Petra Costa: “O cinema que me interessa é aquele que entra onde incomoda”

“Apocalipse nos Trópicos” é o filme de abertura do Porto/Post/Doc (22-30 novembro)

(Fotos: Divulgação)

Em 2023, a norueguesa Tonje Hessen Schei, juntamente com o norte-americano Michael Rowley, entrou pelo mundo dos movimentos evangélicos e fundamentalistas cristãos nos EUA, mostrando o seu poder nas escolhas internas da política norte-americana, mas igualmente a força nas relações externas, nomeadamente no conflito entre Israel e a Palestina. Como se viu em “Praying for Armageddon”, o Armagedão/Apocalipse é para eles uma certeza (desejável) e Jerusalém, que será o derradeiro campo de batalha, deve ser controlada pelo povo judeu. Tudo isto serão os precursores necessários para o fim dos tempos, quando os fieis cristãos serão “arrebatados” (levados para o céu) antes que a Terra seja destruída.

O olhar horrorizado que invade qualquer secularista ao ver esse documentário repetiu-se no visionamento de “Apocalipse nos Trópicos”, o mais recente filme da brasileira Petra Costa, que depois de “Democracia em Vertigem” – sobre a tensão política no Brasil com a Operação Lava Jato, que levou à prisão do ex-presidente, na época, Luiz Inácio Lula da Silva – regressou ao Palácio do Planalto, em Brasília, partindo daí para mostrar como os evangélicos brasileiros tentam a todo o custo conquistar os três poderes no Brasil, ou seja, o Executivo, o Legislativo e o Judiciário. E esse jogo de chegar ao poder começa junto do povo, num “processo de sedução dos pobres e na oferta de respostas simplificadoras”, especialmente conquistando as periferias das grandes cidades.

Também vi o ‘Praying for Armageddon’ e é aterrorizante”, explicou Petra Costa ao C7nema, numa entrevista por ocasião da exibição do seu mais recente projeto na noite de abertura do Porto/Post/Doc. “Quando estava a fazer ‘O Democracia em Vertigem’, filmei duas das cenas que estão no início deste ‘Apocalipse nos Trópicos‘: a benção das mesas do congresso, em que a solução para o Brasil seria um governo dirigido por Deus. Eles pedem para tomar conta dos 3 poderes. Essa frase ficou comigo. Nunca imaginei ver uma reza para que Deus tomasse conta dos 3 poderes. E ainda menos pensei ver essa profecia a realizar-se. Assusta-me muito e é um risco real no Brasil e EUA. Se isso não for interrompido, estes países caminham para a teocracia. Nunca imaginei que a democracia estaria tão em risco.”

A realizadora do inesquecível “Elena” e “Olmo e a Gaivota” já tinha dado em Veneza, aos jornalistas, as bases para este seu novo projeto, cuja “primeira camada era usar o cinema direto, que acompanha esta fusão entre religião e política. Depois, havia uma camada mais filosófica e principalmente teológica no estudo do termo Apocalipse; o que significa agora e como evoluiu ao longo dos séculos. (…) A outra camada era uma contemplação da democracia onde Brasília, uma das capitais mundiais mais cinematográficas, serviria como metáfora.

Assumindo que ninguém se deve paralisar com o medo de agir no que toca a lutar contra este problema, e que, como cineasta, o cinema que lhe interessa fazer é aquele que “entra onde incomoda”, Petra – que em 2020 nos disse que “a política brasileira tinha superado a escrita do argumentista de House of Cards”-  mostra-se preocupada com a recente releição de Donald Trump como Presidente dos EUA, mas este não é o único homem que lhe inspira desconfiança: “Muitos militares declararam off the record que não deram o golpe em 2022 no Brasil porque não havia apoio americano. Como será agora? E não digo apenas em relação ao Trump, mas também à chegada do Elon Musk, que se tornou uma força invisível das redes sociais, capaz de influenciar a democracia de um dia para o outro”.

Montado com recurso à criação de diversos capítulos, que a cineasta diz ter na mente desde o início, Apocalipse nos Trópicos foi acima de tudo construído na montagem e com os montadores, como aliás costuma acontecer nos seus filmes, a desenharem o produto final que o público portuense poderá ver já esta sexta-feira. Coube a Victor Miaciro, Jordana Berg, David Barker, Tina Baz, Nels Bangerter e Eduardo Grippa montar o filme de Petra, que não nos soube quantificar as horas e horas de material que reuniu para a execução do documentário. “Tínhamos uma infinidade de material. Depois, a Jordana Berg, que trabalhou com o Eduardo Coutinho desde o início, reduziu o filme para 4 horas. A partir dessas 4 horas pensámos como roteirizar e avançamos”.

A figura máxima deste documentário, ou antes, aquele que mais se destaca pela forma como usa as câmaras para passar a sua mensagem, é mesmo o  televangelista e escritor Silas Malafaia, que encontrou no bairro da Penha, nos subúrbios do Rio de Janeiro, o quartel-general para disseminar as suas ideias, ampliadas pela presença em médias digitais. “Um dos pastores que falamos, que era negacionista e dizia que Jesus ia curar o Covid, tinha como principal inspiração o Silas Malafaia. Isso levou-nos até ele. Chegamos a ele através de uma jornalista que o regista o desde 2014 e com quem tem uma forte relação. O Malafaia gosta de falar com a imprensa, por isso foi fácil aceder a ele”, disse a cineasta que, em Veneza, já tinha explicado como procurou seguir a questão da relação entre democracia e fé, esclarecendo os termos: “Pensamos que a fé é algo simplesmente espiritual, mas no caso da democracia, a fé é o seu cimento. O que tem acontecido no mundo é que as pessoas têm perdido fé na democracia por várias razões. Uma delas é porque a democracia foi sequestrada pelo capitalismo pouco regulado. Fizemos duas descobertas que podem parecer contraditórias, mas não são. Uma é a necessidade por parte das pessoas de espiritualidade e religião nas suas vidas. E a outra é a separação entre estado e religião. O desafio que temos é o de coexistir com estas duas realidades”.

Esperando não regressar a esta temática no futuro, mas com medo que tal aconteça, Petra Costa prepara já um novo projeto, que define como um híbrido. “Brinco que ele é um western, pois vou tratar a questão da terra no Brasil. Mas é uma história mais íntima”, confessa.

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