pedágio
pedágio (pe·dá·gi·o)
nome masculino
1. Tributo de passagem por uma ponte.
2. [Brasil] Taxa cobrada pela utilização de estruturas destinadas ao transporte, como auto-estradas, pontes, etc (ex.: o pedágio subiu). [Equivalente no português de Portugal: portagem.]
“pedágio”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2024, https://dicionario.priberam.org/ped%C3%A1gio.
A longa-metragem mais laureada da competição oficial pelo troféu Redentor da Première Brasil 2023, com prémios de Melhor Atriz Secundária, Ator, Atriz e Direção de Arte, “Pedágio” chega às salas nacionais com a fama de ser uma cartografia das arbitrariedades do preconceito arraigado na sociedade latino-americana. A sua realizadora, Carolina Markowicz, foi homenageada no Festival de Toronto, no dia 10 de setembro, com o Tribute Awards, na categoria Talento Emergente. Duas semanas depois, encantou os Horizontes Latinos do Festival de San Sebastián com o olhar irreverente sobre os pecados morais do Brasil (entre eles o crime da homofobia). Um ano depois de ter brilhado mundialmente com “Carvão”, ela brilha com um devastador retrato do conservadorismo brasileiro. Maeve Jinkings tem um desempenho arrebatador no papel da mãe solteira Suellen, que trabalha numa portagem, que resolve submeter o filho adolescente a um processo de cura gay. O rapaz é vivido por Kauan Alvarenga, estrela da curta-metragem que deu à realizadora a Queer Palm de Cannes, em 2018: “O Órfão”.
Na entrevista a seguir, Carolina explica ao C7nema o retrato da hipocrisia que construiu.

De que maneira a Première Brasil, que acolheu “Carvão” em 2022, preparou o terreno para a estreia comercial de “Pedágio” na América do Sul e de que forma a vitória no evento pode reverberar o debate que o filme propõe?
Acho que a passagem por festivais, seguida pela estreia, traz a discussão do filme à tona. Tivemos a sorte de ambos os filmes, “Carvão” e “Pedágio”, terem estreias mundiais e nacionais com muito êxito, o que gerou interesse no filme. O debate que o filme propõe é, infelizmente, muito atual. Há duas semanas, havia um deputado falando sinónimos de órgãos genitais para desmoralizar a população trans na câmara. Menos de uma semana atrás, uma influencer lésbica bolsonarista suicidou-se após passar por uma suposta cura gay. É tanta contradição e retrocesso que esta conversa se mostra urgente a cada dia que passa, embora devesse ter ficado obsoleta na Idade Média.
Qual é a sensação profissional e afetiva de acompanhar a evolução de Kauan Alvarenga no seu crescimento e na sua aposta no cinema como veio de expressão?
É lindo acompanhar a evolução profissional e pessoal de um ator com o carisma e talento de Kauan. Vendo o seu amadurecimento desde o “O Órfão”, em que tinha 13 anos, até “Pedágio”, já com 18, posso dizer que uma das suas principais qualidades é a irreverência que o leva a caminhos tão naturalistas. É uma qualidade que, cada vez mais, domina.
O que encontra de poético, de santo e de louco nesses mundos fronteiriços de mato, estrada e cidade onde ambienta os seus filmes? De que forma a cabine do pedágio do filme é, em si, uma personagem?
Sempre fui fascinada por pedágios e as pessoas que lá trabalham. É muito intrigante pensar em uma pessoa que interage com milhares de pessoas por dia, mas está ao mesmo tempo claramente isolada. É poética essa contradição. De uma certa maneira, remete-me à solidão dos nossos tempos. Da vida online, inclusive. Onde você tem a companhia de todos e de ninguém. Sou uma apaixonada por locações reais. Tento sempre usar ao máximo da verdade delas, do local. Acho que tem outra textura, a textura da verdade. Portanto, creio que as locações, na melhor das hipóteses, interferem tanto na história e nos personagens humanos que acabam, sim, sendo personagens.

