Lírio Ferreira transcende as memórias e sons em “Vivo 76”

(Fotos: Divulgação)

Realizador de ficções premiadas como Serra das Almas (2024) e Sangue Azul (2014), Lírio Ferreira foi incumbido de abrir o festival É Tudo Verdade, em abril, com o seu trabalho mais recente, Vivo 76, agora escalado para uma sessão de gala, este sábado, na CineOP, em Ouro Preto, no estado de Minas Gerais, abrindo caminho a um debate sobre reinvenções estéticas no documentário musical.

Há quem tente definir a produção como um ensaio memorialístico, de viés metonímico, sobre o cantor, compositor, músico, ator e cineasta Alceu Valença a partir de um disco. Essa tentativa é estilhaçada ao longo da narrativa febril que o realizador de Árido Movie (2005) nos entrega, à medida que mergulha na efervescência cultural pernambucana dos anos 1970 para revisitar o álbum em vinil Vivo! (1976). O LP é parte fundamental da construção da identidade artística de Alceu, além de ser um marco da contracultura brasileira.

Numa mistura de imagens de arquivo, memória política e experimentação visual, o cineasta por trás de Baile Perfumado (1996), feito em parceria com Paulo Caldas, e Cartola – Música Para os Olhos (2006), realizado em dupla com Hilton Lacerda, executa uma autópsia em corpo vivo de um rapsodo.

Em conversa com o C7nema, na CineOP, Ferreira fala sobre a magia que reside nas reinvenções do passado.

Entre as vozes autorais brasileiras que trabalham o documentário musical, é um dos realizadores que mais procura reinventar a forma, filme a filme, construindo assim, pela própria reinvenção, o seu estilo. Como pensa conscientemente a linguagem de cada projeto sobre ícones da música brasileira, como Alceu Valença?

A grande delícia do documentário é precisamente podermo-nos perder. Ao contrário da ficção, que normalmente está mais presa a um argumento e a uma dramaturgia pré-definidos, o documentário permite-nos procurar o caminho enquanto o fazemos. Muitas vezes, no meu caso, só descubro verdadeiramente o filme quando estou a montá-lo. Quando a montagem termina, é quase como se encontrasse finalmente o guião.

Não existe uma fórmula. Talvez haja uma explicação possível: sou um músico frustrado. Sempre quis fazer música, mas não tenho jeito nenhum para isso. Os documentários musicais que faço, e que são profundamente musicais na sua construção, são talvez a forma que encontrei de fazer música através do cinema.

Em Vivo 76, o ano do título torna-se quase uma personagem. O filme fala de Alceu, mas também de um momento muito específico da cultura brasileira e da ditadura. O que representa 1976 para si?

Como a própria vida também é uma ficção, posso dizer que 1976 foi uma espécie de ponto de viragem. Nessa época vivia em Olinda e lembro-me de ver o artista visual Paulo Bruscky na televisão, numa entrevista, a desafiar todas as convenções possíveis, a comer biscoitos e a cuspir farelo enquanto falava.

Eu era um miúdo de dez ou onze anos e aquilo abriu-me uma porta. Percebi que existia um caminho diferente daquele que nos era apresentado como normal. Foi também uma altura em que comecei a tomar consciência da ditadura, das prisões de estudantes, da repressão política. Até aí, protegido pela família e por uma educação católica, não tinha uma perceção clara da realidade do país.

Aqueles anos foram decisivos para a minha formação. Foram anos de descoberta e de deslumbramento. Por isso, revisitar 1976, através do Alceu, é também revisitar um momento muito importante da minha própria vida.

O cineasta nas filmagens com Alceu Valença

O filme apresenta o multiartista Alceu Valença como uma figura quase mítica, em permanente transformação. Quem é Alceu para si?

Essa é uma pergunta difícil, porque o Alceu continua a ser um enigma. O filme tenta aproximar-se dele, mas sem a pretensão de o decifrar completamente. O que me interessava era mostrar o processo de construção de uma personagem artística.

O Alceu é feito de muitas pessoas diferentes. É um homem tímido, embora muita gente não imagine isso. Foi jogador de basquetebol, advogado, ator, realizador, músico. Foi absorvendo experiências e referências e transformando-as numa espécie de alquimia pessoal. Creio que foi precisamente em Vivo!, o disco de vinil de 1976, que essa persona artística ganhou forma definitiva. Quando vemos esse Alceu de há cinquenta anos, reconhecemos imediatamente o artista que continua a existir hoje. Os grandes êxitos vieram depois, mas a essência já estava toda ali.

Uma das características mais impressionantes de Vivo 76 é o uso dos arquivos. Em muitos momentos, as imagens de época funcionam quase como efeitos visuais. O que significa para si trabalhar com material de arquivo?

Vejo o arquivo precisamente como uma espécie de direção artística. Muitas vezes, os documentários que faço aproximam-se da ficção por causa disso. As imagens do passado tornam-se matéria-prima para construir uma narrativa e uma atmosfera.

Num país que preserva tão pouco a sua memória, trabalhar com arquivos é um privilégio. Permite-nos recuperar épocas, pessoas e acontecimentos que ajudam a compreender quem somos. Sem olhar para trás, não conseguimos construir o futuro.

Depois há o trabalho da montagem, que é fundamental. Tive a sorte de trabalhar com grandes montadores e montadoras ao longo da minha carreira. São eles que muitas vezes criam essa magia. Eu costumo dizer que fico apenas a passear nos vagões enquanto o comboio segue o seu caminho.

Depois de Vivo 76, o que se segue na sua carreira?

Estou a preparar, com a produtora Gláucia Camargos, a adaptação cinematográfica de Rabo de Foguete, o único livro de prosa do poeta Ferreira Gullar. O projeto centra-se nos anos de clandestinidade dele. Não é uma biografia tradicional, mas antes o retrato de um período muito específico e intenso da sua vida.

A ideia é filmar no final deste ano. No fundo, continuo a seguir a mesma direção que há no filme do Alceu: a poesia. Acho que a poesia continua a ser uma das poucas coisas capazes de nos redimir.

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