Sete anos depois de exibirem na Semana da Crítica do Festival de Veneza “Il Cratere“, a dupla de cineastas italianos Silvia Luzi e Luca Bellino regressa, na corrida ao Leopardo de Ouro em Locarno, com “Luce”, um drama sobre solidão e alienação que tem no centro uma jovem de vinte e poucos anos (Marianna Fontana) que trabalha numa fábrica de peles, numa cidade do Sul de Itália, “e sente a necessidade de preencher uma ausência na sua vida“.
Essa ausência, esse vazio, será preenchido por uma voz no seu telefone, isto depois dela, através de um drone, enviar um dispositivo sobre o um muro de uma prisão, na esperança de que o aparelho chegue ao pai. Quando, um dia, o telefone toca, a conversa entre esta jovem e um homem misterioso (Tomasso Ragno) marca o início de uma estranha relação, a qual vai preencher o vazio que ela sentia.
“É uma condição global do mundo em que vivemos. Temos uma vida física, mas temos uma vida social baseada nos media. Hoje em dia, vivemos dois tipos de vidas: uma real, outra imaginária”, explicou ao C7nema Luca Bellino.“Esta mulher quer escapar da sua condição de isolamento e alienação. Uma alienação semelhante à nossa, que passamos oito ou dez horas em frente a um monitor.”

“Mas é um filme também sobre dignidade”, acrescentou Silvia Luzi, evocando as referências laborais do filme, algo que acompanha desde sempre a cinematografia da dupla: “Estamos numa fábrica, temos uma linha de produção e isso reflete a nossa sociedade e a alienação que surge com as atividades laborais, em particular do trabalho que ela rotineiramente faz. (…) Frequentemente investigamos as condições do trabalho e a classe trabalhadora. Neste caso, era muito importante a fábrica em que ela trabalhava. Uma fábrica de peles que, por si só, tem logo algo de violento nela”.
No centro do projeto da dupla estão igualmente as relações de poder, materializadas em diversas figuras, do estado (afinal temos uma prisão em destaque) ao patrão da jovem, não esquecendo a família e o (alegado) “pai”, que surge do outro lado da linha do telefone. Sobre essa voz, Luca explica-nos: “Esta voz tinha de ser muito ambígua. Poderia ser o pai dela, ou talvez o patrão. Era um elemento simbólico e por isso não procuramos apenas uma boa atuação vocal ou alguém com um tom de voz específico. Tinha de ser uma voz que transmitisse muitas nuances”.
Sobre o seu método de trabalho, a dupla conta-nos que começa com um guião que funciona como um esboço, ao qual – ao longo dos ensaios – são acrescentados e apurados elementos. “A única atriz profissional do filme, a Marianna Fontana, aceitou trabalhar dois meses na fábrica sem que ninguém à sua volta soubesse que ela era atriz”, conta-nos Luca. “Durante esses meses, fomos fazendo o casting das outras personagens junto a não-atores. Passado esse tempo, começámos os ensaios e adaptámos o guião com as palavras que os trabalhadores nos foram dando ao longo do tempo. As filmagens depois prosseguiram em sequência, mas à medida que íamos rodando fomos apetrechado o guião. Tivemos muita sorte que a Marianna tenha aceitado seguir este método de trabalho, pois, como deve imaginar, não é fácil uma atriz trabalhar com não-atores. Mas uma vez que filmamos, não existe improvisação”.
“Mas é fantástico trabalhar com não-atores”, adiciona Silvia, confessando que foi a primeira vez que seguiram esse método. “O cinema que procuramos é mais sensorial e não tanto agarrado ao texto. Queremos que a audiência viva uma experiência”, remata Luca, acrescentando Sílvia: “Queremos que tudo se sinta real, mas nem todo o real é verdadeiro”.
O Festival de Locarno prossegue até ao dia 17 de agosto.

