Rita Azevedo Gomes: “concursos e festivais são a parelha que regra esta coisa toda do cinema”

"O Trio em Mi Bemol" estreou nos cinemas a 1 de dezembro

(Fotos: Divulgação)

Estava programado para estrear em Roterdão, mas teve a sua primeira exibição mundial em Berlim. “O Trio em Mi Bemol“, o novo filme de Rita Azevedo Gomes, estreou nas salas nacionais.

Adaptando uma peça escrita por Éric Rohmer, a responsável de filmes como “O Som da Terra a Tremer”, “Frágil Como o Mundo” e “A Vingança de Uma Mulher” põe em cena Pierre Léon e Rita Durão como dois ex-amantes que, depois de uma relação terminada, se encontram, trocando diálogos e silêncios.

Foi na Berlinale que nos encontramos com a cineasta, abordando as dificuldades que encontrou para filmar este projeto. E falámos ainda de festivais de cinema, concursos e até de crítica cinematográfica.

Da última vez que esteve na Berlinale, com “A Portuguesa”, disse numa entrevista que se sentia “esmagada” pelo festival. Desta vez, ainda em ‘tempos Covid’, com menos imprensa, atividades, etc, ainda sente isso neste regresso?

Desta vez sinto o inverso, ou seja, que isso tudo não está presente. Há um vazio, sinto uma distância. Parece que estou fora do festival. Até nas pessoas que reencontramos…

Rita Azevedo Gomes

Sim, é tudo diferente, até no simples cumprimentar evitamos o toque. Pegando no seu filme, até que ponto a pandemia mudou a sua ideia original?

Mudou, pois andávamos todos metidos naquela coisa, no primeiro confinamento, em que ainda não percebíamos bem o que era isto. Bem, continua-se a não perceber bem, embora já saibamos melhor as coisas. O filme foi contagiado por isso. E foi na bolha do confinamento que conseguimos fazer qualquer coisa. Já tinha tentado concorrer ao ICA duas vezes com este filme, mas nunca tive subsídio. Desta vez também não tive, mas telefonei à mesma às pessoas para filmar; primeiro aos atores. Claro que existiram dificuldades, pela necessidade rápida de filmar: o Pierre Léon tinha um texto enorme e não tinha tempo; a Rita Durão não sabia falar francês e o texto também era enorme. Eles disseram que sim, mas existiram estas dificuldades. Depois tentei ver se os técnicos estavam livres. Felizmente estavam e juntaram-se a nós alguns jovens estagiários extraordinários da escola de cinema.

E como nasceu a ideia de passar esta peça de Rohmer para um filme?

Este filme vem de uma ideia anterior, de fazer um radio drama. Tinha uma série de peças e íamos encenar isto no Teatro do Bairro. Todos os atores vestidos normalmente para a peça, mas a fazer a gravação para a rádio, com todos os barulhos inseridos (vento, etc). Os atores gravavam ao vivo, e podíamos transmitir em diferido na rádio. Era um projeto que não cheguei a fazer porque comecei a preparar “A Portuguesa”, mas quando veio o confinamento e o meu apetite de fazer qualquer coisa, reli o “O Trio em Mi Bemol” e comecei a pensá-lo para cinema.

E a pandemia mudou de alguma forma a sua forma de ver o cinema e o seu trabalho daqui para a frente?

Eu não vejo cinema daqui para a frente (risos). Já estava afetado [o cinema], a pandemia agravou. Podemos ver tudo em digital. O que isto consolidou é que a partir deste momento as pessoas começam a aceitar que se calhar não é necessário ver filmes em sala, pois existem outras maneiras de terem acesso a eles. Lastimo que se vai perder a experiência da sala de cinema. Por exemplo, em Berlim, ouvi dizer que os programadores de outros festivais, dos grandes, não vieram cá por causa das condições da pandemia. Acho que a pandemia também serve chapéu de chuva para esconder algo mais: o virem cá implica um investimento monetário brutal.. “Para que é que vou mandar 5 programadores para Berlim se eles podem receber os filmes aqui?”, pensam. Tudo isto interfere e voltar atrás será difícil. Aliás, a partir do momento em que se começou a fazer festivais online, será muito difícil eles regressarem apenas em modo presencial. A maioria desses eventos será presencial e online.

Se o Festival de Berlim fosse virtual, o seu filme não estaria cá?

Não sei…

Não gosta do formato de festival virtual?

Não gosto. É um pouco triste um filme estrear num link. E passei por essa situação, que me deixou um amargo na boca. Antes de vir para Berlim, “O Trio em Mi Bemol” estava programado para Roterdão. Mas Roterdão, de repente, passou para o modo virtual. Estava contentíssima de ir a Roterdão, pois gosto imenso daquilo. Estive lá uma vez e adorei. Afetivamente sou ligada às pessoas e locais. Por isso, foi penoso ‘mudar a agulha’. Para mim e para eles. Tive de ter a cabeça fria e ouvi os amigos. Todos diziam que era melhor estrear o filme em Berlim.

O que me fez mudar de carruagem foi o facto de poder estrear o filme em sala. Mas custou-me muito dizer que já não ia a Roterdão, até porque foi tudoo em cima da hora. De certa maneira, esta atitude vai contra a minha forma de ser íntegra. Tudo vem destas regras que os festivais nos impõem, como a exigência da estreia mundial. Quando existem colisões entre festivais, a produtora que há em mim anula a realizadora, levando-me a tomar decisões nada fáceis.

Mas voltando à questão virtual, tendemos para uma substituição que não é igual. É como as drogas: tens a heroína e dão-te comprimidos para a substituir. Esses comprimidos aliviam o mal, mas não dão o efeito que se espera.

O Trio em Mi Bemol

Curiosa essa separação que fez entre a Rita Azevedo produtora e a realizadora. Noutras situações, como por exemplo o facto da Rita Durão não falar francês, nunca pensou em substituí-la?

Pensei que não sabia muito bem para onde ia, mas achei que ia funcionar entre a Rita e o Pierre, que se conheciam e fizeram uma cena juntos no “A Portuguesa”. Estava crente que iam criar um elo entre eles e tal aconteceu. Talvez tenha sido intuição.

Já falámos das mudanças nos festivais, mas este novo mundo virtual também se reflete na crítica de cinema, até porque muitos já só assistem a filmes em modo online. Como vê a critica de cinema hoje em dia?

Vejo como o mundo dos festivais. Às vezes tenho a impressão que escapa muita coisa boa e que há muitas correntes. Há também muito compromisso e pouca liberdade. Se toda a gente diz maravilhas de um filme, ninguém se atreve a contrariar, a dizer mal. Há menos atrevimento, menos disparates…

E menos riscos…?

Sim, muitos jornalistas vêm para um festival já com a indicação dos filmes que têm que ver/escrever. E se calhar, por causa disso, não descobrem outras coisas. E os festivais, que são importantes e a quem agradeço, pois expõem os nossos filmes, congregando as pessoas, por outro lado dão cabo disto tudo.

O Aleksandr Sokurov falou em algo semelhante há uns meses, quando me disse que os grandes festivais cada vez tomam menos riscos e apostam em filmes mais comerciais, no mercado. Também sente isso?

Sim. Ainda ontem estávamos a jantar e falámos da homenagem à Isabelle Huppert. Acho muito bem, mas depois pensei: será que um dia, na Alemanha, alguém vai se lembrar de homenagear a Edith Clever, uma atriz de exceção? E ela é alemã.

Há uma revista do festival que tem umas páginas dedicadas à presença da Isabelle Huppert no evento. Eles fazem um sumário dos realizadores com quem ela trabalhou, mas não falam do Werner Schroeter. E ele é alemão. Os papéis mais extraordinários da Huppert, na minha opinião, que vale o que vale, foram no “Deux” e “Malina” do Schroeter. Acho estranho não mencionarem isso. Mais que estranho, para mim é um sinal do que falamos.

E o que se segue na sua carreira?

Pois, o que se segue gostaríamos todos de saber. (risos)

Sim, mas há sempre concursos a acontecer, gestos que se querem levar ao cinema…

Gostaria de fazer mais filmes. Estou em alguns concursos. Mas isso é como os festivais. Aliás, [concursos] e festivais são a parelha que regra esta coisa toda do cinema. Mas mesmo sem[os] concursos, existem coisas que tenho para dizer. Para fazer. Tenho várias possibilidades…

Irá voltar a Rohmer, por exemplo?

Não… na verdade acho que neste filme nem fui ao Rohmer (risos). Não me tentei aproximar do seu cinema, pois isso era impossível. E nem queria. (…) Será outra coisa…

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