Carolina Markowicz põe fogo no ‘Carvão’: “A nossa cultura e cinema estão sob grande ataque”

(Fotos: Divulgação)

Vencedora da Queer Palm de Cannes, em 2018, com a curta-metragem O Órfão, a cineasta Carolina Markowicz foi a voz do Brasil na seleção competitiva dos Horizontes Latinos de San Sebastián, que conhecerá os seus vencedores neste sábado. Mas uma vitória – singular – já é dela: a quebra dos códigos formais de representação do seu país nas telas.

A realidade brasileira retratada pela realizadora em “Carvão” é fria, com pessoas encasacadas, cobertas por mantas grossas. É uma geografia que a realizadora foi buscar em Joanópolis, interior de São Paulo – uma pequena cidade perto de Bragança Paulista, onde cresceu. Há, ainda, uma pequena parte da longa-metragem ambientada na Argentina e, este segmento, foi filmado em um trecho de Puerto Iguazu. Na trama, Maeve Jinkings vive Irene, dona de uma carvoaria, ao lado de um marido de pouca força de vontade, Jairo (Rômulo Braga), que aceita hospedar um hermano em casa. Mas o homem, vivido por Bordón, tem um crime no seu currículo, tornando a sua presença ali um perigo para todos, sobretudo para o filho pequeno de um casal.

Na entrevista a seguir, Carolina explica ao C7nema qual o retrato da América do Sul que construiu.   

     
O seu cinema trucida os lugares comuns do género masculino, pelo menos desde “O Órfão”. O quanto desse “trucidar” é consciente na concepção do mundo rural de “Carvão”? O que veio de reflexões prévias (mais generalistas sobre o seu país) e o que pode ter vindo das pesquisas?

Os espaços socialmente designados ao feminino e ao masculino me fascinam. É mais um dos tantos teatros socialmente impostos. Cresci no interior e era quase sempre embaraçoso quando uma mulher de uma “certa idade” era solteira, ou separada. Durante a sua vida, era cobrada a existência de um homem, de um chefe de família. Quantas mulheres são “chefes de família”, com ou sem marido em casa? Quantas, inclusive, desempenham o papel provedor mas que no âmbito público são impelidas à chancela da existência de um marido. Muitos casais que pouco se falavam, mas, mantinham o matrimónio, porque a família deve permanecer unida. Manter uma relação gay, então… em alguns lugares é mais aceitável ser um assassino (ou estar morto, conforme o presidente brasileiro já disse). Acho que são reflexões fundamentais para o momento e creio que essa inversão do lugar comum de género talvez ajude a suscitar debate.

O que um festival como San Sebastián te traz de mais surpreendente acerca do que se pensa sobre cinema… e sobre o Brasil… no exterior?

Fico aliviada que as pessoas entendam a situação periclitante em que estamos, e saibam que a nossa cultura e cinema estão sob grande ataque e risco. Porém, é claro que um festival é uma bolha, composta por pessoas que amam cinema e sabem da importância da cultura. Mas, é interessante ver como as metáforas e mensagens do filme são prontamente interpretadas com relação ao que estamos vivendo. Em Toronto, onde tivemos nossa estreia mundial em competição, teve uma pergunta muito interessante: “existe uma diferença de olhar quando a plateia brasileira assiste ao filme, em relação a como nós, estrangeiros, assistimos ao filme?”. Ou seja, o sentimento ao ver o Brasil retratado no filme será mais duro do que por vezes satírico, já que, nessa tragédia, somos nós que estamos imersos? Confesso que também estou curiosa para descobrir.


Você tem uma outra longa-metragem rodada já, não? O que é? Do que fala? Para quando?

Tenho, sim. Chama-se Pedágio. Estava desenvolvendo há anos Carvão e Pedágio, até que veio a pandemia e embaralhou o mundo, que dirão os planos…Assim, devido a agenda de alguns atores e do fotógrafo, tive que filmá-lo também ano passado. Maeve também o protagoniza, junto com Kauan Alvarenga, o ator principal de “O Órfão”. Aline Marta, que faz a enfermeira Juracy em “Carvão”, também é uma das principais atrizes do filme. A história trata de uma mãe, cobradora de pedágio, que não aceita a sexualidade do filho e acaba pensando em uma maneira ilícita de levantar dinheiro para pagar por uma “cura” ministrada por um pastor em visita à Cubatão – cidade industrial perto de São Paulo, onde o filme se passa – para esse fim. O filme deve estrear ano que vem.

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