Tralala: Mathieu Amalric lidera musical da era Covid-19

Nos cinemas a 18 de agosto

(Fotos: Divulgação)

Raros são os filmes que conseguem reunir um naipe de atores e interpretações tão distintas e marcantes, mas a dupla de cineastas gauleses Arnaud Larrieu e Jean-Marie Larrieu juntaram no ecrã grandes nomes como Mathieu Amalric, Josiane Balasko, Mélanie Thierry, Maiwenn e Denis Lavant numa comédia musical que brilhou no Festival de Cannes e vai agora chegar aos cinemas nacionais.

Um dos filmes sensação, exibido na famosa sessão da meia-noite, o filme é uma rara incursão de uma dupla habituada a navegar entre géneros, seja o thriller criminal (O Amor é Um Crime Perfeito, 2013), a dramédia (Viagem aos Pirenéus, 2008) ou o drama puro (Pintar ou Fazer Amor, 2005). “Era uma ideia bem antiga”, disse-nos a dupla de cineastas na Croisette, antes de desenvolverem um pouco a ideia do que os levou a um projeto filmado em tempos da Covid-19 na sua cidade natal, Lourdes, e que não foge a essa realidade.

“As pessoas estavam sempre a dizer-nos para fazermos isso, mesmo antes do Coronavírus.”, disse-nos a dupla de realizadores que se assume como fã de Jacques Demy, de quem assumem influências para este trabalho, especialmente de “As Donzelas de Rochefort”. “É a história de alguém que poder ter partido há muito tempo e regressa. Reconhecemos essa pessoa ou não?”. 

Mathieu Amalric

Amalric joga o papel principal, o de um trovador dos tempos modernos de Paris que conhece uma noite uma jovem muito bonita que lhe transmite uma única mensagem antes de desaparecer: “Acima de tudo, não sejas tu mesmo“. Alucinação ou não, ele sai da capital e acaba por encontrar em Lourdes a mulher por quem já está apaixonado. Ela não se lembra dele. Mas uma comovente sexagenária acredita que Tralala é na verdade o seu próprio filho, Pat, que desapareceu há vinte anos nos Estados Unidos. Tralala  assume esse  “papel”, encontrando uma nova família e descobrindo o génio que nunca teve.

O termo tralala é um termo muito comum em França e aproveitamos para o título e personagem”, dizem Arnaud e Jean-Marie, explicando que originalmente todo o filme foi construído a pensar numa figura: “Escrevemos a pensar no cantor-compositor e ator Philippe Katerine. Ele compõe canções e canta as mesmas. Escrevemos tudo a pensar nele, mas na altura ele estava um pouco de férias de si mesmo. Quandoeu o guião viu uma versão de si mesmo e preferiu não fazer. O Mathieu veio e foi uma novidade para toda a gente.

Mathieu Amalric e Maiwenn

Um dos elementos chave do filme é mesmo a mensagem “não sejas tu mesmo”, algo que a dupla considera anti-estabelecido e o oposto do qu é costume acontecer em regiões como Lourdes, marcadas por aparições”: “Esta frase é do Phillipe Katerine. Nessas aparições, como em Lourdes, há sempre uma frase que é expressa a quem assiste a isso. Esta frase escolhida é uma contradição a tudo isso. Dizemos a brincar que é uma frase anti-nacionalista. Não sejam vocês mesmos, parem com o nacionalismo. E é isso que faz o Tralala”.

Filmado durante a pandemia com enormes constrangimentos, a dupla confessa que no guião as máscaras não existiam, mas nas filmagens de algumas sequências era impossível não ver máscaras nos rostos das pessoas nas ruas. Por isso, ambos optaram por avançar para os novos tempos: “Não podíamos fazer uma parte documental  em Paris onde as máscaras existem e outras partes de ficção como se elas não existissem.(…) Filmamos em setembro e em março não sabíamos o que fazer. Decidimos assim filmar um musical na época em que se passa. O próprio espírito do filme saiu reforçado por ter sido filmado neste período”.

Indústria do Cinema em tempos Covid

“Qualquer filmagem num estúdio parisiense nestes tempos foi muito complicada”, reconhece a dupla, que apesar disso aponta para uma resposta da produção francesa em força durante esse período: “Foram muitos os projetos filmados nesse período. Foi algo estranho e, claro, a certo ponto as coisas travaram [casos de Covid-19 no elenco e equipas]. Houve coisas que mudaram originalmente, por exemplo, o que tínhamos planeado no final do filme não pôde ser como tínhamos pensado. As regras sanitárias não permitiam isso. Por isso decidimos colocar todo o público de máscara, mas os cantores não.“

O Futuro

“Estamos à espera da próxima catástrofe”, diz com bastante humor negro Arnaud, complementando Jean-Marie: “Há dez anos atrás filmamos ‘Les derniers jours du monde’, um filme apocalíptico onde uma das causas era um vírus. E já tínhamos gente de máscara em cena. Já fizemos um filme-catástrofe (risos) por isso agora vamos continuar os projetos que já tínhamos em mente, mas incutir neles um toque contemporâneo, num jogo entre documentário e ficção.  Creio que nestes tempos o que nos vai mesmo fazer falta é a música. Trabalhar com cantores. Veja-se o que o Leos Carax fez [em ‘Annette’], com toda a liberdade. O futuro não sabemos como será.”

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