crepuscular do que desaparece e do que resiste numa cidade em permanente transformação.

Em conversa com o C7nema, Noah Segan e Will Price falaram-nos dessa Nova Iorque feita de memórias pessoais, fantasmas cinéfilos e transformações urbanas, mas também do confronto entre o analógico e o digital, da presença decisiva de John Turturro e da forma como Dylan funciona como elemento disruptivo num universo de género construído em torno de regras muito precisas. E tivemos ainda tempo para falar de Steve Buscemi, das canções que abrem e fecham o filme, e da importância de pensar The Only Living Pickpocket in New York para o grande ecrã.

Noah Segan e Will Price em Karlovy Vary | © Film Servis Festival Karlovy Vary

O Noah é nova-iorquino, e a forma como filma Nova Iorque dialoga muito com a imagem da cidade no cinema. Como quis filmá-la: como memória, mas também como lugar em transformação?

Noah Segan: Há algo quase proustiano nisso, sem querer soar demasiado pretensioso. É quase impossível separar as coisas. Quando olho para a rua onde cresci, ela será sempre a rua onde cresci, mesmo que o edifício tenha mudado ou que os negócios tenham mudado.

Por isso, acho impossível separar a Nova Iorque de que me lembro da Nova Iorque de hoje. E tudo se complica ainda mais porque eu só vejo filmes (risos). Então penso também numa Nova Iorque que nem sequer conheci, a de Sweet Smell of Success, Mikey and Nicky, Ishtar ou Escape from New York. Uma Nova Iorque que talvez nem exista. Tudo no mesmo prato.

Ao mesmo tempo, o filme regressa à energia dos thrillers criminais dos anos 1970. É um cinema de que gosta muito?

Noah Segan: Claro. Quem não gosta? Se gostamos de cinema, olhamos para os filmes de Nova Iorque dos anos 70, 80 e 90 e vemos filmes feitos por cineastas que cresceram a ver Sam Fuller, Billy Wilder e obras que eram, de certa forma, uma Nova Iorque perfeita, quase demasiado perfeita.

Algumas eram filmadas em Los Angeles e eram tão perfeitas que havia ali qualquer coisa idealizada. Acho que essa ideia também me interessava.

Quando escreveu o argumento, tinha John Turturro em mente para a personagem?

Noah Segan: Acho que, se escreves um filme sem pensar em John Turturro, talvez não estejas a escrever um filme. Toda a gente devia ter John Turturro em mente. Em todos os filmes. (risos)

Mas confesso que não o tinha concretamente em mente, porque acho isso perigoso. Quando tivemos a oportunidade de lhe enviar o argumento, eu não pensei que ele fosse aceitar. É o John Turturro. Este não é um filme grande, é um filme pequeno.

Mas é difícil imaginar alguém mais nova-iorquino. Ele é Nova Iorque.

Noah Segan: É. 

O filme trabalha muito o contraste entre o mundo analógico e o mundo digital, tal como a cidade também está a mudar. Como construiu o Harry, a personagem de John Turturro, nesse confronto com o novo mundo?

Noah Segan: Como em qualquer filme de género, há regras. Temos de estabelecer as regras e depois decidir se o filme ganha mais ao quebrá-las ou ao segui-las.

No caso de Harry, as regras são muito claras: ele não tem telemóvel e o seu trabalho é um gesto físico, embora também seja criminoso. Temos de nos manter fiéis a isso.

Depois introduzimos outras personagens, sobretudo o Dylan, interpretado pelo Will, cuja função é testar constantemente essas regras. Ele coloca a pergunta: isto é um chip de computador, mas é físico ou não é físico? É crime ou não é crime? É perigoso ou não é? A personagem dele serve para abrir pequenas fissuras nesse mundo.

Will, como pensou o Dylan, que é quase o oposto da personagem do John Turturro? Como criou a energia de choque entre os dois?

Will Price: Eu e o Noah estávamos muito alinhados. A personagem tinha de parecer um disruptor. Não tinha de parecer deslocada no filme, mas tinha de ser diferente daquilo que vimos noutros filmes criminais, porque esta é também uma Nova Iorque diferente.

O Noah está a trabalhar dentro de um género, mas de uma forma moderna. Pensei muito na interpretação de Gary Oldman em Léon – O Profissional e na de Ray Liotta em Something Wild, personagens que entram para criar um problema ao protagonista.

Sabia que nunca seria fisicamente imponente diante de John, porque ele é enorme. Então a pergunta era: de que forma pode Dylan parecer intelectualmente imponente, ou pelo menos intelectualmente perigoso?

Noah Segan: É interessante, porque uma parte da intimidação de Dylan vem precisamente do facto de ele mostrar ao Harry que ele está ultrapassado, que não percebe o que fez mal, que está fora de contacto. O Dylan está em contacto com o presente, e isso coloca-o em controlo.

Will Price: Sim. Acho que a personagem funciona por isso. John é mais alto, é forte, faz muito ioga. Ele disse-me que pilates é ótimo (risos). Mas sim, era importante que Dylan fosse rápido demais para o seu próprio bem e, ao mesmo tempo, um pouco distante.

Na sua geração, como vê essa tensão entre os objetos analógicos e o mundo digital?

Will Price: Espero que estejamos a encontrar um meio-termo. Gosto muito de coisas tácteis. Mesmo quando trabalho num papel, preciso de o ter em papel. Não consigo trabalhar só num iPad ou num computador. Gosto de imprimir, escrever. Tenho discos, fotografo em película.

Mas também gosto de poder ver filmes na Netflix sem ter de carregar DVDs (risos). É um meio-termo. Acho que precisamos de objetos tácteis no mundo real, como pequenos totens. Mas, se algo é mais fácil, também aceito isso. 

E como foi trabalhar com John Turturro?

Will Price: John é um dos grandes atores da sua geração. É um daqueles atores que aparecem constantemente nas filmografias dos melhores realizadores dos últimos 50 anos. Trabalhar com ele foi extraordinário. É uma pessoa muito generosa, um ator generoso, e aprendi muito com ele. Acho que tem uma interpretação incrível neste filme.

Noah Segan: Quando trabalhamos com alguém assim, essa pessoa melhora todos à sua volta. O John faz isso. Melhorou toda a gente à sua volta, incluindo a equipa técnica

Will Price: E responsabiliza as pessoas, no melhor sentido. É muito sincero, muito genuíno, mesmo quando está a discutir um ponto ou a ser crítico. Temos de ser críticos, temos de testar os limites das coisas. Mas ele é tão sincero que sentimos que a conversa vai ser sempre útil e até prazerosa. Essa atitude é contagiante.

The Only Living Pickpocket in New York

O Steve Buscemi também faz parte do elenco. Como ele chegou ao filme? Conseguiu reunir uma família de atores ligados aos irmãos Coen…

Noah Segan: O John e o Steve são vizinhos em Brooklyn há muitos anos. São como um velho casal. É muito engraçado. Conhecem-se há 40 ou 50 anos, tal como o Giancarlo.

O John fica muito entusiasmado, muito enfático. Começa a explicar uma cena, cheio de energia, e depois olha para o Steve. E o Steve é mais reservado, diz: “Está bem, claro, parece-me bem”, diz timidamente. Têm uma energia muito boa juntos, são um contraste ótimo.

Gostava de poder ficar com algum crédito, mas a verdade é simples: toda a gente gosta do John e quer trabalhar com ele.

Há umas semanas, em Los Angeles, foi exibida uma cópia em 35mm de Barton Fink, e foi incrível ver o John e o Steve juntos há 30 anos. Eles ainda falam do Miller’s Crossing e dizem: “Estávamos tão apaixonados naquele filme. Éramos amantes.” Ainda guardam essa relação. É muito bonito.

A personagem do Harry tem uma história pessoal complexa em casa, com a mulher de quem cuida. Era importante criar esse fundo humano, essa responsabilidade que o obriga a continuar a trabalhar?

Noah Segan: Era importante que ele tivesse uma responsabilidade e humanidade. É fácil falar de honra entre ladrões. Vemos isso nos filmes o tempo todo. Mas e a decência enquanto ser humano? Alguém que diz: “Amo-te e vou cuidar de ti.”

Mais tarde percebemos que talvez essa relação seja a primeira vez na vida em que ele cuida realmente de alguém. Teve relações em que não fez isso. Dar-lhe essa possibilidade era também mostrar que, mesmo no fim da vida, ele cresceu. É uma pessoa.

O filme começa e termina com canções sobre Nova Iorque. Como escolheu essas músicas?

Noah Segan: A primeira canção é New York, I Love You, dos LCD Soundsystem. Tivemos muita sorte em consegui-la, porque um dos produtores é muito próximo de James Murphy, que foi muito generoso.

É uma canção muito interessante para pessoas da minha geração, de uma certa idade, vindas de Nova Iorque. Faz-me pensar na juventude, e também em pessoas que vieram para Nova Iorque, estudaram, tentaram trabalhar, a cidade ficou demasiado cara, fizeram demasiada festa, e depois foram embora, voltaram para casa ou mudaram-se para outro lugar.

A canção final é interpretada por Bobby Short, também sobre Nova Iorque. Ele cantava no Carlyle Hotel, onde fez residência durante muitos anos. Era um pianista, cantor e artista de cabaré extraordinário. Toda a gente ia vê-lo: a Liza Minnelli ia vê-lo, e na semana seguinte estava na Broadway a cantar as canções dele. Ele inspirou muitos grandes intérpretes. Acabou por ter o reconhecimento que merecia, mas demorou.

É também uma canção de Cole Porter, outra grande voz nova-iorquina ligada à Broadway. Pareceu-me apropriado.

Também é ator. Ser ator ajuda-o agora enquanto realizador, sobretudo quando trabalha com atores como Steve Buscemi ou John Turturro?

Noah Segan: O que ser ator me ensinou é isto: se temos Steve Buscemi, John Turturro ou Will Price, não precisamos de lhes dizer muita coisa. Não se diz nada ao Steve Buscemi.

Will Price: A mim podes dizer coisas.

Noah Segan: Claro. Mas quando trabalhamos com pessoas que estudaram, que compreendem profundamente como ser consistentes, como criar, e que fizeram o trabalho de casa, podemos falar com elas como com outros cineastas. São parceiros no filme.

Podemos falar de como a cena vai funcionar na montagem, de velocidade, de ênfase. Podemos ser muito específicos, porque todo o trabalho emocional já faz parte do trabalho delas enquanto atores. E, felizmente, estes atores eram todos muito bons.

Noah Segan e Will Price na cerimónia de encerramento de Karlovy Vary | © Film Servis Festival Karlovy Vary

Consegue separar as coisas? Quando realiza, não se coloca também como ator?

Noah Segan: É muito difícil. Atuei no meu primeiro filme porque não tínhamos dinheiro e estávamos no meio da Covid. Pensei: “Está bem, acho que vou ter de entrar nisto.” Mas foi muito difícil.

É algo que prefere manter em separado?

Noah Segan: Acho que sim. Não sei se estaria a servir melhor o filme se estivesse também a representar nele.

Will, houve algum desafio particular quando leu o argumento?

Will Price: O grande desafio era que esta personagem aparece em poucas cenas, mas são em momentos-chave. O filme está nas costas do John, nos ombros do John, e eu tinha de lhe dar aquilo de que ele precisava.

Quando somos uma personagem secundária, o nosso trabalho é dar munições. O desafio era encontrar o equilíbrio entre dar ao John aquilo de que ele precisava e, ao mesmo tempo, perceber onde podia impor aquilo que eu achava certo para a cena.

Trabalhou recentemente com Luca Guadagnino em After the Hunt e com a Scarlett Johansson em Eleanor the Great. Como tem sido o seu percurso no cinema?

Will Price: Sinto-me muito sortudo por, em pouco tempo, ter trabalhado com cineastas tão bons. Luca é um génio, os filmes dele significaram muito para mim ao longo dos anos, e considero-o um amigo e colaborador. É um verdadeiro artista.

O que tem sido ótimo é perceber diferentes formas de trabalhar. O Noah e eu somos mais próximos em idade, por isso foi o mais próximo que senti de trabalhar com um par. Tenho só três anos a mais do que ele.

Com a Scarlett, que é atriz, percebi que ela trouxe para a realização uma forma de trabalhar muito ligada à sua experiência como atriz, e aprendi com isso. O Luca é muito instintivo. Os atores nos filmes dele estão sempre a dar interpretações incríveis, e isso diz muito sobre a forma como trabalha.

Acho que todas as pessoas com quem gosto de trabalhar são instintivas. O Noah também é.

Tem o sonho ou o plano de um dia escrever e realizar um filme, como o Noah?

Will Price: Um dia. Neste momento estou concentrado na representação, mas escrevo para mim. Talvez um dia surja a ideia certa. O John também realizou filmes muito bons. Mas acho que ainda vai demorar. Tenho muita coisa para fazer como ator primeiro.

O Noah, quer continuar a escrever, realizar e representar?

Noah Segan: Espero que sim. Tenho sido muito mimado como ator. Se puder continuar a ser mimado, trabalhando com pessoas que conheço e adoro, continuarei a fazê-lo. E o mesmo vale para fazer filmes.

Estou a escrever neste momento e a tentar juntar novamente toda a gente.

Pode falar um pouco sobre esse projeto ou é segredo?

Noah Segan: Gostava de fazer um filme de aventuras. Algo na linha de The Treasure of the Sierra Madre, que junta realmente as pessoas. Acho que podia ser divertido fazer algo assim.

Um filme como este parece pedir a sala de cinema, até pela questão do analógico e do digital. Pensou sempre nele para o grande ecrã e não para o streaming?

Noah Segan: Essa é a esperança. Tivemos muita sorte com a Sony Pictures Classics, porque já não há muitos lugares que façam lançamentos à moda antiga. Eles ainda fazem. São dos últimos.

É quase como termos o último carteirista vivo; eles são quase o último distribuidor de cinema vivo. Mesmo a falar com Michael Barker e Tom Bernard, que são lendas e dirigem esta empresa há décadas, percebemos que ainda pensam no cartaz e na caixa de luz do cinema. Querem que alguém saia de um filme, olhe para o cartaz e diga: “Vou voltar na próxima semana para ver isto.” Este é um sentimento muito especial.

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