Com mais de 2 milhões de espectadores, “Siga a Banda!” (En Fanfare) é um dos maiores sucessos comerciais recentes em França. A história de dois irmãos que se reencontram tem atraído multidões desde que estreou no Festival de Cannes, em maio de 2024. De um lado temos Thibaut (Benjamin Lavernhe), maestro numa orquestra internacional que, após ser diagnosticado com leucemia, descobre que tem um irmão que o pode salvar. Esse irmão é Jimmy (Pierre Lottin), funcionário de uma cantina escolar que toca trombone numa banda marcial no Norte da França. À primeira vista, os dois parecem muito diferentes, mas, pouco a pouco, vamos percebendo que as escolhas no passado, que os levaram a crescer em meios sociais diferentes, não afastam a realidade que têm mais coisas em comum que diferenças.

“A ideia partiu de um reencontro de irmãos numa lógica da comédia clássica. Duas personagens que aparentemente não têm nada em comum, mas que partem numa descoberta conjunta”, explicou o realizador Emmanuel Courcol, numa entrevista ao C7nema, em Paris, no passado mês de janeiro. Isso, porém, não bastava para o cineasta, que desejava aprofundar mais o guião com questões ligadas ao determinismo social. “Vivemos numa sociedade que deixa nas margens pessoas com talentos que poderiam ser explorados se tivessem crescido num ambiente diferente. Há pessoas que não seguem certas ambições porque o meio social onde vivem os interditam a isso”, explica Courcol, desenvolvendo como criou a personagem de Jimmy, cuja necessidade de ganhar a vida e de ter um emprego estável, numa região marcada por inúmeros problemas económicos, remeteu o seu fascínio e dom musical para o estatuto de hobbie e não como uma profissão como a que Thibault tem no seio da elite musical. Para o papel de Jimmy, Emmanuel escolheu Pierre Lottin, ator com quem já tinha trabalhado em “Um Triunfo”, filme que poderia ter tido enorme sucesso em França, não fosse o facto de ter estreado a meio da pandemia Covid-19. “Gosto muito do Pierre e como ele encarnou a personagem com um toque de originalidade”, diz Courcol, acrescentando que Jimmy foi mesmo escrito a pensar no ator. Já a chegada de Benjamin Lavernhe ao elenco foi mais tardia, sofrendo o guião alguns ajustes para a entrada do ator em cena: “Originalmente, o Thibault seria o irmão mais novo. Mas não encontrámos um ator credível para o papel de maestro, pelo menos até chegar ao Benjamim [que é mais velho que o Pierre].”

Encarando o desafio de escrever uma história assim, evitando clichês e procurando transmitir uma toada de autenticidade, Courcol recusou ceder a facilitismos, particularmente na forma como os atores encarnam as personagens. “O que procuro sempre é uma verdade, a espontaneidade e um naturalismo nas interpretações”, diz-nos, destacando o papel de Thibault como o mais complexo para atingir as suas ambições: ele não queria que o público visse um ator a fazer de maestro, mas acreditasse mesmo que estava perante essa figura. “A forma como lidamos com a música nas filmagens foi desafiante, principalmente no fazer crer o espectador que o Benjamin era um maestro de orquestra reconhecido pelos seus pares. Ele trabalhou muito para conseguir isso e tivemos músicos no set a acompanhar as filmagens. Queria que tudo soasse autêntico, ora no ambiente clássico, ora no da banda onde o Jimmy toca. Todas as personagens em cena são atores, mas todos têm conhecimentos musicais. O casting foi feito com as capacidades musicais em destaque e tivemos a hipótese de, com isso, assistir a muitos milagres no set. Ao início, os membros da banda estavam impressionados com todo o dispositivo cinematográfico e um pouco tímidos até. Mas no final do dia, parecia que há anos tocavam juntos. (…) Sou muito perfeccionista na fase da escrita do guião, mas nas filmagens deixo sempre espaço, não para uma improvisação de textos, mas uma apropriação. Procuro sempre inspirações de um ator que nessa apropriação acrescenta algo ao papel e ao filme, algo que não tinha pensado antes na escrita” .
Já a preparar um novo filme, que adapta livremente uma obra de Valentine Goby, “Banquises”, com Sandrine Kiberlain e Benoit Magimel como um casal que parte para a Gronelândia em busca dos filhos desaparecidos, Courcol mostra-se maravilhado com a receção de “Siga a Banda!” e fala de um lado terapêutico que o filme tem revelado: “Tenho recebido mensagens muito pessoais de pessoas que passaram por situações complicadas na vida e que saíram do filme com reconfortadas. Foram testemunhos muito sinceros de pessoas a quem não devo nada, mas que se sentiram tocados com o meu filme. Por exemplo, ontem, eu e a minha companheira, que é coargumentista, fomos agraciados como cidadãos honorários de Lallaing, a pequena localidade que filmamos no “Siga a Banda!”. É um fait divers, mas faz ainda parte do filme e mostra o seu efeito nas pessoas. As pessoas do norte de França sentiram-se bem representadas e bem tratadas em cena. É uma região da França que sofreu muito nas últimas décadas e que às vezes é parodiada ou tratada com condescendência no cinema. Ao ouvi-las, senti também a função social do filme e do cinema, de uma verdadeira utilidade para com estas pessoas. Isso deixou-me muito satisfeito”.

Uma carreira tardia como realizador
Atualmente com 67 anos, o cineasta estreou-se na realização de longas-metragens apenas há 5 anos, quando lançou “Um Triunfo“. Sobre a escolha tardia para passar para trás das câmaras, Courcol explica: “Os projetos que me envolvo são sempre aqueles que penso há muitos anos neles. É a minha natureza. Por isso me estreei tão tarde na realização. Procrastino, confesso. O guião do ‘Siga a Banda!’ tem 12 anos. No caso do “Um Triunfo”, o produtor deu-me o documentário que inspirou o filme uns dez anos antes. O filme que agora estou a trabalhar adapta um livro que li há uma década. Bem, acho que dez anos é o tempo mínimo para eu avançar com um projeto (risos).
Também cheguei ao teatro tarde e quando o fiz queria ser ator. Mais, queria ser uma estrela. Depois comecei a escrever argumentos. Foi nesse momento, aos poucos, que surgiu o pensamento que podia me tornar realizador. Comecei a ver filmes escritos por mim e a pensar que as coisas podiam ter sido filmadas de forma diferente. Às vezes, sentia uma certa frustração em escrever e deixar para outros a tarefa de realizar. Foi por isso que avancei“.






