Cinco anos depois de “Democracia em Vertigem”, sobre a tensão política no Brasil com a Operação Lava Jato, que levou à prisão do ex-presidente, na época, Luiz Inácio Lula da Silva, Petra Costa está de regresso, novamente em parceria com Moara Passoni, com um novo documentário, “Apocalipse nos Trópicos”, que estreia nesta quinta-feira (29 agosto) na 81ª edição do Festival de Cinema de Veneza, fora de competição.
Investigando a ligação entre religião e política no seu país, em particular os desígnios religiosos evangélicos, e a sua força de penetração na sociedade brasileira, Petra Costa tinha desde o início algumas ideias bem claras. “Este filme tinha de ter três camadas”, disse hoje a realizadora do inesquecível “Elena” aos jornalistas em Veneza. “A primeira camada era usar o cinema direto, que acompanha esta fusão entre religião e política. Depois, havia uma camada mais filosófica e principalmente teológica no estudo do termo Apocalipse; o que significa agora e como evoluiu ao longo dos séculos. (…) A outra camada era uma contemplação da democracia onde Brasília, uma das capitais mundiais mais cinematográficas, serviria como metáfora.”

Da construção de Brasília à sua “destruição“, pelo meio descobrimos que os arquitetos que desenharam a cidade, primeiro planearam uma Igreja junto ao Palácio. “Depois, com a intenção de elevar a República e o secularismo, apagaram a Igreja, e agora planeiam novamente juntar as duas”, explicou Petra, desenvolvendo no processo uma investigação em torno da palavra Apocalipse: “Jesus vai voltar quando acontecer o Apocalipse e temos pessoas no Brasil, e nos EUA ainda mais, que rezam por ele. Pessoas que acreditam que quanto mais depressa o mundo acabar, mais depressa Jesus regressa. Essas pessoas apoiam líderes como Trump e Bolsonaro porque acreditam que isso vai acelerar o processo”.
Explicando como surgiu a ideia que originou o filme, Petra regressou a 2016, quando se instalou a crise. “Quando em 2016 sentimos que o Brasil estava a entrar numa crise democrática com o impeachment da nossa presidente, Dilma Rousseff, eu e o João Atala, o diretor de fotografia, decidimos ir a Brasília para tentar entender o que estava a acontecer, não apenas à nossa democracia mas às democracias mundiais. Quando chegamos ao congresso brasileiro, em vez de encontrarmos congressistas a discutirem a política e a crise, demos com um pastor congressista a pregar e, juntamente com um grupo de seguidores, a abençoar as cadeiras do congresso. Perguntei-lhe o que ia acontecer com a democracia brasileira. Ee respondeu que a única certeza é que seria estabelecido um governo de Deus e os verdadeiros crentes seriam designados em posições de autoridade. Deu-me a Bíblia para a mão e pediu-me para eu aceitar Jesus. Esse momento foi como um despertar para mim sobre até que extensão o fundamentalismo religioso tinha penetrado nas nossas instituições. Só quatro anos depois decidimos investigar a fundo a questão. Estávamos na pandemia, quando a palavra Apocalipse e o discurso evangélico tornou-se omnipresente. Aí decidimos fazer este filme, tentando perceber o que está por trás deste casamento entre o fundamentalismo religioso evangélico e a política”.

Afirmando que vê todos os seus filmes como road trips, Petra diz que nesta viagem procurava seguir a questão da relação entre democracia e fé, esclarecendo os termos: “Pensamos que a fé é algo simplesmente espiritual, mas no caso da democracia, a fé é o seu cimento. O que tem acontecido no mundo é que as pessoas têm perdido fé na democracia por várias razões. Uma delas é porque a democracia foi sequestrada pelo capitalismo pouco regulado. Fizemos duas descobertas que podem parecer contraditórias, mas não são. Uma é a necessidade por parte das pessoas de espiritualidade e religião nas suas vidas. E a outra é a separação entre estado e religião. O desafio que temos é o de coexistir com estas duas realidades”.
Também presente na conferência de imprensa em Veneza estava Alessandra Orofina, que trabalhou na escrita e acrescentou que além de se estudar a ligação da religião na política e sociedade brasileira, não se seguiu apenas o olhar pelo institucional, mas a ligação aos fiéis e à comunidade: “O que descobrimos é que existe uma dualidade de papéis na sociedade brasileira. Por um lado a importância desses líderes religiosos na ajuda à sobrevivência das pessoas, mas simultaneamente como eles eram usados pelo governo que tivemos no passado para validar a estratégia do governo para lidar com a pandemia, que ia em sentido contrário ao que as autoridades de saúde aconselhavam”.

