Ainda não há datas ou informações dos bastidores ligadas a “Distanzen”, um projeto de ficção que o austríaco Ulrich Seidl vai filmar na esteira de toda a polémica gerada por “Sparta” (2022), a sua longa-metragem anterior, ao assumir um potencial pedófilo como protagonista. Apesar do risco de cancelamento que o realizador sofreu à época, o Festival de San Sebastián não retirou a produção da sua mostra principal, em disputa pela Concha de Ouro e blindou o cineasta de ataques mediáticos. Não é à toa que ele está de volta ao evento basco, agora no posto de jurado da seleção oficial, presidida pela espanhola Jaione Camborda.
Em terras ibéricas, o seu nome ainda é sinônimo de prestígio autoral – e de controvérsia. Embora recuse ser associado à estética da provocação e evite a palavra “ironia“, Seidl é um mestre na arte de causar desconforto desde a estreia, em 1980. Filmes como “Import export” (nomeado à Palma de Ouro de 2007) e a trilogia Paradise deram-lhe o selo do incómodo, ao mesmo tempo que consagraram a sua forma refinada de construir planos. Lançado no Festival de Berlim de 2022, “Rimini” foi o seu mais recente sucesso na realização. A sua carreira paralela, como produtor, tem ainda mais êxitos, como “The Devil’s Bath“, premiado na Berlinale, em fevereiro. Na entrevista a seguir, no Hotel Maria Cristina, em Donostia, Seidl, hoje com 71 anos, fala ao C7nema sobre o olhar reativo que a sua obra tem sobre o Velho Mundo.

De que maneira a linha irónica da sua obra irrita a “patrulha da correção política”?
Não reconheço a ironia como marca pessoal e se há um traço cómico nos meus filmes, ele vem do realismo. A vida pode ser engraçada às vezes e as histórias que conto refletem isso. É como um espelho.
Que preço paga por contar histórias repletas de tabus como “Sparta”?
Não fazes filmes se levares em conta que pode chatear alguém com o teu ponto de vista. Tento mostrar o que é importante na sociedade sem me preocupar se isso pode ser perigoso ou não. “Sparta” é um filme ligado a um tema tabu e, por isso, as pessoas terão opiniões sobre ele. Não deixo de filmar por medo.
No seu trabalho como produtor, qual costuma ser o orçamento dos seus filmes?
“Sparta”, por exemplo, custou cerca de € 4,5 milhões. Sigo com projetos entre € 3 milhões e € 5 milhões. Tive sorte de ter tido sucesso em alguns títulos. Como produtor criativo, tento tornar ideias possíveis e levá-las ao mundo.
A próxima ideia a ser lançada é “Distanzen”. O que esperar desse filme?
É uma ficção sobre o chamado “dark tourism”, o turismo de quem visita áreas marcadas por tragédias e genocídio. O projeto está ainda em desenvolvimento.
Espera-se entretanto que ele vá falar da Europa e que traga o seu olhar sobre um continente que, nos seus filmes, transbordam a provocação social, sobretudo na linha de “Sparta” e “Rimini”, que trazem figuras masculinas em fase de colapso. Que perspetiva traz para os seus retratos sobre a masculinidade?
A Europa hoje vive muitos problemas, incluindo alguns que só podem ser resolvidos numa escala global, como a crise climática. Há, contudo, uma busca por figuras fortes, num contexto político em que o Poder segue na mão de homens velhos. Os homens dos meus filmes mais recentes são bem diferentes entre si. Em “Sparta”, vemos um sujeito que carrega uma sombra. Em “Rimini”, há uma pessoa fora do seu tempo, chauvinista. Cada um tem o seu perfil. No geral, o que vejo é uma situação difícil para os homens mais jovens, que diferem dessas duas personagens. Essa dificuldade vem do facto de o controle do mundo seguir com velhas figuras.

