Benedetta Porcaroli: “Gostava que as redes sociais desaparecessem, mas temos de viver com elas”

“Enea” chega aos cinemas no dia 6 de março, antes de ser lançado a 6 de Abril no canal TVCine Edition

Quando, em 2016, a jovem Benedetta Porcaroli se estreou no cinema com um pequeno papel em “Perfetti sconosciuti” (Amigos Amigos, Telemóveis à Parte), sucesso absoluto que originou dezenas de remakes exibidos posteriormente na Netflix, ela estava longe de pensar que se tornaria uma estrela internacional. Não foi através desse filme que a fama chegou até si, mas sim através de outro projeto da Netflix: a série “Baby”, que teve três temporadas, na qual protagoniza a história (baseada em factos verídicos) de um grupo de jovens do liceu, de classe alta, que entram no mundo da prostituição de luxo. “Sou de Roma e conheço a história que inspirou a série. Foi um papel muito difícil e intenso, pois falávamos de uma adolescente num período muito complexo da vida”, disse a jovem atriz ao C7nema, numa visita por ocasião da Festa do Cinema Italiano em 2024. “Na idade da minha personagem, estás numa fronteira. És parte criança, parte adulta. Tudo era muito intenso e ainda não tens o arcabouço para assimilar e traduzir em palavras o que sentes. Em segundos, podes tomar decisões que te levam num sentido errado para a vida. Vais navegando pelo caos, mas tentas sempre encontrar algo bonito nele e a felicidade.” 

Benedetta Porcaroli e Alice Pagani em “Baby

Reconhecendo que essa personagem, Chiara Altieri, uma jovem rica e bonita que está desiludida com a sua vida privilegiada, era alguém cheia de contradições, Benedetta procurou reunir todas as forças para interpretar alguém que, em momento algum, é imune aos julgamentos. “Em vez de julgar, tentei entender de onde vem o caos da sua vida”, diz-nos, acrescentando que a grande questão da série era como é que algo como o vemos pode acontecer em Roma, numa bela vizinhança onde, pela aparência, se vivem vidas perfeitamente felizes.

Admitindo que gosta de diversificar os papéis, no cinema ou na televisão, para se testar, saindo assim da zona de conforto, Benedetta fala em “intuição” nas sua escolhas, evitando qualquer sentimento negativo por não ter participado neste ou naquele projeto. “Tenho fé nas minhas escolhas e, por isso, sei que certas decisões que tomei estão ligadas ao facto de achar que não era o momento exato para assumir determinadas personagens.

Enea

Seguindo mais uma vez uma lógica de aceitar papéis associados a figuras privilegiadas que entram ou vivem no mundo do crime com a naturalidade de tentar “sentir” algo diferente nas suas vidas facilitadas, Benedetta assumiu um papel secundário em “Enea”, filme de Pietro Castellitto que chega no dia 6 de março aos cinemas nacionais.

Pietro Castellitto e Benedetta Porcaroli em “Enea”

Em “Enea” seguimos a personagem título (inspirada no semideus troiano Eneias), o filho mais velho de uma abastada família de Roma. Apesar de gerir um restaurante de sushi de alta cozinha, ele vive sobretudo do privilégio que lhe foi dado à nascença. Juntamente com Valentino, um amigo piloto de aviões, ele anda de festa em festa, dividido entre o tráfico de drogas e o prestar atenção à namorada, Eva, protagonizada por Benedetta. “Vi o primeiro filme do Pietro e gostei muito. Ele enviou-me o guião e adorei pela abrangência de temas que aborda no seio de um grupo de amigos de Roma, que é a minha cidade”, disse a atriz, acrescentando que conhece pessoas na sua cidade que se comportam de maneira semelhante. “O filme capta bem a dinâmica entre os mais novos e velhos na cidade. São personagens que querem se sentir vivos, mas não conseguem sentir nada. Este é um filme e as coisas estão mais sublinhadas do que o são na realidade. Mas conheço esta dinâmica, ainda que o Pietro a tenha colocado em cena de forma extrema.

Afirmando que o guião de “Enea” era muito detalhado e que adorou a “forma irónica” como estava escrito, Benedetta descreve a sua personagem como “alguém muito calma e racional perante o desastre e que tenta ser forte com o seu amor, evitando julgamentos”. 

Entre as séries e filmes, o cinema e o streaming

Quando questionamos Benedetta se tem ambições de seguir uma carreira internacional, a jovem responde com tranquilidade com um claro sim, mencionando não apenas a sua presença na já mencionada “Baby”, mas igualmente em “Imaculada”, onde atua ao lado de Sydney Sweeney, e numa nova minissérie internacional (ainda inédita) para a Netflix: “Il Gatopardo”, onde vamos seguir uma família aristocrática siciliana do século XIX, envolvida em tempos sociopolíticos em constante mudança. “Comparado com a geração mais antiga de atores italianos, creio que a minha geração tem a tarefa bem mais facilitada”, explica Benedetta, apontando à existência de múltiplas plataformas de streaming a principal razão para isso:“Depois do “Baby”, recebia mensagens de sítios longínquos, como o Chile, por exemplo. Antigamente era mais difícil chegar a tanta gente tão cedo na tua carreira. Com isto, espero que a minha geração se torne mais conhecida globalmente, pois não vamos esquecer que a Itália é um país pequeno com inúmeros talentos para se descobrir”.

Benedetta Porcaroli em “Imaculada”

Mas embora admita que o streaming lhe facilita a vida, no que concerne à fama e ao almejar uma carreira internacional, a jovem italiana de 26 anos mostra deveras interesse em continuar a dar destaque nas suas escolhas ao cinema e aos filmes: “A produção de um filme é mais curta e não tens de estar 7 meses a trabalhar numa série. Com isso, podes fazer vários filmes durante o ano. Vou tentar fazer uma série ocasionalmente, mas tenho de encontrar um bom projeto e uma boa razão para estar nela. Recentemente fiz outra série para a Netflix, “Il Gatopardo”, na qual tinha uma ótima personagem. Mas foi como filmar 4 filmes seguidos. Ocupou-me 6 meses, com filmagens todos os dias.” 

Redes Sociais

Gostava que as redes sociais desaparecessem, mas temos de viver com elas. Elas existem e, realmente, há pontos positivos nelas. É isso que tento fazer. Aproveitar o melhor que têm para me oferecer e ignorar o resto. Vou continuar a ignorar tudo o que há de ofensivo nelas. Tento usá-las para o meu trabalho, na promoção de filmes e séries. Essa promoção já não passa tanto pelas televisões e mantenho uma distância de segurança, não expondo nada da minha vida pessoal. Nós, atores, temos de manter o nosso lado misterioso e não expor tudo das nossas vidas. Não quero ver o que o meu ator/atriz preferido/a faz durante as manhãs. Não me interessa”.

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