Depois de ter dado nas vistas em 2018 com “The Devil’s Doorway“, um filme found footage construído a partir da ida de um padre do Vaticano para investigar um alegado milagre num Asilo de Madalena na Irlanda, Aislinn Clarke prossegue no género do horror, desta vez seguindo a tradição do “folk horror” no seu mais recente “Fréwaka”.
Passado novamente na Irlanda e falado em gaélico, “Fréwaka” (cujo título provém da palavra “fréamhacha”, que significa raízes) segue de perto Shoo (Clare Monnelly), uma cuidadora que se dirige a uma aldeia remota para cuidar da agorafóbica Peig (Bríd Ní Neachtain). Poderia ser uma viagem tranquila e uma tarefa fácil, mas Peig tem pavor das “Na Sídhe”, entidades sinistras que ela acredita terem-na raptado décadas antes. À medida que as duas desenvolvem uma ligação mais profunda, Shoo começa também a confrontar-se com horrores do seu próprio passado.
Aproveitando a estreia de “Fréwaka” no Festival de Locarno, o C7nema esteve à conversa com a realizadora Aislinn Clarke.
O dito “Folk Horror” tem ganhado grande visibilidade nos tempos mais recentes. Como pode o seu filme contribuir para este subgénero?
Tal como a maioria dos países, a Irlanda tem o seu folclore, mitologia e tradições que são únicas. Não é apenas no cinema de horror, mas com qualquer tipo de filme podemos ter acesso a outras culturas e experiências. Nós temos histórias e pessoas muito estranhas e contorcidas no nosso país, por isso este filme era uma boa oportunidade para falar delas.
Sei que tem alguns projetos na manga que não são de horror. Porque escolheu esse género para contar esta história?
Adoro cinema de horror e passei a minha vida a ver filmes deste género. O meu primeiro filme, “The Devil’s Doorway”, era de horror e, como acontece frequentemente, a equipa de vendas da produtora queria outro filme de horror. Certamente vou fazer mais filmes de horror, mas tenho pretensões de embarcar noutros projetos que não serão tão declaradamente de horror. É estranho sermos categorizados por um género de filmes como se fosse um estilo de vida. Mais importante que isso, para mim, é pensar se sou capaz de dar vida a uma história. A meu ver é natural a Irlanda seguir essa rota já que temos um grande historial de traumas que faz com que o cinema de horror seja algo natural.
E qual foi o ponto de partida para este “Fréwaka”?
Bem, eu sabia que ia fazer um filme de horror na Irlanda. Partindo daí, pensei na história que podia contar tenho como princípio o uso do gaélico. Teria de ser forçosamente uma história muito irlandesa.
Mas, para além de abordar o trauma, coloca em cena o folclore local e histórias de violência contra as mulheres na Irlanda. Como foi o trabalho de juntar estes elementos?
De certa maneira, tudo isso já se cruza na história da Irlanda. Por exemplo, as fadas, que chamamos de Aos Sí, aparecem em todo o lado, até em desenhos animados, e elas querem que a gente sofra. O que fiz foi mostrar o meu entendimento sobre elas. No fundo, elas serviram de ferramentas para eu tocar nos temas do trauma e do deslocamento. Trauma, superstição e folclore estão para mim unidos na Irlanda, por isso senti sempre naturalidade em lidar com os três.
Cada frame do seu filme parece criteriosamente pensado em termos do design de produção. Como decorreu a investigação a todos esses elementos e depois colocá-los em cena, criando uma iconografia muito própria?
Este filme foi feito com um orçamento muito limitado, mas a Nicola Moroney fez um trabalho maravilhoso nessa área. Tive muita sorte em diversos elementos, como por exemplo na escolha do sítio onde filmámos. Nunca ninguém lá tinha filmado antes, algo que é muito raro na Irlanda. No fundo, era uma área esquecida e perigosa até há pouco tempo, por isso tivemos sorte nisso. Com as limitações orçamentais e filmagens de apenas 20 dias, filmas como podes e com o que podes. Por isso é muito importante escolher os técnicos que confias realmente.

O filme vai variando entre um horror que se entranha lentamente, mas também apresenta os tradicionais sustos imediatos. Como balanceou os elementos juntamente com a fotografia, montagem e som?
O filme tem essa atmosfera entre o que é real, mesmo que sobrenatural, e o imaginado, que está apenas na mente das personagens. Há momentos puramente psicológicos, como as sequências de sonhos, e outros onde surgem os jump scares sobrenaturais. Todas essas cenas, penso que funcionam como cenas de horror, mesmo que se passem na mente dela.
Um elemento essencial foi o trabalho sonoro, nomeadamente a banda sonora. Muitas vezes, nos filmes de terror, as pessoas simplesmente esquecem a música, mas a meu ver temos de proteger esse elemento. É muito importante que a audiência entre dentro daquilo que estamos a contar. É algo quase num nível subliminar. Se o som não funciona, a cena de horror pode não funcionar. Aqui tivemos a Die Hexen na composição da banda-sonora, alguém com quem gosto muito de trabalhar, até pela sua forma de abordar as coisas. Às vezes parece quase bruxaria (risos), sem nunca abordar os temas de forma triste. Falamos muito sobre os nossos traumas culturais e usámos muitos instrumentos irlandeses para chegar aos temas. A verdade é que o seu trabalho revela-se crucial para a criação da tensão.
Na verdade, tive muita sorte com todas as pessoas que trabalharam no filme, desde o montador John Murphy, passando pelo diretor de fotografia, Narayan Van Maele, a compositora, Die Hexen, e a Nicola Moroney, no design de produção.
E quanto às atrizes? Era necessário criar entre elas uma forte química em crescendo. Como foi o seu diálogo com elas para darem vida aquelas personagens?
Também tive sorte. A Irlanda é um país pequeno e não existem muitas atrizes e ainda menos as que sabem falar gaélico. A Clare Monnelly foi encontrada numa fase inicial do projeto e, quando estava a escrever o guião, já pensava nela. Mas era importante as duas funcionarem juntas. Falámos bastante, até porque os atores que nunca atuaram antes num filme de horror pensam muitas vezes que existe uma forma específica de atuarem. No fundo, qualquer ator tem de encontrar a verdade. Discutimos isso, quem era aquela gente, o que as coisas significam e porque as personagens agem assim. A química surgiu disso, pois antes das filmagens nunca se tinham conhecido. No set de filmagens deu-se o clique.
Tem algum novo projeto?
Sim, tenho sempre muitos (risos), resta ver qual avança primeiro. Tenho um sobre a última mulher a ser condenada por bruxaria no Reino Unido, a Helen Duncan. Estou a trabalhar com o Studio Canal para o desenvolver. E tenho outro projeto na Paramount.

