Julián: Louise Bagnall, a Cartoon Saloon e a beleza do feito à mão

(Fotos: Divulgação)

Realizadora irlandesa ligada à Cartoon Saloon, Louise Bagnall chega à sua primeira longa-metragem, Julián, depois de um percurso marcado pela animação 2D e por um olhar atento à vida interior das personagens que nos vai apresentando.

Nomeada ao Óscar pela curta Late Afternoon (2017), trabalhou também em filmes como Song of the Sea (2014) e The Breadwinner (2017). Em Julián, a cineasta adapta o livro ilustrado de Jessica Love sobre uma criança de origem dominicana que passa o verão em Brooklyn com a avó e descobre a sua atração pelo universo das sereias.

A propósito da sua estreia mundial em Annecy, estivemos à conversa com Louise Bagnall sobre a adaptação do livro, a importância da animação 2D e a forma como transformou a imaginação de Julián num caminho de afirmação pessoal, sem fazer da aceitação o conflito central do filme.

Louise Bagnall

Parece gostar muito da ideia de fluir, seja na sua curta nomeada para os Óscares, onde se “voavam” pelas memórias, seja o agora “nadar” pela imaginação. O que a atrai nestas ideias?

Acho que, para mim, é uma forma muito bonita de olhar para a vida interior de uma personagem, de entrar no seu mundo e ver tudo a partir do seu ponto de vista. Em animação, isso permite também escapar às expectativas do público e às próprias limitações do mundo real.

É uma das grandes possibilidades da animação: explorar as experiências metafóricas, ou coisas que não são “reais”, através de um movimento mais fluido, quebrando até as regras normais do que se pode fazer com a câmara. Para mim, é uma excelente forma de mergulhar no subconsciente, no mundo interior de alguém, e trazer o público para dentro dessa sensação.

Qual foi a primeira coisa que viu no livro que a fez pensar que o que tinha em mãos poderia dar um filme?

A primeira coisa que vi foram as ilustrações. Inicialmente, não tive oportunidade de ler o livro; vi apenas as imagens e pensei: bem, isto é interessante. Mas imagens bonitas não fazem necessariamente uma história.

Só quando o li é que fiquei realmente impressionada, não apenas com as personagens, com a forma como são tratadas e com a profundidade que sentimos nelas, mas sobretudo com a maneira como a história é contada. Estamos a olhar para uma pequena fatia da vida daquelas personagens, mas para Julián trata-se de um momento decisivo.

A tensão entre a avó e Julián, quando ele se veste assim pela primeira vez, convida o público a aproximar-se e a trazer talvez as suas próprias experiências para aquilo que vê na página. Isso mostrou-me que havia ali um potencial maior: se expandíssemos a história, podíamos contar algo mais amplo e profundo a partir daquele único momento. Há tanta coisa por baixo, e a história pede muito ao público, no bom sentido. Pergunta-lhe: o que pensa disto? O que acha que vai acontecer? O que acha que Julián vai fazer? Por isso, adorei a forma como a história é contada.

O desenho 2D faz parte da sua linguagem. Quando viu o livro pela primeira vez, pensou logo que queria adaptá-lo dessa forma? 

Sim. Na altura, não sabia exatamente como transformaríamos isso visualmente numa longa-metragem, mas pensei: bem, é um desenho 2D. E nós, enquanto estúdio 2D na Cartoon Saloon, adoramos explorar formas artísticas, estilos de pintura e marcas gráficas.

Sabia que podíamos encontrar uma forma de adaptar o livro sem perder a vivacidade das ilustrações. As imagens eram muito inspiradoras e podiam servir de base, como um ótimo ponto de partida para os visuais do filme.

Falou com a autora do livro sobre esta adaptação? Como foi essa colaboração?

Sim, a Jessica foi ótima. Tivemos algumas conversas desde o início e foi realmente muito bom tê-la tão envolvida. Ela estava entusiasmada com o filme, apoiou muito o processo e sabia que, durante a adaptação, algumas coisas teriam de evoluir e mudar.

Foi maravilhoso trabalhar com ela, porque nos deu muito contexto sobre as escolhas que fez no livro, sobre aquilo de que as pessoas mais gostavam e sobre a forma como ela própria compreendia o seu funcionamento. Isso ajudou-nos a perceber o que podíamos levar para o filme sem perder o espírito original.

Não se tratava apenas de manter as mesmas personagens, mas de preservar a mesma sensação do livro. Tivemos conversas muito boas com a Jessica nesse sentido, para agarrar esses elementos durante a adaptação para longa-metragem. Ela foi sempre muito entusiasta e apoiante ao longo de todo o processo. Estou-lhe muito grata. É uma pessoa muito generosa.

Como desenvolveu todas essas histórias sobre a avó e a relação com a República Dominicana? Como preencheu os “espaços em branco” do livro para o filme?

Depois de decidirmos adaptar o livro, a primeira coisa foi encontrar um argumentista capaz de dar vida à história no ecrã e trazer mais profundidade e autenticidade ao filme. Ao expandirmos o foco da narrativa, passávamos também a ver a Abuela, um pouco da sua vida e do mundo à volta das personagens, por isso era essencial acrescentar experiências e referências mais autênticas.

Encontrámos uma argumentista maravilhosa, Juliany Taveras. Como é dominicano-americana, percebemos que fazia sentido assentar a história da avó numa base ligada à República Dominicana, até porque isso se integrava na própria herança da Juliany. Foi uma parceria muito boa, que lhe permitiu trazer ideias e deixar a história evoluir à medida que escrevíamos, adaptávamos e expandíamos o livro.

O desafio com a história da avó era o facto de ela ser tão interessante que corríamos o risco de desviar o foco do filme para ela. Por isso, tivemos sempre de reequilibrar: como é que isto se integra na viagem de Julián? Tinha de acrescentar algo à forma como ele se compreende a si próprio, mas também revelar quem ela é, do que precisa, aquilo que procura no mundo, aquilo de que sente falta e o que deixou para trás. Tudo isso foi muito marcado pela escrita da Juliany e evoluiu durante o processo. Foi uma parte realmente essencial.

Julián

E como trabalharam a estética do filme? O livro já é muito colorido, mas a longa-metragem parece expandir essa dimensão, ligando a cor à herança caribenha de Julián e acrescentando-lhe também uma presença muito forte da música. Como encontraram esse equilíbrio? 

Queríamos que o filme tivesse uma identidade própria, uma sensação e um espírito seus. A história passa-se no verão, em Brooklyn, numa comunidade muito vibrante e atravessada por muitas culturas, enquanto o próprio Julián está a descobrir a sua. E, claro, vemos tudo a partir do ponto de vista dele.

Para Julián, o mundo é um lugar colorido, entusiasmante e cheio de possibilidades. Daí a forma como usamos a cor, o calor e essa sensação de beleza que existe mesmo nos ambientes urbanos, ainda que não sejam lugares perfeitos. Há muito para descobrir ali: culturas, música, comida, tudo isso.

É um espaço muito rico e inspirador para Julián, e por isso quisemos trazer tanta energia, cor e excitação para o filme. Isso ligava-se naturalmente à sua herança, à forma como ele a descobre e à maneira como vai florescendo ao longo da história.

A figura da sereia atravessa muitas culturas, da tradição síria à grega, passando também pela irlandesa. No caso de Julián, interessava-lhe olhar especificamente para essa dimensão caribenha? Como foi o trabalho de pesquisa para chegar à personagem de Yemaya? 

Sim, exatamente. Muitas culturas têm uma tradição ligada à sereia ou à deusa do mar. Neste caso, queríamos perceber que figura poderia inspirar Julián de forma mais específica. Esse trabalho foi informado pela Juliany Taveras, mas também pelo meu correalizador, Guillaume Lorin, que é de Guadalupe, nas Caraíbas francesas.

Também aí existem versões próprias de Yemaya, de Mami Wata, e várias entidades que se sobrepõem, sobretudo dentro da diáspora: a deusa-mãe, a deusa do oceano, a sereia. Para Julián, tivemos quase de perguntar: quem é esta entidade para ele? O que representa especificamente?

Porque a Yemaya pode significar muitas coisas diferentes para muitas pessoas. Mas, no caso de Julián, ela é inspiradora, poderosa e graciosa. É uma figura com a qual ele sente que pode ligar-se, não apenas a uma parte de si próprio, mas também à sua herança. Trata-se de sentir que se pertence a algo maior, de encontrar uma voz e um espaço de encorajamento. Para mim, Yemaya no filme é muito a ideia que Julián tem dela, aquilo que ele quer que ela seja: uma bela deusa divina e feminina, capaz de o guiar em direção à compreensão de si mesmo.

E o que representa Brooklyn para si? A história passa-se nesse bairro de Nova Iorque. Que importância tinha esse lugar para o filme e para a viagem de Julián? 

Brooklyn é um lugar fantástico para situar um filme, precisamente por ser tão rico culturalmente. Há ali tantas pessoas diferentes, tantas possibilidades. Embora eu obviamente não viva lá, pensando sobretudo do ponto de vista de Julián, é um lugar ao qual ele está ligado porque a avó vive lá, mas também um espaço onde descobre coisas que não conhecia.

É em Brooklyn que ele descobre as sereias, faz amigos, aprende a jogar dominó e encontra todo um mundo novo. Para mim, Brooklyn é esse incrível caldeirão de possibilidades, com a música a ouvir-se pela rua e aquele sol de verão.

Vi o Do the Right Thing (1989), um filme de verão passado em Brooklyn, que tem uma vibração diferente, mas também essa sensação de que há muita coisa a acontecer na cidade e de que é um lugar muito entusiasmante.

Uma das questões centrais do filme é a aceitação de Julián, sobretudo através da relação com a avó, com as amigas dela e com o pai. Desde o início estava decidido que o conflito não passaria pela rejeição da sua identidade? Essa escolha vinha já do espírito do livro? 

Sim, exatamente. A ideia era essa. Há muitos filmes em que a pergunta central é: será que esta personagem vai encontrar aceitação? Mas não era esse o filme que queríamos fazer, nem a história que queríamos contar. Já existem muitos filmes sobre isso.

Ao olharmos para o livro, percebemos que ele oferecia outra coisa: talvez o outro lado dessa questão. O que acontece quando a autoexpressão de alguém é acolhida? O que acontece quando podemos seguir esse caminho?

Isso não significa que não haja desafios, coisas por resolver ou erros pelo caminho. Mas acho importante olhar também a partir desse ponto de vista, porque muitas pessoas não enfrentam necessariamente esse grande desafio da aceitação, embora tenham outras coisas para resolver.

Todos podemos reconhecer essa sensação de precisar de encontrar o nosso próprio lugar, ultrapassar obstáculos e perceber como navegar as relações à medida que crescemos até à idade adulta. Como nos passamos a relacionar de forma diferente com a nossa família? Para mim, era também essa história que queríamos contar, uma história muito reconhecível para muitas pessoas.

Julián

Quando foi nomeada para o Óscar, sentiu alguma pressão em relação ao projeto seguinte, sobretudo tratando-se da sua primeira longa-metragem?

Para ser honesta, não senti realmente essa pressão, porque não tinha assumido com ninguém o compromisso de fazer logo outra coisa. Foi uma grande honra ser nomeada e uma experiência maravilhosa. Claro que também acabou por ser um ótimo ponto de partida para chegar a uma longa-metragem, mas isso não era, para mim, algo garantido.

Eu procurava um projeto que quisesse realmente transformar em longa, algo pelo qual me sentisse apaixonada. Não queria escolher uma ideia qualquer, nem fazê-lo apenas pela oportunidade. Esperei até encontrar um filme que me entusiasmasse — e esse filme foi Julián.

Estou contente por não ter avançado antes de o encontrar. Para mim, o mais importante era ter uma ideia que conseguisse imaginar como longa-metragem, que quisesse mesmo fazer e ver acontecer.

Como vê as transformações que atravessam hoje a animação? Por um lado, temos as plataformas de streaming, que mudaram a forma de distribuição dos filmes; por outro, a inteligência artificial entrou recentemente na discussão. Como olha para estes desafios?

Neste momento, ainda não é claro para onde tudo vai, que coisas vão ganhar força e quais vão desaparecer. No caso da animação independente, fico muito contente por ainda a poder fazer, porque nos dá a possibilidade de contar histórias como esta.

Ao mesmo tempo, acho muito importante, para nós na Cartoon Saloon e para muitos artistas e cineastas, preservar as qualidades artesanais dos filmes e manter essa integridade artística. Em Julián, queríamos muito que houvesse uma sensação de feito à mão. Num filme 2D, é possível ver literalmente as pinceladas, as marcas de marcador nos fundos, e isso traz calor e uma espécie de intenção ao ecrã a que acho que o público responde.

Por isso, continua a ser essencial perseguirmos a nossa própria forma artística e mantermos essa integridade. Há muitas coisas a acontecer no mundo da animação e não sei para onde tudo caminha, mas acredito que o público continuará a procurar essa autenticidade de intenção. É aí que está o nosso lugar feliz: fazer coisas com pessoas com quem gostamos de trabalhar e manter isso no ecrã.

Está na Cartoon Saloon há bastante tempo. Como viu o crescimento do estúdio e como é estar dentro dessa história?

Não estive lá desde o início, por isso tenho a certeza de que há uma evolução ainda maior da que vivi. Mas, do meu ponto de vista, o estúdio amadureceu bastante desde que estou lá, em parte porque cresceu. Fizemos muitos projetos e várias longas-metragens, e isso permitiu ao estúdio compreender melhor aquilo que consegue fazer e o tipo de histórias que quer contar.

Para mim, é um ótimo lugar para estar: um estúdio que se compreende a si próprio, que percebe o que há de único no trabalho que faz, ou pelo menos o que há nele de interessante, e porque é que o público procura os seus filmes. Quando compreendemos isso, podemos continuar a fazer esse tipo de trabalho e a focar-nos nessas qualidades. O estúdio cresceu, amadureceu e encontrou a sua própria voz.

Julián é muito alegre, mas chega até nós num período um pouco sombrio da sociedade. Acha que precisamos de mais filmes assim?

Sim. Quando chego a casa à noite, fico certamente feliz por ver algo mais alegre ou celebratório. Espero que o filme seja algo de que as pessoas possam desfrutar. Há nele um pouco de felicidade.

Especialmente para os jovens, acho que merecem algo alegre, algo celebratório. Precisam dessa oportunidade, desse encorajamento e dessa excitação. Não é justo que ouçam apenas falar de coisas más, ou que sintam que tudo é impossível.

Para mim, o filme também passa por mostrar o lado luminoso, talvez o lado esperançoso daquilo que podemos fazer e do que é possível. Ou, simplesmente, por elevar as pessoas e dar-lhes algo que as faça sorrir.

Imagino que também esteja curiosa para perceber como a comunidade afro-caribenha vai reagir ao filme.

Sim. Acho que um filme não está realmente terminado até o público ter oportunidade de o ver e interpretar. Espero que seja algo que entusiasme as pessoas, algo interessante para ver. Não quero especular demasiado sobre como será recebido, mas sei que, para as pessoas que trabalharam connosco, significou muito. Espero que isso também chegue ao público.

Tem outros projetos em mente?

Neste momento, não. Estou focada em Julián. O filme levou vários anos a fazer, por isso agora quero aproveitar a possibilidade de o levar ao público. Estou muito entusiasmada por o ver com as pessoas. É realmente aí que tenho a cabeça neste momento.

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