Já com uma curta na bagagem e uma passagem pela Semana da Crítica em 2015 com a longa-metragem “Apnée”, Jean-Christophe Meurisse regressou a Cannes em 2021, agora nas Sessões da Meia-Noite, com uma nova crítica ácida a França, partindo de um trio de fait divers que deliciaram os jornais durante semanas, e que o cineasta trata no seu “Laranjas Sangrentas” com muito humor negro.
No filme, que vai chegar ao Cinema Ideal em Lisboa já dia 9 de junho, seguimos três histórias que se cruzam num filme mosaico onde o foco é um casal de reformados assoberbados em dívidas que tenta ganhar um concurso de dança; um ministro da Economia suspeito de evasão fiscal; uma jovem em confronto com um agressor sexual; e um advogado que tenta subir na hierarquia social.
Foi em Cannes que nos sentámos à mesa com Jean-Christophe Meurisse, o qual nos revelou que nos seus filmes tem sempre de haver uma crítica social e política ao estado francês. E mais. Para ele, “a maior homenagem que um cineasta pode fazer ao seu país é criticá-lo“.
Quais as suas inspirações para as três histórias que encontramos neste “Laranjas Sangrentas”?
Antes demais tenho uma grande paixão por filmes corais e filmes-mosaico. Ao mesmo tempo sou um apaixonado por fait divers que fazem chegar até nós monstros. O primeiro fait divers que me inspirou veio dos EUA: em 2015, uma jovem que obrigou o homem que a agrediu a comer os próprios testículos, cozinhados no micro-ondas. Quando li isso apenas pensei: que será que acontece a uns testiculos quando cozinhados no micro-ondas (risos)? Será que explodem e espalham-se por todo o lado? Bem, esse fait divers foi a peça fundadora do filme. Mas houve outros fait divers que me inspiraram. Depois de 2010, houve uma vaga de reformados que se suicidou por causa das dívidas. Alinhado a isto, a crise económica gerada pela fraude, que mexeu com todos os bancos e países, chocou-me. Juntei isso tudo a um concurso de rock.
E agrada-lhe trabalhar no cinema de género ou o que lhe apraz é experimentar vários géneros?
Não tenho particular apetência pelo cinema de género. O que gosto é de fusão. O filme começa como comédia, entretanto surgem temas sociais e políticos, depois o horror, mas também o romance. O filme é um verdadeiro camaleão, pois vai mudando de ‘cores’ durante o seu percurso.
E essa forma camaleónica também atinge a estética. Era importante também ir variando nesse arranjo visual? É uma pessoa em constante experimentação?
Sou e bastante. Para mim cada sequência é um filme, uma curta-metragem. Em algumas cenas, o guião está totalmente escrito, mas outras são completamente improvisações. Os décors são pictóricos e os movimentos de câmara estudados e elaborados individualmente. Cada cena é um filme novo. Estou um pouco a lixar-me para o que chamam de unidade e do conceito uniformizado da estética.
E que influências têm para o seu trabalho? Que cineastas o inspiram?
Eu e o meu cinema somos uma mistura de muitas coisas, muitas inspirações, de Pialat a Tarantino, de Rohmer a Tarkovski, ou até Roy Andersson. São muitos géneros com que lido e tento juntar num filme. (…) Quando falei à bocado da improvisação, por exemplo, o que me interessa não é isso por isso. O que me agrada é que num quadro extremamente narrativo, as improvisações e a reinvenção das palavras coloca todos os presente num registo de atuação naturalista e acidental. Por exemplo, numa cena no fim com a personagem do Alexandre (Steiger), ele deixa de atuar. Não sabemos bem porque parou, ou talvez parasse porque a personagem está cansada. É isso que me interessa e para conseguir isso temos de deixar os atores livres.
Foi no teatro que aprendi a dirigir os atores. No teatro não há grande escolha, uma cena é num espaço e ponto final. Frequentemente, são os atores que fazem o Teatro. O que me agrada no cinema, em relação ao teatro, é o jogo existente entre as personagens e os atores. Foi o teatro que me ensinou a lidar com os atores e é por isso que, quando chego ao cinema, não tenho medo dos atores. E no teatro temos figuras, no cinema personagens. Não estamos no mesmo tempo.
Voltando ao filme, pode explicar o título “Laranja Sangrentas”? É que me levou a outros títulos como “Tomates Assassinos”…
(risos)… Bem, ainda vamos a tempo de mudar para esse nome. Gosto de títulos bizarros e muito pouco explícitos. Gostava da sonoridade. É um título musical… (risos). Na verdade somos todos laranjas sangrentas. Doces na aparência exterior, mas escuros por dentro. “Laranjas Sangrentas” é uma forma de mostrar as máscaras sociais e o delírio. Quando conto histórias há sempre um esboço político. Mesmo que ame os humanos, filmo monstros. E filmá-los permite-me fazer uma crítica social e política ao meu país. Sinceramente acho que a maior homenagem que um cineasta pode fazer ao seu país é criticá-lo.
E já tem um novo projeto? Vai continuar no teatro igualmente?
Sim, tenho um novo filme, mas não posso falar dele. O meu produtor não deixa (risos). Mas posso dizer que terá algumas caras que vimos neste filme, mas também uma nova geração. Para mim é tão importante ir vagueando na minha carreira entre géneros como trazer novos rostos para o cinema. E vou continuar também no teatro, claro.
E quando faz um filme pensa nas salas de cinema ou também nas plataformas de streaming.?
Penso em cinema. Streaming para mim não é cinema. O cinema como cinema é liberdade, é independência. Quando fazes um filme para a Netflix existe sempre uma mão invisível no teu projeto a dizer o que fazer.
Sim, mas Hollywood também é assim…
Sim, quase… Mas Hollywood, de tempos a tempos, solta um monstro. É verdade, lançam todos aqueles filmes formatados, mas de vez em quando deixam um “animal” solto que é a coisa mais genial de sempre. Para mim, essas plataformas não são o cinema. É tudo condicionado.



