Marcelo Gomes entre os Tigres de Roterdão

(Fotos: Divulgação)

Onipresente nas maiores mostras de cinema do mundo, com filmes exibidos em Cannes, Veneza e Berlim, o pernambucano Marcelo Gomes tem um duplo compromisso com Roterdão a partir desta quinta-feira. O realizador de Cinema, Aspirinas e Urubus (2005) — que há dois anos estreou por lá Retrato de um Certo Oriente (2023) — regressa agora à Holanda para integrar o júri da competição principal do maior evento cinéfilo daquele país, a Tiger Competition. Paralelamente, no sábado, apresenta na secção Harbour a sua mais recente longa-metragem, Dolores (2024), realizado em coautoria com Maria Clara Escobar e já exibida no Festival de San Sebastián, na competição Horizontes Latinos. Um dia antes da projeção nos ecrãs holandeses, o melodrama passa pela Mostra de Tiradentes, na reta final da maratona cinéfila mineira, com uma sessão ao ar livre, na praça da cidade.

Vencedor do Festival do Rio de 2022, onde recebeu o prémio Redentor de Melhor Filme com Paloma (2022), Gomes já disputou o Urso de Ouro com a coprodução portuguesa Joaquim (2017) e, há um ano, passou pela Alemanha no Berlinale Series Market com os episódios de Máscaras de Oxigénio (Não) Cairão Automaticamente (2023), atualmente disponíveis na HBO Max. A experiência na teledramaturgia, híbrida de televisão e streaming, foi um dos maiores sucessos do audiovisual brasileiro em 2025. Enquanto trabalhava nessa minissérie, ele e Maria Clara desenvolveram o argumento deixado como herança afetiva pelo amigo Chico Teixeira (1958-2019).

“Dolores” é exibido sexta em Tiradentes e sábado em Roterdão

Realizador de Ausência (2014) e A Casa de Alice (2007), Chico Teixeira morreu sem conseguir filmar este projeto, que reúne as atrizes principais dos seus dois maiores sucessos, Gilda Nomacce e Carla Ribas. Ambas funcionam como verdadeiros reatores sentimentais em Dolores. Em San Sebastián, há cinco meses, o público riu, ficou tenso e emocionou-se com as peripécias da vendedora de lingerie interpretada por Ribas, que chega aos 65 anos assolada pelo vício do jogo. Não por acaso, o seu projeto para o futuro é abrir um casino, sustentado por um sonho premonitório de sucesso. As visões que tem não a impediram de perder muito, incluindo o afeto da sua única filha, Deborah (Naruna Costa, um vulcão em cena), também comerciante de roupa íntima. A filha suspeita que o pai morreu de desgosto com a dependência de Dolores. Já Duda, a neta (Ariane Aparecida), é mais compreensiva com a avó: trabalha numa loja de armas, dispara com precisão e sonha mudar-se para os Estados Unidos, à procura de uma vida mais confortável.

Marcelo Gomes permanece em Roterdão até 8 de Fevereiro, integrando um júri de peso, ao lado da atriz iraniana Soheila Golestani, da realizadora e intérprete franco-grega Ariane Labed, da directora artística do BFI London Film Festival, Kristy Matheson, e do escritor croata Jurica Pavičić. Em competição está também a produção brasileira Yellow Cake (2024), de Tiago Melo, que aborda um acidente radioativo no interior do país e conta no elenco com Tânia Maria, intérprete de Dona Sebastiana em O Agente Secreto (2025).

Na entrevista que se segue, Marcelo Gomes fala da sua ligação ao Festival de Roterdão e reflecte sobre o impacto de Máscaras de Oxigénio (Não) Cairão Automaticamente no seu percurso criativo.

Qual é a importância do Festival de Roterdão para a sua carreira?

O Festival de Roterdão é muito importante para a minha carreira. É fundamental, diria mesmo. Foi o primeiro festival internacional a exibir as minhas curtas-metragens, como Clandestina Felicidade (1999). Quando estava a desenvolver o meu primeiro projeto de longa-metragem, Cinema, Aspirinas e Urubus, recebi o prémio do Hubert Bals Fund, ligado ao festival. Esse apoio foi decisivo para o desenvolvimento do argumento e, mais tarde, para conseguir financiamento para a produção. Depois disso, o festival exibiu esse filme e outros trabalhos meus. Retrato de um Certo Oriente teve lá uma exibição na secção Big Screen Competition com uma recepção extraordinária, tanto do público como da crítica. Agora regressamos com Dolores, o que fecha um ciclo muito bonito.

O cineasta pernambucano Marcelo Gomes se prepara para
rodar uma longa nova em dupla com o o artista visual mineiro
Cao Guimarães

O cinema de Chico Teixeira sempre se centrou nas pessoas e nas suas relações. De que forma isso se reflecte em Dolores, que realizou com Maria Clara Escobar?

O cinema do Chico fala muito das pessoas e das suas relações face às condições de vida que lhes são impostas. E tanto o meu cinema como o da Maria Clara partem exactamente desse lugar. Procurámos investigar a vida destas personagens, cada uma à sua maneira, já esboçadas pelo Chico, que nos deixou estas três mulheres como um verdadeiro presente. Fazer este filme foi, para nós, receber esse presente. São personagens que vivem mundos singulares. O Chico começou a sonhá-las e, a partir daí, construímos um filme que é da Maria Clara, é meu, mas é também do Chiquinho. A cada apresentação de Dolores, sentimos mais a presença dele. Muitas pessoas dizem-nos: “Vejo o filme e sinto a alma do Chiquinho ali.” Isso emociona-me profundamente. Espero que o público de Tiradentes receba o filme com o mesmo carinho. É uma mostra muito especial, com uma curadoria muito sensível. Mesmo não estando lá a tempo inteiro, acredito que este filme sobre três mulheres e os seus mundos toca o coração das pessoas.

O que lhe ensinou a experiência em séries, vinda do cinema?

Empregámos exatamente o mesmo rigor que aplico nos meus filmes de cinema: rigor conceptual, dramatúrgico, atenção ao argumento, à montagem, ao som. Digo “nós” porque levei comigo muitos colaboradores habituais do cinema. Claro que o volume de trabalho é muito maior numa série, pelo número de episódios e minutos, mas a exigência artística é a mesma. Fico muito satisfeito por saber que a série vai agora ser exibida em todos os países francófonos, na Europa, no Canadá e em África, depois de ter sido adquirida pelo Canal+. É uma obra que recebeu distinções internacionais e teve uma forte repercussão fora do Brasil. Trata de um tema universal: o preconceito e a solidariedade face ao preconceito.

Em que ponto se encontra o seu próximo projeto?

Chama-se Cabo dos Prazeres e é uma ficção científica. Está ainda em desenvolvimento de argumento, mas a captação de financiamento está bastante avançada. Ou filmamos no segundo semestre deste ano ou, possivelmente, no primeiro semestre do próximo.

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